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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"O meu Nome é Lucy Barton", de Elisabeth Strout






A importância de um nome.


Lucy Barton saiu da casa de seus pais e viajou para Nova Iorque. Desde esse dia, nunca mais os viu. Casou e teve duas filhas. Os avós nunca viram as netas.
Um dia, Lucy foi hospitalizada para ser operada ao apêndice. A cirurgia, prevista como simples, complicou-se e obrigou-a a ficar acamada no hospital por vários dias.
Durante esse período recebeu escassas visitas do marido e das filhas. Mas houve uma visita que se prolongou durante cinco dias: a da sua mãe.
Elisabeth Strout, vencedora do Pulitzer com “Olive Kitteridge”, desenvolve em "O meu nome é Lucy Barton" (Alfaguara) a reconciliação de uma personagem com o seu passado.
Durante muitos anos, que abrangeram infância e adolescência, Lucy levou pancada, foi fechada dias inteiros dentro da carrinha do pai, somente com bolachas de água e sal com manteiga de amendoim, passou fome e viveu isolada. Chegou a morar numa garagem e a ir buscar comida ao lixo. O pai, traumatizado pela guerra, passava por incompreensíveis acessos de fúria. Só e desamparada, a menina Barton tinha numa árvore a sua melhor amiga:

"(…) quando vejo outras pessoas andarem com autoconfiança pela rua, como se estivessem completamente livres do terror, percebo que não sei como são os outros".

Lucy é, desde sempre, conquistada por quem empatiza com ela.
O seu primeiro marido fugiu "à carência de uma mãe enviuvada". O segundo marido foi também muito pobre.
Dentro deste contexto, é muito interessante perceber que tanto o pai como os dois maridos são personagens planas. Strout optou por não desenvolvê-las, sem deixar de pejorar bastas vezes por sugestão.
Lucy tem uma irmã e um irmão, com quem tem pouca ligação emocional, e é mãe de duas filhas. Este afastamento à figura masculina é demonstrado nas ligações entre membros da mesma família: Lucy não se dava bem com o pai; a mãe não se dava bem com o primeiro marido; o pai contava traumas de guerra ao filho, mas não o fazia com a filha. São realidades distantes, as do homem e as da mulher, com poucos pontos de intersecção. O contraponto acontece com o médico que a acompanhou no hospital. Ele é a figura masculina que mais apreço suscita na personagem.
Não surpreende que seja uma figura feminina a ter um papel fundamental na catarse da personagem principal: A escritora Sarah Payne.
Lucy Barton ouviu a escritora em alguns seminários e em algumas aulas. Ao longo desse processo, a escrita foi ganhando importância como catarse. A personagem vai sendo confrontada com as próprias idiossincrasias da escritora. Não só pela sua figura, mas também pela motivação que incutiu em Lucy Barton, Sarah Payne torna-se fulcral no romance. Ela é, além disso, a representação da teoria dentro da ficção:
"se houver um ponto fraco na vossa história, enfrentem-no sem medo, aguentem e trabalhem-no, antes que o leitor fique a saber. É aqui que vão buscar a vossa autoridade, disse ela, durante uma daquelas aulas (…)"

A escrita fornece a Lucy Barton as ferramentas necessárias para avaliar a sua infância, a incapacidade da sua mãe dizer que gostava dela, os acessos de fúria do pai, a pobreza, o falhanço do seu primeiro casamento e o próprio “darwinismo social” em que se vê derrotada. Ao fazê-lo, Lucy Barton evita que os filhos herdam os seus traumas.
“O meu nome é Lucy Barton", escrito já com alguma distância temporal e sentimental, é o registo literário desse caminho de reconciliação.
Este romance de Elisabeth Strout é a afirmação de individualidade de Lucy Barton. A autora, como já afirmou em diversas entrevistas, não projecta a sua imagem na personagem... apesar de partilharem algumas características físicas, a mesma profissão e de ser a primeira vez que a autora escreve na primeira pessoa. O caminho é de rememoração, sabendo que a memória falseia o passado.
Através da escrita, Lucy aumenta a capacidade para se afirmar, ao contrário da sua "imagem ideal":

"E, depois, apercebi-me de que, mesmo nos seus livros, ela não estava a dizer exactamente a verdade, mantinha sempre a distância de alguma coisa. Ora, mal conseguia dizer o próprio nome! E senti que também compreendia isso"

Lucy ouviu a mãe lamentar que ela e os irmãos tivessem passado por tanta pobreza. Depois, conseguiu discernir as fraquezas de Sarah Payne. Estes são episódios fulcrais. Daqui resulta a aceitação de tudo o que a forma: o passado e o presente. "O meu nome é Lucy Barton", frase dita pela personagem, representa essa assunção.
Lucy Barton, tal como é demonstrado na belíssima capa de Maria João Lima, é uma mulher que avança, caminha para a frente, enquanto ainda olha para trás.
A gestão do silêncio é fulcral. É aí que reside a mestria da autora.
As críticas nunca são directas. A caracterização acontece por projecção dos defeitos dos outros (principalmente) em Lucy. O posterior silêncio sublinha cada crítica. A verdade está muitas vezes nos pormenores.
 "O meu nome é Lucy Barton" é o oposto de um outro romance, dentro da mesma temática, editado este ano: "Uma rapariga é uma coisa inacabada", de Eimear McBride. Enquanto o livro de McBride é formado por tudo o que a personagem tem a dizer, o livro de Elisabeth Strout deixa para o não-dito muito do seu sentido.
Só uma escritora que não descansa enquanto não encontra a palavra certa pode escrever um livro desta qualidade. Estrutura simples e prosa de grande sensibilidade num excelente livro de Elisabeth Strout.

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