Latest News

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

“Viagem à Volta do meu Quarto”, de Xavier de Maistre



“Viagem à Volta do meu Quarto” (Tinta-da-china), de Xavier de Maistre (Sabóia, 1763-1852) é um clássico da literatura de viagens. Nesta edição, o texto que nomeia o livro é seguido de “Expedição Nocturna à Volta do meu Quarto”.
Os dois textos foram escritos enquanto o autor, que foi militar durante muito tempo, estava fora do campo de batalha e enclausurado no seu quarto, ora por imposição (devido a um duelo) ora por vontade própria.
Em Turim, Xavier de Maistre começa a “Viagem à Volta do meu Quarto” com a ironia que irá perpassar todo o texto:
“Que glorioso é iniciar uma nova carreira, e aparecer de repente no mundo erudito, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado brilhando no espaço!”
Tal qual o seu aposento fosse uma cidade ou um país, o viajante diverte-se em registar a topografia do local. São 42 dias de viagem relatados em 42 capítulos por um homem grato por estar protegido do clima violento da Revolução Francesa.  
O enclausuramento implica que as viagens sejam essencialmente interiores. É através da alma que o “eu” se desloca. Maistre, viajante experimentado em países europeus e na Rússia, era um homem de família aristocrata e com posses. No entanto, o austero quarto em que se encontrava enclausurado era por si considerado como opulento, pois tinha mais do que era necessário para a sua viagem interior. Esse quarto era partilhado com uma cadela e visitado, sempre que necessário, por um criado.
Durante esses dias o autor aplica o  “sistema da alma e do animal” quando avalia a música, a pintura, ou mesmo quando se detém perante o espelho e se analisa a si próprio.
“O espelho oferece ao viajante sedentário mil reflexões interessantes, mil observações que o tornam um objecto útil e precioso” São essas “mil reflexões interessantes” e a imaginação que proporcionam à alma que se desembarace da matéria.
Maistre viaja pela mão de Homero, de Virgílio, Milton, etc. A literatura liberta-o da clausura:
“proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro: a imensidão e a eternidade estão às minhas ordens.
O dualismo entre corpo e alma é essencial em “Viagem à Volta do meu Quarto” O corpo é visto como “um outro” limitado pelo espaço. A alma tem liberdade para vaguear sem constrangimentos. A viagem do corpo é sempre limitada, seja pelo tempo cronológico da sua deslocação, pelo espaço onde se desloca ou simplesmente por falta de meios económicos. A imaginação é o consolo do homem perante a realidade. O viajante é esse alguém que imagina. É isso que o leitor também faz: viaja enquanto entrega o corpo à inacção.
Os dois textos demonstram o dualismo do pensamento do autor. A dicotomia “corpo” e “alma”, em “Viagem à Volta do meu Quarto”, encontra equivalente na antagónica relação entre  a “razão” e o “sentimento”, em “Expedição Nocturna à Volta do meu Quarto”
Apesar da prosa bem trabalhada, a sequela carece da ironia do texto que o antecede e padece de redundância temática.
O quarto de Xavier de Maistre não é o mesmo, mas tal não merece maior atenção do autor, pois em muito se assemelha ao quarto de Turim onde esteve em prisão domiciliária. Neste caso, o escritor nascido em Sabóia é um recluso por opção própria, pois “havia muito tempo que desejava tornar a ver o país que outrora percorrera tão deliciosamente”.
Já sem o criado Joannetti, que o serviu durante 15 anos, a interpelação ao leitor continua em paralelo com as agora constantes menções a “querida Marie”. É com alguma amargura que recorda o seu criado ao ponto de afirmar que “ as recordações da felicidade passada são as rugas da alma”
As dicotomias continuam. A tensão entre “alma” e “corpo” suavizou-se e foi secundarizada pela relação entre “coração” e “raciocínio”:
“Que duas estranhas máquinas, exclamei, são a cabeça e o coração do homem! Levado alternadamente por estes dois móveis das suas acções para duas direcções contrárias, a última que segue parece-lhe sempre melhor”
A imaginação continua a ser o veículo de transporte, etéreo, capaz de o levar a grandes velocidades para qualquer lugar e de provocar emoções. Maistre senta-se numa janela, com uma perna para o exterior do quarto e a outra para o interior, e imagina-se a galopar. Mas o que ele queria era o cavalo de pau, mencionado nos contos de “Mil e uma Noites”, para poder viajar pelos ares como um relâmpago. Maistre continua a utilizar a literatura para alimentar a imaginação (Pedro Mexia, autor do prefácio, sublinha a influência de Tristam Shandy). É através da imaginação que, em “Expedição Nocturna à Volta do meu Quarto”, Maistre pede aos deuses para interceder junto da humanidade. As constantes interpelações ganham assim uma nova tonalidade. Xavier de Maistre interpela, usando constantemente o vocativo, os deuses da mitologia grega e o leitor. A importância do leitor, nos dois textos, é frequentemente radicalizada:
“ (...) espero que o leitor sensível me perdoe ter-lhe pedido algumas lágrimas; e se alguém achar que na verdade eu devia ter eliminado este triste capítulo, pode cortá-lo no seu exemplar ou mesmo atirar o livro para o fogo”
O autor passa de um estado perto da euforia, em “Viagem à Volta do meu Quarto”, para uma postura mais introspectiva e menos alegre em “Expedição Nocturna à Volta do meu Quarto”. A menção ao seu criado é substituida pela constante evocação de uma imaginada vizinha. O tom melancólico da prosa denota um homem mais desiludido e interrogativo:
“Porque injusto e extravagante capricho havia eu de encerrar um coração como o meu nos limites estreitos de uma sociedade?”
Escrito em 1794, “Viagem à Volta do meu Quarto tem resistido ao tempo. O sucesso levou a que o autor escrevesse a já mencionada sequela passada num outro quarto fora da cidade de Turim. Cerca de 220 anos depois, os dois textos são tão interessantes como no tempo em que foram escritos.


Sem comentários:

Recent

Random