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sábado, 22 de outubro de 2016

Fólio: O cáustico e hilariante Salman Rushdie





As ruelas de Óbidos estavam mais patrulhadas do que em outros momentos do Fólio- Festival Literário Internacional de Óbidos. Era o dia mais esperado pelo público do evento. Salman Rushdie estava presente para conversar com Clara Ferreira Alves. E, ao contrário de Naipaul, viria a conquistar a plateia.
O sucesso foi maior do que o esperado. A organização teve de mudar o local da entrevista devido à elevada procura de bilhetes. A sala de 250 lugares onde V. S. Naipaul foi entrevistado era pequena. Salman Rushdie tinha mais público do que o Nobel. A solução foi utilizar a sala de concertos, com cerca de 450 lugares sentados… e espaço para um “elefante”.
"Um elefante [no meio da sala] é pequeno em comparação. É um rato comparado com a Religião", disse o escritor nascido em Bombaim.
"A religião é um assunto entediante, mas infelizmente aqui está sentado no meio da sala. É muito difícil se estás a escrever sobre a sala e ignorares o que está sentado bem no meio."
Desde “ Versículos Satânicos” que o autor tem sobre si uma “fatwa”. O assassinato de Salman Rushdie valerá 500 mil euros ao assassino. Desde 1989, ano em que a “fatwa” foi divulgada, o prémio foi aumentado duas vezes.
Muitas obras depois, o escritor ainda é interrogado sobre o livro que provocou a ira de fanáticos religiosos.



“Apesar de ser um episódio que se passou há vinte e oito anos, é algo sobre o qual me perguntam sempre que falo com um jornalista. Não há muitos escritores a quem perguntam sobre o que escreveram há 28 anos. Foi quase há 30 anos. "Versículos Satânicos" foi o quinto livro que publiquei.".
Salman Rushdie não fugiu das perguntas de Clara Ferreira Alves, apesar de confessar o cansaço com o tema religião. Como ser humano e escritor, que tem muito pouco interesse pela religião, sente que tem de ter interesse para saber lidar com o mundo actual. De outra forma, não estaria a olhar para os temas importantes.
O autor recordou as ideias revolucionárias defendidas em Maio de 68. Rushdie tinha cerca de vinte anos. Temas como o feminismo, os direitos civis e a guerra estavam no centro da discussão. A religião como tema estava ausente. Ninguém o discutia. Foi assumido que o tema estava acabado. Era história antiga. Ninguém pensava que voltaria com uma força tão grande.  Os diversos atentados despertaram o ocidente para uma guerra imposta pelo fundamentalismo islâmico. Charlie Hebdo foi um desses momentos de terror. Salman Rushdie viu-se envolvido na polémica sobre a publicação das ilustrações. Segundo o autor...
"É claro que devemos gozar com a religião, pois a religião é absurda. Se não podes gozar com o absurdo, podes gozar com o quê?"
Para sua surpresa, autores como Junot Diaz ou Joyce Carol Oates desaprovaram a publicação dos “cartoons”.
Posteriormente, veríamos que a culpabilização da vítima não funcionava, defendeu Rushdie. Os atentados aconteceram em diversos locais sem ligações religiosas.
"Não respondas à crítica com violência".
Clara Ferreira Alves sublinhou que o escritor não havia propriamente convidado o ayatollah Khomeini para tomar chá e falar sobre o assunto.
"Não me ocorreu. Mas deixa-me sublinhar que um de nós está morto".
"E não és tu", complementou a jornalista.
Não se metam com escritores, disse Rushdie continuando a demonstrar o seu bom humor.
O principal problema para Rushdie, referindo-se ainda a “Versículos Satânicos”, é que os leitores pensam que ele era um autor negro. E aconselhou:
“Penso que todos deviam ler o meu trabalho da frente para trás. Comecem agora e vão para trás. Quando chegarem aos "Versículos Satânicos" já vão ter uma ideia de quem sou."
O realismo mágico é “marca de água” de grande parte da sua obra. A jornalista portuguesa, exemplificando com os fantásticos “jinn”, interrogou o escritor sobre se ele não pensava, por vezes, que o realismo mágico era demasiado louco.
"Não há nada demasiado louco. Há só aquilo que consegues que as pessoas acreditem. Quando se sai do Naturalismo, tu tens que fazer com que o leitor diga "Ok. Eu acredito." E para fazeres isso, tu tens que fazer com que as personagens sejam verosímeis. O lugar onde tudo acontece também tem de parecer real."
Como é que não se morre de frio num tapete que voa nas alturas? Como se mantém equilibrado? Como resolver os problemas de uma personagem que levita alguns centímetros sobre o chão? São perguntas que o autor se propôs a resolver em algumas das suas obras.
“O realismo mágico funciona quando o levas completamente a sério.”
Não há magia na realidade actual. São os tempos mais negros que o autor viveu, conforme afirmou.
Salman Rushdie não se inibiu de tecer comentários pejorativos sobre Donald Trump, Marine Le Pen e, principalmente, Boris Johnson, a quem chamou “uma das piores pessoas do mundo”.
A terminar a conversa, Clara Ferreira Alves perguntou-lhe sobre o Prémio Nobel.
Salman Rushdie fingiu adormecer na cadeira. Tudo terminou com gargalhadas do público.



(fotos da CM Óbidos)

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=844587

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