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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Entrevista a Nuno Costa Santos






Um homem descobre um inédito numa gaveta, em casa da sua avó. É do seu falecido avô. A leitura desse original motiva-o a escrever a sua história, sempre em diálogo com o conteúdo do livro encontrado.
Esse homem é Nuno Costa Santos (n.1974), autor de “Melancómico”, “Vou Emigrar Para o Meu País” (Escritório), “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” (Tinta-da-China). Essa descoberta é a raiz do seu primeiro romance: “Céu Nublado com Boas Abertas” (Quetzal)
Desde Lisboa aos Açores, o autor viaja para conhecer melhor o seu avô, que é recordado como um homem doente, e para procurar a sua própria identidade.
O humor britânico de Nuno Costa Santos chega a ser corrosivo, principalmente com ele mesmo. Música, droga, literatura e paisagem compõem uma versão dos Açores afastada do postal turístico.
O Diário Digital conversou com o autor nas Correntes d` Escritas, Póvoa de Varzim.


O título é quase uma citação do boletim meteorológico. Não será também uma preparação para um jogo de opostos que existe no livro?

Este título não fala só da meteorologia e do tempo instável que existe nos Açores. Fala também – e talvez sobretudo - da vida. Há um céu nublado, ou seja, uma tragédia essencial, porque na nossa caminhada temos muitas perdas e sabemos que vamos morrer. Mas, dentro desse trilho frágil, há possibilidades, momentos, relações, paisagens.
Reflecte bem o que foi a vida do meu avô, uma existência de céu nublado com boas abertas. Uma vida de doença desde os 27 anos. Teve de viajar de uma freguesia açoriana para o Caramulo, deixando para trás uma mulher com quem havia casado há pouco tempo. Ao sexto ano de internamento foi-lhe retirado um pulmão, o que é de uma violência tremenda. Apesar dessa infelicidade, não deixou de ter a felicidade de se tornar leitor, de ver filmes, teatro, de conviver com algumas pessoas. De receber a minha avó, que foi ter com ele ao fim de quatro anos de distância. O céu do Caramulo apresentou boas abertas e a vida que se seguiu também. Reergueu-se, teve três filhos, tornou-se gerente de um banco nos Açores.
Um dos momentos mais bonitos do livro é o facto de ele ter extirpado o pulmão para não contaminar a filha, minha mãe, que tinha acabado de nascer. Há um ponto importante:
esta é a minha visão sobre o livro do meu avô. Tenho um primo direito que foi a única pessoa, além de mim, a ler o original que o meu avô escreveu sobre a sua experiência enquanto doente no Caramulo, a partir do qual construo um diálogo literário. Ele tem uma visão diferente do meu avô enquanto pessoa. O meu primo vê o seu lado solar. Eu aqui apresento-o como um homem doente, acompanhado de uma garrafa de oxigénio, embora no fim da jornada também revele umas boas abertas. Porque, de facto, ele teve uma vida realizada e reconhecida... E dançou! Teve amigos, fazia graças. Mas depois voltou o céu nublado: o nervosismo e a tensão, outros problemas que trazia consigo.

Não tinha o amparo da fé…

Essa circunstância torna o meu avô uma pessoa-personagem particularmente interessante. É excepcional uma pessoa dos anos 40 do século XX, num arquipélago muito católico, não o ser. Ele nasceu numa freguesia rural, onde havia o ritual dos pais irem a todas as missas. O meu avô descreve uma Missa do Galo, questiona aquilo tudo e demonstra o quanto essa celebração lhe causa enfado.
Há um segmento especialmente importante. Ele está a assistir à procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres e vê a minha avó e a minha bisavó (mãe dele) a cumprirem uma promessa por causa da doença. Está a ver aquilo tudo e a pensar que não acredita naquela prática religiosa.
Há também uma dimensão política. Ele começou a ficar muito impressionado com as injustiças sociais do meio em que nasceu e cresceu. A ilha de São Miguel ainda é uma sociedade bastante estratificada socialmente, mas na altura era muito mais. Ele não gostava do lado servil em relação aos senhores da terra. Daí veio o interesse pelos neo-realistas. Alves Redol foi fundamental. Ferreira de Castro é muito mencionado. Existem outros autores progressistas pelos quais se interessou. Pelo seu conterrâneo Antero de Quental, por exemplo, que se suicidou no mesmo Campo de São Francisco onde decorre a procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Era um autor de referência para o meu avô.
Céu nublado pode também ser a nuvem da tuberculose. É uma mancha.

Em “Céu Nublado com Boas Abertas” traças o teu trajecto nos Açores e, em simultâneo, o do teu avô. Quem é que procuras conhecer?

É uma espécie de diálogo entre dois homens da mesma família que não conviveram. O meu avô expõe-se muito no livro que escreveu sobre a sua experiência enquanto doente – livro que encontrei na sua casa da Estefânia quando cheguei a Lisboa, vindo dos Açores, para estudar Direito. Eu não poderia fazer outra coisa neste meu projecto literário. Se eu tenho a ousadia de expor algo que ele escreveu e não publicou, não posso estar com uma postura distante, “de poltrona”. Podia ter tido esse gesto, mas não era isso que me interessava. Gosto de me jogar nas coisas que escrevo e faço. Gosto desse risco. Por vezes causa-me preocupações mas costumo avançar.

Reformulo a pergunta: Os teus livros são uma forma de te conheceres e às tuas contingências?

Todos nós somos contingências. Um dos nossos grandes problemas é julgarmos ser absolutos. Tento sempre sabotar o meu lado mais solene justamente por estar sempre a ouvir-me dizer para me meter em causa e contraditar-me. Resisto aos discursos sentenciosos, esses que em Portugal têm muitos seguidores.

Sentiste pudor ao ponto de filtrar alguma informação?

Filtrei pouca. Falei com a minha avó, que foi a pessoa que sofreu mais com isto tudo. Tentei saber o que ela sentiria se eu revelasse algumas coisas...

Filtraste mais da parte do teu avô do que da tua?

Não consigo fazer um balanço rigoroso. Falo das minhas contradições, do meu processo de crescimento, dos meus deslumbres, das minhas ofensas. Ou seja, fui dialogando com o meu avô no que eu penso ter algumas parecenças ou possibilidades de diálogo com ele. São dois homens a conversar sobre a instabilidade do tempo que é isto de viver.

Com um livro como intermediário…

Sim. São dois homens da mesma família em que o descendente tenta compreender o outro e tenta entender-se a si próprio através de um documento que o ascendente deixou.


A tua avó já leu?

Já leu. Assim como a minha mãe e os meus tios.

Reviu-se no livro?


Sim... Este livro teve um poder de comoção grande na minha família. Era algo que me preocupava. Recebi mensagens emocionadas. A minha avó gostou muito de reviver os períodos solares. Ela é uma grande resistente. Casou-se com o meu avô, mas seis meses depois este foi para o Caramulo. Ficou sem marido, naquele ambiente fechado de freguesia em que se perguntava “será que este homem não a enganou, escondendo a doença?”. Ela acompanhou sempre a doença do meu avô, e quando o meu avô ficou mais nervoso, com todas as suas alterações de humor, ela também esteve lá.

Não deixaste a ética de lado.

Não deixei a ética de lado mas não sei se a respeitei sempre. Há um parêntese que é preciso fazer. Isto é literatura. Carrego numa cor que pode ser mais interessante narrativamente sem beliscar o essencial dos factos. O livro é a minha interpretação literária.

A verdade que interessa é aquela que está no livro e não propriamente a que é inerente à realidade?

Sim, mas está sempre na fronteira. Não posso negar que este elemento real interessa-me muito. Há sempre um lado de ilusionismo, de ficção, de artifício. Estamos a assistir a um regresso artístico ao real – na literatura, na música, no cinema, na televisão. Eu não me considero um seguidor desse movimento, mas um praticante natural desse movimento. Quando li o livro-manifesto do David Shields, “Reality Hunger”, pensei que era aquilo que eu sentia e que já tinha intuído e até discutido com alguns amigos. Muitos trabalhos meus já têm isso: esse ilusionismo entre o real e o imaginário. Esse fingimento de algo que aconteceu. Há muita gente que julga que sou o melancómico.

A melancolia está presente no “Melancómico”, em “Vou Emigrar para o Meu País” e em “Céu Nublado com Boas Abertas”. É artifício ou é mesmo parte de ti?

Tenho isso, de facto. É das minhas raras virtudes. Não há escrita sem melancolia. Há aí muita gente que não a tem. Transplantaria apenas parte da minha melancolia para alguém que fosse muito – mas mesmo muito - alegre. Estás a ver aquelas pessoas muito contentes e às quais faz falta uma ponta de angústia? Eu iria a uma clínica e dava-lhes um tudo nada de angústia [risos].

Parece-me que és menos “ácido” neste livro. Em “A crítica aqui” e “Follow the leader”, duas crónicas de “Vou Emigrar para o Meu País”, existe mais acidez.

Não concordo muito com a afirmação. Mas, tentando falar com essa ideia, digo que a crónica permite de modo muito claro esse registo. Quando escrevo uma crónica ácida tenho tendência para me meter nessa acidez. Sou ácido comigo. Não gosto de me excluir. Tenho de tirar o tapete a mim próprio.

Em “Vou Emigrar para o Meu País” escreveste “Os portugueses? Estão a ver os portugueses? Tipo «nós»”...

Sim, sim... Tento meter-me sempre na jogada. Em Portugal pratica-se muito um humor “gil vicentino”: o de satirizar “os poderes”, sejam estes políticos, económicos ou religiosos. Ora o poder também somos nós, cada um de nós. Reconheço-me mais no humor irlandês e inglês. Eles têm uma mistura de humor com melancolia. Olham para si e riem-se.

Na entrevista com Luís Caetano, em “A Ronda da Noite”, disseste várias vezes que eras açoriano.

Este livro também tenta resolver essas questões de identidade, que são reais e sérias. O facto de eu ter chegado a São Miguel com sete anos (os meus pais estavam a trabalhar em Lisboa quando nasci) e de ter sido chamado “português”... O facto de não ter sotaque, apesar de ter muitas expressões micaelenses… Em pequeno a minha reza diária terminava assim: Deus, faça com que não haja guerra nem tremores de terra.” É a reza de alguém que se fez numa ilha muito bonita edificada à custa de vulcões e tremores de terra. Quando rezo a reza de infância, estou a regressar ao berço. Os meus pais são açorianos e cresci num ambiente totalmente açoriano. Depois vim para cá [continente] estudar e por aqui fiquei.
O açoriano, quando fala com alguém, ao fim de três ou quatro minutos está a dizer que é açoriano. Há uma necessidade identitária.
Eu quero ser enterrado nos Açores. Penso que é um argumento decisivo. Seria absurdo ser enterrado em Lisboa. Não gosto particularmente de viver em Lisboa, talvez por causa da felicidade comunitária que tive nos Açores. Nunca experimentei aquele desejo cliché de sair da ilha e ir para “novos horizontes”.

Há muitas influências literárias e musicais no teu livro…

Dialogo com autores como Kafka, Vila-Matas, Camus, Paul Auster, um autor hoje um pouco desprezado. Há também uma conversa impossível entre Beckett e influências açorianas. E há muita música. De My Bloody Valentine a Paul Buchanan, dos Blue Nile. Estou sempre a ouvir música. As músicas aqui incluídas não foram escolhidas de uma lista. Foram aparecendo à medida que o livro foi acontecendo. Por exemplo, “Wish You Were Here”, dos Pink Floyd, surge para caracterizar uma geração anterior à minha – e inclui uma passagem que tem tudo a ver com o espírito do livro: “blue skies from pain”. É uma geração que viveu os anos 80 nos Açores, em que se ouvia muito os primeiros álbuns dos U2, os Pink Floyd, os Rolling Stones. Vários dessa geração estiveram envolvidos em drogas duras.

Os Açores foram fustigados pela droga?

Muito, muito… Continuam a ser.
Em “Head on”, dos Jesus and Mary Chain, canta-se “I´m taking myself to the dirty part of town where all my troubles can´t be found”. É convocada para caracterizar uma zona de Ponta Delgada onde há droga, travestis, prostituição. Ocorreu-me no momento da escrita. Funciono muito assim. Há uma mistura entre apontamentos prévios, que depois vou organizando, com o que surge no momento.

Na geração do teu avô dizia-se que era preciso aprender a ler e a escrever para se arranjar um ofício. Assim sendo… o que correu mal contigo?

[risos] Toda a família tem de ter uma ovelha ranhosa. Se calhar sou a concretização familiar de uma vocação literária de pessoas como o meu avô materno e o meu bisavô paterno, que era poeta em Ponta Delgada. Um gerente bancário, que escreveu um livro, e um contabilista, que  escreveu pequenos livros de poesia num círculo micaelense de amigos, em que cada um tinha a sua profissão e se reunia no café Royal para discutir literatura e política. Há uma raiz. Venho na sequência deles, com o sangue que eles transportavam, e faço uma opção mais radical em ir só para a escrita.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=819320


Mário Rufino

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