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quarta-feira, 1 de junho de 2016

LeV- Literatura em Viagem 2016



Cláudio Magris e Howard Jacobson em uma das melhores edições do “LeV- Literatura em Viagem”




A 10ª edição do “LeV-Literatura em Viagem” decorreu de 13 a 15 de Maio, em Matosinhos. Uma Exposição, várias visitas a escolas, a Feira do Livro, uma Oficina e a presença de autores consagrados levaram a que esta edição tenha confirmado o LeV como um dos principais festivais literários de Portugal.


Há várias narrativas antes de cada gesto. São as histórias que moldam os futuros rituais. Matosinhos, cidade litoral, tem a sua génese em lendas que conjugam irrealidade com o suor de quem trabalhou ao longo dos séculos seguintes.
A mais antiga imagem de Jesus crucificado está em Matosinhos. Segundo a lenda, a imagem em madeira de Cristo deu à costa no ano de 124. Havia sido esculpida por Nicodemos, que fora testemunha da crucificação de Jesus. A Bíblia refere que Nicodemos e José de Arimateia retiraram da cruz o filho de Deus. Nicodemos guardou o Santo Sudário. José de Arimateia foi o fiel depositário do Santo Graal.
Nicodemos começou a esculpir a imagem de Jesus crucificado na madeira, baseando-se na imagem do Santo Sudário.
Devido à perseguição perpetrada pelos romanos, ele viria a lançar as esculturas ao mar Mediterrâneo. Uma dessas imagens veio dar a Matosinhos, mas sem um braço. Esse braço viria a ser descoberto cinquenta anos depois por uma mulher em busca de lenha para a lareira. Quando depositou esse pedaço de madeira no lume, ele saiu das chamas. Uma e outra vez. Foi então que a sua filha, surda-muda, disse-lhe em bom som que estavam perante o braço em falta na escultura.
Devido a esta lenda, a cidade entrega-se uma vez por ano às Festas de O Senhor de Matosinhos. As estradas são ocupadas pelas barracas de artesanato e bugigangas. Os Matraquilhos rivalizam com as “vintage” máquinas de flippers, os carrinhos de choque sobrevivem às novas tecnologias, as farturas apelam à gula. Atira-se ao alvo para se ganhar um boneco. Conversa-se ao balcão, entre uma bifana e uma cerveja. E há a demonstração de fé na procissão.
Matosinhos é feita de histórias. A religião, o futebol e a literatura ocuparam os espaços da cidade entre 13 e 15 de Maio.
O “LeV - Literatura em viagem” teve a sua 10ª edição. E é possível que tenha sido a melhor.
Em fim-de-semana de Oliveirense-Leixões, de procissão, da Festa de O Senhor de Matosinhos e de decisão da Liga Portuguesa de Futebol, a Galeria Municipal encheu para se ouvir falar de literatura. A 10ª edição do LeV confirma que a Câmara Municipal e a Booktailors, a quem coube a produção executiva, têm uma questão para resolver: A Galeria Municipal já não consegue responder à quantidade de público que procura assistir às sessões. A sala central esteve sempre cheia. As salas laterais, onde numa delas se poderia ver a exposição “um dia na Terra - fotografias do quotidiano do Planeta” (Gonçalo Cadilhe), receberam mais público, apesar de não assegurarem a mesma visibilidade para o palco.

De Homero a Thomas Mann, numa biblioteca com cinco quilómetros

A 10ª viagem do Lev começou numa sala maior, mas ainda assim insuficiente para tanta gente assegurar um lugar sentado.
José Pacheco Pereira procedeu à Conferência Inaugural, no dia 13 de Maio, no Salão Nobre da Câmara Municipal. Em dia de Nossa Senhora de Fátima, Pacheco Pereira falou sobre as obras fundadoras da nossa Civilização.
António Pacheco Pereira tem a maior biblioteca privada do país. São cinco quilómetros de uma biblioteca que cresce metro e meio por semana. O arquivo foi formado por três gerações e gasta quase todos os proveitos financeiros do seu actual detentor. Foi o avô de Pacheco Pereira que iniciou a pesquisa e aquisição de documentos, pois não são só livros, que hoje possibilita conhecer a História da Europa através de uma viagem pelas prateleiras.
Quando lemos os livros essenciais encontramos uma viagem, afirmou Pacheco Pereira. Seja geográfica, como “Os Lusíadas” de Camões e “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, ou mais psicológica/moral, como “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. A viagem é uma metáfora da vida. A efectuada por Ulisses é, do ponto de vista cultural, a genética da cultura europeia. Viaja-se física e culturalmente na imagética grega, que viria a ser incorporada pelo cristianismo.
Desde os tempos de Homero, a literatura mundial teve o minimalismo de Tchekhov, o ambiente psicotrópico de Lewis Carroll, o universo concentracionário de Kafka, a metaliteratura de Cervantes e a clarividência de Thomas Mann.

Prozac e livros
A literatura contemporânea mantém a sua ligação à viagem.
Paulo Moura, autor de “Extremo ocidente” (Elsinore) e Gonçalo Cadilhe, autor de “Passagem para o Horizonte” (Clube do Autor), conversaram no dia 14, segundo dia do festival. Francisco José Viegas, a quem coube a moderação, perguntou se se nasce viajante, ou se se aprende a viajar.
Para Gonçalo Cadilhe, é necessário querer viajar. Tem de haver predisposição para tal. A aprendizagem vem depois. Aprende-se a viajar viajando.
Paulo Moura defende a atitude activa perante a viagem. É necessário atitude, envolvência nas vidas das pessoas e ainda criar enredos para se ser parte integrante da acção. A sensação que os sítios lhe provocam tem muito a ver com a perspectiva. A viagem, como deslocação física, não determinada nada; é a bagagem pessoal e o que se aprende que determinam o efeito. “Tenho essa tese: Viajar é sofrer”.
A globalização veio uniformizar os países e os costumes. Para Paulo Moura, essa uniformização é superficial. Ultrapassada a superficialidade imposta pelas cadeias de “fast-food” e vestuário, existe a especificidade a descobrir.
Um dos sintomas de uniformização é a própria língua. O inglês conquistou o lugar de língua franca. Em um evento com escritores de várias nacionalidades e, pela primeira vez, em cooperação com a “Literature Across Frontiers” a língua de Shakespeare possibilitou a compreensão entre diversas culturas. Foi o que aconteceu na mesa “Novas Vozes”, em que Andrés Barba (Espanha), Ilzé Butkuté (Lituânia) e Josefine Klougart (Dinamarca) e em “Poderão os Livros Salvar o Mundo?” com Hélder Gomes (jornalista Canal Q, Moderador), Ella Berthoud, autora de “Remédios Literários, livros para salvar a sua vida - de A a Z” (Quetzal), e Clara Ferreira Alves, jornalista e autora de “Pai Nosso” (Clube do Autor). No dia 15, último dia do festival, numa conversa feita integralmente em inglês, Clara Ferreira Alves afirmou que os livros podem salvar ou condenar. “A mim salvam mais do que condenam”.
A sua actividade de repórter fê-la passar por experiências dramáticas. Foi inevitável a construção de um certo cinismo perante a morte e o perigo. É uma arma de defesa contra o horror presenciado. Na sua opinião, a ficção não tem conseguido acompanhar a velocidade dos acontecimentos na sociedade contemporânea.
A biblioterapeuta Ella Berthoud acredita que o livro pode melhorar a vida das pessoas. A autora inglesa passa, nas suas consultas, cerca de uma hora com cada paciente. Desta forma, consegue prescrever o livro adequado para a maleita de quem procura a sua ajuda. E deu um exemplo: Quando há o vício da Internet, Berthoud prescreve “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queiroz. É uma terapêutica que complementa a medicina tradicional. “Prozac e livros”, afirmou.



Ases de trunfo

A qualidade das intervenções manteve-se elevada. Além das participações mencionadas, o LeV teve ainda a contribuição de Patrícia Reis e Teolinda Gersão, na mesa “Conversa a quatro mãos”, com moderação de José Luís Barreto Guimarães; Alberto S Santos, autor de “Para lá de Bagdade” (Porto Editora), João Ricardo Pedro (Prémio Leya) e David Toscana (Prémio Casa das Américas), dialogaram sobre “Viagens na minha terra”. Filipe Morato Gomes, cronista e fotógrafo de viagens, participou na mesa “Segredos da Pérsia”. A moderação das duas mesas foi entregue a Tito Couto (Booktailors).
Cláudio Magris, candidato ao Nobel da Literatura, e Howard Jacobson (Booker Prize) foram os grandes trunfos da organização.
O escritor italiano foi entrevistado pelo historiador e político Rui Tavares. Foi o ás de trunfo lançado no 2º dia do festival.
Portugal é mais do que um país de visita para Cláudio Magris. “O Conde”, conto da sua autoria, tem como inspiração a foz do Douro. A língua portuguesa foi a língua de chegada da primeira tradução de um livro seu.
A sua boa disposição e charme foram notórios durante a permanência no Porto e em Matosinhos. Na “Entrevista de Vida”, o autor de “Danúbio” disse que o trabalho para “Uma Causa Improcedente”, editado este ano pela Quetzal, começou em 2009 e baseia-se em uma pessoa real A realidade é muito mais rica do que a ficção, afirmou.
Essa pessoa dedicou o seu tempo a construir um Museu para a Paz. A colecção era constituída por objectos e outros elementos relacionados com a guerra. Cada um desses objectos é uma nota de rodapé na história universal. Depois dos objectos, o personagem começou a procurar nomes.
Ele acabou por morrer num incêndio, com causas pouco claras. De certa forma, este personagem era um Minotauro dentro do seu próprio labirinto.
Um espectador fez então uma pergunta, relembrando Vila-Matas: “Escrever é uma forma de corrigir a realidade?”
Magris, que tem Vila-Matas como amigo pessoal, disse que escrever complementa a realidade, em vez de a corrigir.
“A realidade é uma série de futuros que foram abortados”.
Em resposta a uma outra pergunta, o escritor afirmou que, em “Danúbio”, não previa a queda da cortina de ferro, mas já tinha a sensação de haver fissuras nessa cortina.
A política está muito presente no pensamento de Magris. O escritor declarou ser um patriota europeu. O seu desejo é votar num presidente europeu, dentro de uma organização geográfica e política em que os países sejam regiões da Europa. Infelizmente -declarou- a Europa está bloqueada politicamente.
No último dia de festival, foi a vez de Howard Jacobson, Booker Prize com “A Questão Finkler” (Porto Editora).
O escritor inglês tirou fotos com os leitores, deu autógrafos e visitou a Livraria Lello sem perder a capacidade de promover gargalhadas. E isso continuou na “Entrevista de Vida”, com Tito Couto e Pedro Vieira (Booktailors).
“A comédia é o coração da literatura. Tem de se deixar a tragédia e a comédia existir”, afirmou.
As anedotas que fazem rir são, segundo Jacobson, uma defesa contra a tragédia da vida.
“Quando faço comédia tudo é pergunta”.
Quando interrogado sobre os seus casamentos, o escritor inglês não perdeu o seu humor.
“Não fiquem aborrecidos se o vosso primeiro e segundo casamentos falharem. É preciso prática”. E, de seguida, virou o feitiço contra os entrevistadores, ao aconselhar as respectivas esposas a “despachá-los” e partirem já para os seguintes casamentos.
A ironia incide constantemente em si mesmo. Quando Jacobson contou à sua mãe que estava nomeado para o Booker, a Sra Jacobson avisou-o de que não ia ganhar. Se ele tirasse uma foto das muitas pessoas que ali estavam para o ouvir e a enviasse para a sua mãe, ela diria que estava ali muito público, mas era para ouvir outro escritor. Não era para ele. “Ela faz isso para me proteger das desilusões”.
Howard Jacobson é descendente de família judia oriunda do leste europeu. A memória é essencial na transmissão de conceitos e hábitos culturais. “Eu vivo em memórias, eu vivo em memórias que não são as minhas”. Em “J”, publicado pela Bertrand, as pessoas não querem saber da memória. Existem efeitos nefastos quando se despreza a memória. O anti-semitismo é um desses efeitos. A contínua recorrência desse fenómeno intriga o escritor inglês. Assim como o fenómeno Trump. Ele é um palhaço, afirmou Jacobson. Assim como foi Mussolini. “Os palhaços parecem que estão sempre a voltar”.
Segundo Jacobson, houve uma época que o Booker mudava a vida de um autor para sempre; agora muda a vida de um livro para sempre e a de um autor por um ano ou dois.

Religião, futebol e literatura.

Durante o fim-de-semana do LeV, houve Jesus na cruz em procissão, bifanas e couratos no pão acompanhados de cerveja; o Benfica foi campeão, o Leixões manteve-se na Segunda Liga, o presidente do clube de Matosinhos foi preso, vários jogadores do Oriental, que jogaram na mesma divisão que o Leixões, também. Alguns escritores anunciados não puderam participar. Apesar de tudo isto, houve mais público neste festival literário do que em alguns jogos da 1ª divisão da Liga Portuguesa de Futebol.
Desde a Oficina gratuita sobre edição, leccionada por Paulo Ferreira (Booktailors), até às entrevistas com autores consagrados internacionalmente, o livro esteve o centro das atenções.

O LeV desiludiu quem pensa que os portugueses não gostam de livros e de conversar com os escritores. E ainda mais quem pensa que escritores como Magris ou Jacobson não gostam de conversar com os leitores.

Mário Rufino

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=825782

3 comentários:

Sofia disse...

Adorei este texto...Também eu fui ao LeV, mas só no dia em que esteve Claudio Magris e para o ver e ouvir, especialmente. Obrigada por partilhar as suas impressões dos outros dias da viagem. Na impossibilidade de estar presente, senti-me lá!

Mário Rufino disse...

Muito obrigado, Sofia!!

Foi um prazer ouvir, Magris, não foi? Ele é muito bom

Mário

Sofia disse...

Sim, foi um prazer e um privilégio :) Ele é fascinante, assim como os seus livros...Ouvi-lo ali ( e antes no Consulado Italiano do Porto, onde também esteve) foi um dos acontecimentos do meu ano de 2016 :D

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