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domingo, 21 de agosto de 2016

"O Rosto de Eurídice" (Teodolito), de João Paulo Sousa




João Paulo Sousa (n.Porto, 1966) poderia ter feito de "O Rosto de Eurídice" (Teodolito) um exercício exibicionista de cultura literária. Poderia, mas não o fez. O ensaísta em áreas como Estética e Crítica Literária manteve o seu perceptível conhecimento teórico no substrato de uma ficção bem conseguida, envolvente e com um começo capaz de agarrar de imediato o leitor: "Demorei muito tempo a compreender como poderia ser reconfortante a ideia da morte da minha filha."
Em "O Rosto de Eurídice" não existe a tentação de se credibilizar o romance através de constantes alusões a ideias e autores canónicos, numa ostensiva manipulação da atenção do leitor. A meta-literatura existe como corrente interior do fluxo de consciência.
António, personagem principal, tenta conciliar-se com o passado. A morte de Teresa, sua irmã, reflecte-se no presente. As recordações desse acontecimento dramático condicionam as relações amorosas e os simples gestos quotidianos. João Paulo Sousa espelha o passado nas acções e pensamentos deste personagem que se move entre uma casa de praia, uma cidade e um hotel à beira mar. António é dominado por um jogo de compensações em que personagens se projectam noutras personagens:
"(...) e segundo, porque o rosto da minha irmã, ao confundir-se com o de uma mulher que me provocava uma atracção sexual crescente, a qual, ainda assim, eu tentava negar, interpunha-se entre mim e o objecto de desejo, como se apenas a Teresa [irmã] fosse capaz de o satisfazer"
O escritor portuense desenrola o tempo até à emancipação do seu principal avatar. O ritmo da narração é lento, permitindo constantes analepses e a fusão de tempos num presente proustiano.
A falibilidade da memória adensa a neblina sobre o passado. A introspecção desenvolvida pretende clarificar a razão das lembranças serem projecções tão vívidas.
O personagem afirma que "um morto é o lugar de um vazio absoluto". O reflexo do rosto da falecida Teresa desmente-o ao projectar-se em outras importantes figuras femininas que lhe preenchem a vida. Este jogo de reflexos e compensações é o pilar em que assenta a narrativa desta obra. A relação entre António e Teresa tem paralelo com a de Orfeu e Eurídice. A ligação entre estes dois personagens da mitologia clássica é essencial para a descodificação do texto.
A impossibilidade de António é a impossibilidade de Orfeu: resgatar da morte a pessoa amada. Olhar para o rosto de Teresa tem um custo elevado. Se Orfeu perde Eurídice por olhar para o rosto dela, António perde as pessoas no presente por ter, sempre, o rosto da irmã na cabeça.
O episódio bíblico protagonizado por Lot é, igualmente, actualizado pelo autor. António, ao olhar constantemente para trás, fica preso ao passado.
O conhecimento da teoria da literatura é demonstrado uma vez mais num episódio passado no teatro. O ficcionista consegue disciplinar o ensaísta. Ele sugere, não explica.
Na peça de teatro a que António assiste há um espelho no centro do palco.
Sentado na primeira fila, o narrador vê o seu rosto naquele espelho. A interpretação do que vê depende, como ele próprio conclui, da perspectiva que é adoptada. António está "dentro" da peça. O sentido do que é visto depende do que ele leva para o palco. A avaliação que faz dos personagens dessa peça depende não só delas próprias, mas também do espectador.
Este é essencial na construção de sentido:
" (…) talvez a preponderância que insisti em atribuir ao homem de preto [personagem da peça] encontrasse também uma justificação exterior à peça; na verdade, eu bem poderia sentir que me identificava com ele, ou com a sua obsessão em relação à irmã, de que estava afastado há anos, ainda que essa identificação fosse sobretudo de pendor negativo, marcada por aquilo que, na personagem, me parecia ser a projecção de um dos meus interditos".
Nesta passagem, que sublinha a arte como catarse, mantém-se o jogo de sombras e projecções e é adicionado uma vertente defendida na Teoria da Recepção.
Segundo Hans Robert Jauss, em "A literatura como provocação", "A recepção interpretativa de um texto pressupõe sempre o contexto anterior da experiência em que se inscreve a percepção estética".
João Paulo Sousa conseguiu criar mais do que um conjunto de personagens numa boa história. O autor criou um tempo paralelo, fundindo passado e presente.

A qualidade de “O Rosto de Eurídice” não deve passar despercebida.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=838278

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