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terça-feira, 24 de maio de 2016

Entrevista a Ana Zanatti



É possível encontrar felicidade num livro? Sim, é possível. “O Sexo Inútil” (Sextante) pode contribuir para que muitas pessoas se sintam inteiras, dignas e ajudadas. O livro de Ana Zanatti (Lisboa, 1949) espelha as limitações de quem alimenta o preconceito, ilumina o amor em detrimento do ódio, do hábito, da não-aceitação. Do medo.
A viagem que muitas mulheres e muitos homens fizeram ou terão de fazer está registada em 517 páginas escritas por uma autora que não fala só si, pois procura, essencialmente, ouvir os outros. A coragem existe do primeiro ao último parágrafo. Pais, mães e filhos narram as suas histórias e, ao fazê-lo, expõem os seus medos e as suas fraquezas. Mostram o calvário e como o conseguiram ultrapassar.
. “O Sexo Inútil” é a concretização de um projecto de 40 anos. Nos testemunhos reunidos, o leitor percebe a agonia, a angústia e desespero de pessoas a quem a sociedade tenta impor culpa. Percebe, também, que o Amor é a única via que existe para destruir preconceitos e eliminar distâncias.
Ana Zanatti concedeu uma entrevista ao Diário Digital no Festival Correntes d`Escritas, na Póvoa de Varzim. Falámos sobre temas difíceis, pessoas marginalizadas e destruídas. No fim, confirmou-se uma ideia:
 “O Sexo Inútil” tem de ser lido. Não pode passar despercebido.
Este livro ajuda à assunção plena do ser humano.


“O Sexo Inútil”. Inútil por que razão?

INÚTIL, é apenas uma ironia minha. Aos olhos de quem só legitima o acto sexual que pode procriar, as práticas eróticas e o sexo que não procria revestem-se de um carácter pecaminoso e de inutilidade. Na Antiguidade, e até chegarmos ao monoteísmo judaico, cristão ou islâmico, o sexo não tinha essa conotação negativa. Os códigos de Moral anteriores ao de Moisés não aliavam a ideia de pecado ao sexo. Esse conceito nasce a partir da história em que, à sombra da macieira, o primeiro homem e a primeira mulher comeram da árvore do bem e do mal e perderam a inocência. A partir daí cai-nos em cima o estigma do pecado e da culpa, do qual ainda não nos libertámos e que é muitas vezes relacionado com o prazer. Quando o prazer, que supostamente acompanha o acto sexual, se pode mascarar com a ideia da procriação, o sexo é legitimado, tem uma utilidade. Ora, o acto sexual entre duas pessoas do mesmo sexo, como não procria, deixa de ter essa desculpa, por isso marginaliza-se, não se legitima. Mas não nos podemos esquecer que O amor, seja entre pessoas do mesmo sexo ou entre sexos opostos, é sempre fértil.

Este livro resulta de um projecto de 40 anos, embora tenha sofrido algumas alterações com a entrada de Joana…

Reflectir sobre a liberdade e a dignidade feridas pelo preconceito e pela discriminação era um projecto antigo. Juntei correspondência que recebi ao longo de 40 anos com o intuito de um dia analisar questões colocadas por centenas de pessoas. No processo de preparação do livro, ocorreu-me utilizar, a par dos testemunhos que estava a recolher e da análise dessas cartas antigas, excertos dos emails que troquei ao longo de um ano com essa jovem estudante, a quem pus o nome de Joana. Ela veio pedir-me auxílio por estar a entrar em depressão face ao medo de revelar aos pais, extremamente homofóbicos, a sua orientação sexual.
Embora cada caso tenha as suas especificidades, e são muitos os testemunhos que o livro tem, a travessia de Joana reflecte a de muita gente.

Parecem movimentos antagónicos, ou seja o dela começa com início dessa travessia, enquanto com os outros casos já funciona em retrospectiva.

- Exactamente. O caso de Joana serviu-me para encontrar o fio de uma história que pode ser a de milhares de pessoas. É uma espécie de coluna vertebral de milhares de casos.


No livro escreveu “vivo estas pequenas vitórias como se fossem minhas.”. Houve um fenómeno de projecção sua na condição de Joana?


Não pude deixar de comparar a minha própria história com a destes jovens com quem falei e, particularmente, com a da Joana que acompanhei de perto. Daí ter ido buscar excertos dos meus diários de há quarenta anos. É que passados quarenta anos, depois de tanto se ter caminhado e discutido, de tantas leis que já foram actualizadas, o drama vivido interiormente continua a ser muito semelhante, numa enorme quantidade de jovens e famílias.

Parece haver mais liberdade agora…

Felizmente. Mal de nós! Mas a verdade é que, ao contrário do que a maior parte das pessoas possa pensar, o preconceito está muito enraizado nas pessoas e faz-se sentir de forma a perturbar gravemente a auto estima, a vida, e a saúde de muitos jovens.

Não teve receio de se estar a meter em problemas com o apoio a Joana?

Refiro isso no livro. A minha maior preocupação era que com pais tão preconceituosos, se soubessem que ela tinha vindo pedir auxílio, como poderiam reagir… Antes de tudo era importante que ela tomasse consciência de si mesma, da sua orientação sexual e que a acolhesse sem culpas porque dúvidas, todos podemos ter. Sempre tentei que ela se responsabilizasse pela pessoa que é e pelos seus actos, como todos devemos fazer. Agir com consciência e responsabilização. Faz parte do nosso crescimento como pessoas. 

Na sociedade há vantagem do “Mim” (o que os outros pensam de mim) sobre o “Eu” (o que eu penso de mim)?

Desde crianças que procuramos agradar, ser bem olhados, bem recebidos, acarinhados e admirados. A nossa construção interna depende frequentemente da apreciação e validação das outras pessoas. Os miúdos não gostam de serem diferentes uns dos outros, para não serem olhados de forma diferente.
É como se a nossa identidade precisasse da confirmação alheia para se fortalecer. Ora isso só nos conduz a uma maior fragilidade, passamos a ser árvores sem raiz, que ao mais pequeno sopro de vento caem por terra, tombam. É fundamental que a nossa estrutura interna, o tronco da árvore e as suas raízes sejam fortalecidos. A pessoa que somos não deve ser abalada por aquilo que pensam de nós.
Os olhares são diversos. Cada pessoa constrói a sua versão de nós. Se estamos constantemente à espera da aprovação dos outros para sermos a pessoa que somos, não seremos ninguém. Seremos um fantoche nas mãos de outras pessoas, ou aquilo que os outros acham bem que sejamos.


Há casos dramáticos de não-aceitação da sexualidade….

 Por isso falei com tantas pessoas. Pessoas que por medo de não agradar, de decepcionar, de serem mal vistas por algo que faz parte da sua natureza e que não interfere com a liberdade de ninguém, tentaram fugir à sua própria essência. Ao ouvirem desde miúdos comentários negativos em relação às pessoas com orientações sexuais não normativas, acabam por se pôr em causa. Percebem que representam aquilo que é criticado e temem represálias, discriminações de toda a ordem. Depois há também os pais que não estão preparados para abraçar com amor os filhos, independentemente da sua orientação sexual, e atiram com uma carga enorme para cima deles. É como se de repente chegasse um ser novo àquela casa e a família lhe virasse as costas.

Os pais estão prontos para receber uma ideia…

Sim, uma ideia que fizeram do filho, uma ideia consensual que toda gente aprova e que é bem vista. Também os pais querem que os filhos correspondam àquilo que é considerado normal, para eles próprios não serem pais de um homossexual ou transexual. Alguns sentem vergonha e têm medo do olhar dos outros.

Ultrapassar as próprias limitações…

Exactamente. É curioso. Um dos pais com quem falei tinha imensos preconceitos. Quando conversámos, ele disse-me “eu tinha duas coisas na vida que para mim eram claras: “homossexuais e pretos, dava cabo deles”. A minha filha vive com um preto. O meu filho é homossexual. Veja a volta que eu tive de dar na minha vida, no meu olhar sobre estas questões para aprender a lidar com elas sem preconceito.”

O Ser Humano já pisou a lua, enviou máquinas para Marte, criou armamento que pode destruir a Humanidade, mas não consegue destruir o preconceito. Como é que se destrói uma ideia feita?

Penso que só através da via do amor, do respeito pela liberdade do outro, pela inclusão. O amor dissolve tudo.

Uma provocação: é pela via da tolerância?

A tolerância nada tem a ver com amor. Pressupõe superioridade de alguém em relação à pessoa que se tolera.

É algo diferente…

São termos muito usados: “Tem de haver mais aceitação. Tem de haver mais tolerância”. Cito, logo no início do livro, Saramago e Agostinho da Silva, dado que ambos se pronunciaram sobre esses dois termos. Agostinho da Silva detestava a palavra tolerância. Dizia que dava a ideia de desdém. Saramago dizia que tolerar a existência de outro e permitir que ele seja diferente não basta. Quando se tolera apenas se concede. Não é uma relação de igualdade. Eu estou em cima, tu estás em baixo. Eu concedo que sejas assim.

A palavra dignidade é recorrente no livro.

A ideia que presidiu a este livro foi falar de que forma o preconceito e toda a discriminação que vem do preconceito atenta contra a dignidade de cada um. E também contra a liberdade.
Mas também cabe a cada um de nós não permitir que a nossa dignidade seja beliscada. Não é por alguém atentar contra a minha dignidade que eu a vou perder. Isso pode ferir-me mas não vou renegar-me, encolher-me, deixar de ser quem sou, fiel aos meus princípios e ideais.

 Há, também, um conceito sempre inerente: o de culpa. A dignidade depende da eliminação da culpa?

Também. Uma coisa é a pessoa admitir que cometeu um erro grave – se feriu, enganou ou matou alguém, por exemplo- outra coisa é sentir-se culpa por ser quem se é, quando o seu ser em nada implica com a liberdade dos outros. Não prejudicando ninguém está a admitir uma falsa culpa e a negar-se a si próprio:
“Por que me olham de forma negativa, eu não vou ser a pessoa que sou. Vou ser o que eles querem porque me sinto culpado de algo que não fiz. E sinto-me assim porque não correspondo ao que é suposto. O meu pai e a minha mãe têm vergonha de mim. A culpa é minha. Onde é que eu errei? Por que é que não sou como os outros? Se eu fosse como os outros, eles já não sentiam vergonha de mim.”
Não só os pais estão a atentar contra a dignidade do filho, como o filho está a permitir que a sua dignidade seja atirada para a lama.

Tem uma relação “resolvida” com a religião? Notei algum sarcasmo no seu livro. Na pág. 63, um dos jovens que dá testemunho, intitula-se de “papa-hóstias”

Sim, trata-se de um jovem nascido e criado no Alentejo, num meio bastante fechado e católico… Eu também tive uma educação católica. Não posso dizer que sou católica, mas no livro falo da minha relação com o divino, a minha relação com Deus. Não estou propriamente ligada a qualquer religião. Tenho a minha própria crença e a minha própria relação com aquilo que me é sagrado. É mais uma filosofia de amor do que uma religião.

No livro afirmou que “o cristianismo deu de beber veneno a Eros”...

É uma frase do Nietzsche. As práticas eróticas estão muito relacionadas com a culpa, com a ideia de pecado, de interdição, talvez por não terem como finalidade a procriação, como disse há pouco.

Vi uma entrevista com Stephen Fry, em que ele afirma que sendo homossexual, judeu e bipolar, o sucesso em Hollywood estava garantido. E se fosse uma mulher, interroguei-me. Em relação ao género, sentiu isso ao longo da sua vida?

 Há menos mulheres [do que homens] com profissões públicas capazes de dar um passo e dizer “aqui estou eu e por inteiro”. Em Portugal, nem sei se há casos de mulheres [com profissões públicas] que o tenham vindo dizer publicamente. Há alguns homens, sobretudo ligados à cultura e ao meio artístico mas políticos, desportistas, devem ser raros se é que há algum. Há ainda uma cultura de medo, de vergonha, de medo do que os outros pensam muito forte e castrador. E no caso das mulheres é uma questão cultural. As mulheres sempre foram levadas a esconder a sua sexualidade, que, aliás, foi durante muito tempo vista em função do homem. Para dar prazer ao homem, é como se uma relação onde não haja falo não possa ser uma relação sexual inteira. Daí que também, durante muito tempo, a homossexualidade feminina quase nem fosse levada a sério enquanto a dos homens tinha outra expressão. Os homens sempre gostaram de exibir, de falar uns com uns outros. O sexo para as mulheres foi algo muito escondido, muito vivido só para elas. Mesmo na heterossexualidade.


Os capítulos de “Sexo Inútil” têm títulos de filmes…

Sim, a determinada altura, quando já tinha o livro quase pronto, pensei na forma de dividir os capítulos. Ocorreu-me dar títulos de filmes em vez de números ou letras ou nomes. A escolha tem exclusivamente a ver com o que sugere o título e não com o conteúdo do filme em si. É apenas uma sugestão do que se vai passar naquele capítulo. Podia ter posto nomes de peças de teatro, tanto uma coisa como outra teriam a ver com a esfera em que me movo, mas talvez isso não tivesse uma identificação tão grande para a maioria das pessoas.



Mário Rufino

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