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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Entrevista a Julián Fuks






Chegou do Brasil, Viu a Póvoa de Varzim, convenceu nas Correntes d`Escritas. Tudo saiu bem a Julián Fuks. O livro, a intervenção na Mesa e as entrevistas deixaram excelente imagem do autor de “A Resistência” (Companhia das Letras)
Julián Fuks conjuga a amabilidade com a inteligência. A clareza do seu discurso é ímpar tanto no texto literário como na oralidade. O autor parece procurar constantemente a palavra mais próxima ao que sente e ao que pensa. “A Resistência” reflecte essa demanda.
Sebastián, o narrador do livro, tenta reconstruir a história da sua família a partir da origem: a Argentina. Os seus pais, psicanalistas, foram obrigados a fugir da Argentina, devido à implementação de uma ditadura militar. Corria o ano de 1976. No período de vigência dessa ditadura, centenas de crianças desapareceram.
Em fuga da Argentina para o Brasil, onde Sebastián viria a nascer, o casal leva uma criança entretanto adoptada.
Ao longo dos anos, as relações entre irmãos e entre irmãos e pais vai-se complicando. E um mistério vai ganhando cada vez maior importância: Quem é o filho adoptivo?
Será Sebastián a narrar, nesta pungente autoficção, a evolução familiar desde a origem argentina até anos já passados de exílio no Brasil.
O Diário Digital entrevistou o autor na 17ª edição das Correntes d`Escritas, para saber mais sobre “A Resistência”
O silêncio após a primeira pergunta foi desconcertante, mas logo se percebeu que esse momento era a antecâmara de uma resposta sucinta e esclarecedora. Julián Fuks ponderou antes de responder a cada pergunta. E cada resposta foi demonstrativa da inteligência do autor.


No teu livro, o irmão adoptivo diz isto na pág. 187:
“Sobre isso você devia escrever um dia, sobre ser adotado, alguém precisa escrever”
“ A Resistência” foi a resposta a esse desafio?

-Houve esse desafio, feito há alguns anos como resposta ao processo de terapia familiar por que estávamos passando, processo que se narra no livro. Tanto ele quanto eu vivemos a situação muito intensamente, e naquele momento eu não pensava que aquilo podia-se tornar literatura. Simplesmente assimilei o comentário e não o esqueci. Ficou em mim. Foram precisos muitos anos para que eu entendesse que devia escrever sobre aquilo. Comecei então a escrever um conto sobre o meu irmão. E, ao me pôr a escrever, percebi que a história tinha que crescer, que devia também contar a história dos meus pais. Assim foi se configurando o romance.

Quando dizes “eu não sei bem se isto é uma história”, tem a ver com artifício literário ou não sabias mesmo onde o texto te levava?

-Esse comentário é feito ainda no começo do livro. De facto, havia algo de imponderável nesse início. Ali eu contrariava, inclusive, a minha prática de livros anteriores, pois abdicava de um planejamento e ia escrevendo enquanto tentava encontrar o caminho. Depois de passar por essa primeira parte, criei uma arquitectura para o livro. Mas a frase tem também outra intenção. Traz uma oposição entre a História, a que se costuma conceber com H maiúsculo, e a história menor, que é a pessoal e íntima. É nessa relação entre histórias que eu resolvi escrever este livro. A história familiar e íntima vai-se transformando lentamente numa História social e política.

Essa estrutura de que falaste é fragmentada. A forma como contas a história tem a ver como construímos as nossas narrativas através da memória?

Quando eu comecei a conceber o livro na totalidade, percebi que só dispunha de fragmentos. Transformar isso numa história completa e total ia ser uma maneira artificial de construir um enredo. Como eu queria ficar o mais próximo possível daquela realidade específica que eu tinha à disposição, a fragmentação me auxiliou a lidar mais directamente com esses elementos da experiência e da memória. Permitiu-me também fazer um livro mais de indagações do que de certezas. Em cada fragmento eu não chego a contar um episódio completo.  Por vezes conto uma pequena passagem, transitória, que me leva a algumas reflexões que estou tentando apreender. Não era minha vontade construir grandes cenas, passagens grandiloquentes.

O narrador está muitas vezes desconfiado da sua própria memória. Procuraste tentar ser o mais honesto possível?

Em grande medida sim, a desconfiança era parte dessa honestidade que eu pretendia no livro. Mas também partia do facto de que não se trata só de uma memória pessoal; é também uma memória a partir da memória de outros. É uma memória construída a partir de discursos sobre o passado, não uma memória directa do passado. São elementos falíveis, que não poderiam  construir um passado monolítico.
Dois personagens viveram o passado da militância contra a ditadura: o pai e a mãe. E eles não chegam a nenhuma versão comum. Eles têm versões díspares. Esse é o tipo de disparidade que eu quis incorporar na minha narrativa, para que não houvesse um discurso pronto sobre o passado, e sim um discurso em construção.

Há uma parte do texto que está dotada de uma tristeza extraordinária:
“(...) algum dia vocês se distraíram, vocês continuaram a vida e me deixaram sozinho aqui”. Com este livro quiseste compreender o teu irmão e aproximares-te dele?

Sim, essa era uma das finalidades da escrita, para além da finalidade da literatura, em si mesma. Foi uma tentativa de aproximação e de diálogo, num lugar em que o diálogo não se colocava muito francamente. Apesar desses lampejos verbais, como nesse momento de muita abertura do irmão para falar de certas coisas, a maior parte do tempo essa relação fraternal se dá pela impossibilidade da palavra, pelo silêncio, pela alusão pouco clara. O livro tinha a intenção de colocar palavras no lugar em que havia só silêncio.

Testas os limites da própria linguagem? O narrador chega a dizer “Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz”

O caso é que era preciso colocar palavras em lugares em que muitas vezes as palavras são incómodas. Por muito o tempo a família optou pelo silêncio, porque a palavra falada ou ouvida seria dolorosa. Num mundo ideal, é claro, não se falaria de adopção. O filho adoptivo é um filho, pura e simplesmente. Não seria preciso falar de um irmão ou de um filho adoptivo. Não seria preciso discriminar. Neste outro mundo, no entanto, é preciso encontrar palavras para lidar com essa questão, e essas palavras provocam inevitavelmente algum desconforto. Eu sentia isso enquanto escrevia o livro. Sabia que falar de adopção era falar de um assunto em que a própria palavra tinha o poder de estigmatizar. Falar da adopção como cicatriz, como nessa passagem, seria aumentar a importância que a adopção tinha ou poderia ter na vida desse personagem. Este era o risco a ser evitado: que as palavras perpetrassem a violência que se propunham a dissipar.

O narrador e o irmão adoptivo parecem optar por estratégias opostas. Enquanto o narrador enfrenta os problemas, o irmão adoptivo parece refugiar-se no silêncio.

É um livro de busca de identidade, mas feita por quem talvez não devesse fazê-lo. É uma procura feita por uma figura substituta. O irmão [adoptivo] poderia ir atrás das suas origens, indagar as circunstâncias da adopção, se esta podia ter alguma relação com a ditadura militar e o sequestro de bebés, muito frequente nessa época. Mas como esse irmão se imobiliza e foge dessas questões, o irmão narrador faz a busca no lugar dele. Essa busca é, inevitavelmente, limitada, por também ser uma busca própria e pessoal. Esse narrador não chega a ir muito longe na procura, pois poderia acabar incorrendo em uma invasão, em algo que não cabe a ele. Teria de ser o seu irmão [adoptivo] a pesquisar as suas origens. Cada um tem o direito, afinal, de ir atrás ou não ir atrás de seu próprio passado.

O irmão adoptivo teve psicanálise durante a adolescência. Contou muito sobre ele próprio, mas nunca mencionou ser adoptado. É o último tabu?

A consciência da adopção havia começado pela palavra. Os pais transmitiram-lhe desde o início a informação de que ele era filho adoptivo, só que aos poucos se dá um silenciamento e um afastamento dessa realidade como se fosse mais confortável viver assim, no desconhecimento. Isso cria um problema, pois a questão permanece ali mesmo que ele não queira lidar com ela.
Toda essa passagem é muito forte para mim. Não me refiro à passagem do livro, mas sim  à passagem da vida, o silenciamento do meu irmão, o facto de ter passado muito tempo em psicanálise sem falar sobre esse assunto. O livro conduz a partir disso para a terapia familiar, em que, depois de alguma insistência, o irmão aceita essa questão e passa a falar directamente sobre isso.

O irmão adoptivo vai-se encontrando ou desequilibrando?

Eu acredito que ele se vai encontrando, ainda que pareça um desequilíbrio. Talvez seja um desequilíbrio necessário para um equilíbrio posterior.

O livro “A resistência” é uma forma de resistir a quê? Ao medo? Ao esquecimento?

A proposta é que o título permaneça em aberto. Há muitas resistências sendo narradas aqui. Há a resistência dos pais à ditadura militar, a resistência do irmão a conceber a sua própria adopção, a resistência do irmão ao convívio familiar, a resistência do narrador a lidar com essa questão e a falar sobre esse assunto. O que me atrai na ideia de resistência é a ambivalência que o termo tem. Pode ser resistir positivamente, se colocar firmemente contra uma opressão, ou pode ser também se recusar a falar, se recusar a ver a verdade. A minha preocupação é captar o momento em que uma resistência se converte em outra.


Mário Rufino


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