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domingo, 18 de dezembro de 2016

Entrevista a Joel Neto




Todas as pessoas contêm literatura. Até os intelectuais

O nome, a família, a terra. A identidade de um homem é composta pelo nome próprio, pelo nome de família, pela terra onde cresceu e pelos afectos que vai somando. Joel Neto é açoriano. Mais do que morar, ele vive naquela terra, daquela terra, com pessoas que o viram crescer. Outras, sem memória possível do menino da Terra Chã, conheceram-no agora, pelos seus livros.
Foi lisboeta mal convertido. Reencontrou-se quando voltou à ilha da sua meninice. É aí que escreve e é sobre ela que escreve, acompanhado pelo Melville e pela Jasmim, amigos e personagens de “ A Vida no Campo” (Marcador).
Depois de “Arquipélago” (Marcador), romance que viria a mudar a vida do autor, surge “A Vida no Campo”. Diário do humanismo dos açorianos e do fulgor da terra, visão de um homem sobre os outros e sobre si mesmo, “A Vida no Campo” é também uma conjugação feliz de acontecimentos, pessoas e memórias.
Açores, personagem principal, parece ter em si todas as histórias do Mundo. Essa ilusão deve-se à capacidade narrativa de um grande contador de histórias.
Joel Neto recupera, através da literatura, a vida das pessoas comuns. Através das suas histórias percebe-se que de vulgar, ou de comum, nada têm. As suas palavras revelam o extraordinário existente em cada pessoa. E fazem de “A Vida no Campo” um livro luminoso, profundamente humano e belo.
O Diário Digital conversou com Joel Neto no Fólio- Festival Literário Internacional de Óbidos.




 Foto de António Araújo


Já encomendaste a Lenha? 
Já encomendei lenha. Provavelmente é a octogésima vez que me fazem essa pergunta. Muitos leitores de muitos sítios diferentes do país mandaram-me uma mensagem a perguntar se já tinha encomendado a lenha. Foi a primeira reacção mais frequente ao livro. Senti cumplicidade nela.  

Os leitores estão a cuidar de ti. Por que será que se pega na questão da lenha? 
Não sei... Cada autor tem um diálogo que estabelece com os seus leitores, e que os leitores estabelecem com ele. Estou muito feliz com o diálogo que hoje tenho. Começou por exigir da minha parte um esforço, pois fui à procura deles. Agora corre de uma maneira muito fluente. A grande descoberta dos últimos dois anos, na verdade, foi a possibilidade de dialogar directamente com os leitores, não apenas através da internet e das suas diferentes plataformas, mas inclusive ao vivo. Isso acabou por trazer mais gente aos lançamentos, às sessões de autógrafos. É evidente que me tira algum tempo para escrever, mas é um aspecto que considero solar na minha relação com os livros e com os leitores.
Isto não significa que condicione os meus livros à reacção dos leitores.  Não os moldo em função disso. No entanto, os leitores também me ensinam coisas sobre os meus livros. Tem sido um diálogo terno.  
Este século, em oposição ao século passado, trouxe a grande diferença de as pessoas já não irem em busca dos livros. Se nós pudermos que os livros vão em busca dos leitores e nos sentimos confortáveis em fazê-lo, por que não?  Cada vez se vendem menos livros.  

Comercialmente, não são tempos bons...   
Sim, mas de cada vez que utilizamos essa palavra, transformamos a discussão numa espécie de categoria inferior do debate. Estamos a falar de vender livros?  não estamos a falar de literatura.
Não é justo. Estamos, porque vender livros é um modo de canalizar os livros em direcção aos leitores. Claro que as bibliotecas também podem facultar livros. No entanto, o modo mais convencional é  vendê-los.
Fiz um esforço para não introduzir a palavra comercial, porque traz uma carga que a coloca imediatamente no debate "sujo". No momento em que entra em acção o vil metal, a literatura desaparece. É um cinismo. A esmagadora maioria dos leitores chega aos livros através de uma transacção comercial.   

Há uma parte, em "A Vida no Campo", em que dizes que "Nenhum homem é apenas o homem do gás." Procuras a literatura nas pessoas comuns? 
Tento estar atento a ela. Todas as pessoas contêm literatura. Até os intelectuais (risos).
Estou numa fase de contacto com a minha infância e adolescência. Este encontro geográfico, que já vinha ocorrendo há alguns anos, mudou-me como homem. Tornou-me num homem muito mais esperançoso, muito mais atento à beleza e muito menos cínico.
Não o digo como auto-elogio. Na verdade, digo-o como elogio àquela paisagem física e humana, ou pelo menos à química no encontro do meu olhar com aquela paisagem. 

E mudou a tua escrita? 
A certa altura desenvolvemos uma personagem e, quando desenvolvemos uma personagem, ela acaba por nos fugir ao controlo. O Joel Neto das crónicas de Lisboa, da Revista NS’ e da Grande Reportagem, era um Joel Neto que continha elementos do verdadeiro Joel Neto, mas que me ia escapando ao controlo.
Há autores que se deslumbram por uma boutade, mesmo que seja uma parvoíce absoluta. Houve momentos em que deixei que as respostas dos leitores me contaminassem positivamente do ponto de vista do alcance, mas negativamente do ponto de vista intelectual. Tornei-me escravo dessa personagem.
Regressar aos Açores tem uma dupla vantagem:  em primeiro lugar, coloca-me em contacto permanente com aquilo que sempre me comoveu. Mesmo quando vivi em Lisboa, a minha principal matéria literária foi sempre os Açores.   Em segundo lugar, forjou uma fronteira que, de algum modo, me permitiu nascer de novo. 
  
Enquanto falavas, disseste "regressar", falaste em ti como um personagem, referiste-te na 3ª pessoa, disseste que era um Joel Neto longe do real Joel Neto e que renasceste. Aquele Joel Neto não eras tu? 
Era uma parte de mim. Vou considerar sempre que existe, na minha vida e da minha produção literária, um antes e um depois do meu regresso aos Açores. E um antes e um depois de "Arquipélago", que foi o primeiro resultado desse regresso.
É natural que acabe por passar por outros baptismos e outras conversões, mas neste momento a minha grande conversão é essa. Acima, inclusive, da mudança anterior, dos Açores para Lisboa, vinte anos antes. 

Miguel Torga, de quem falas em "A Vida no Campo", escreveu isto nos seus diários: "Como a gente se perde! A linguagem que o meu sangue entende - é esta. A comida que o meu estômago deseja - é esta. O chão que os meus pés sabem pisar - é este."   Torga termina assim: E, contudo, eu não sou já daqui."  Contigo passou-se o contrário... 
Sim... O Torga é uma lição e, como disse em "A Vida no Campo", ele está comigo todos os dias. No entanto, o olhar dele é muito distinto do meu. É um olhar talvez mais sábio, mas que contém uma mágoa em relação ao campo. Eu não sinto essa mágoa.
Apesar de Torga ser central na minha relação com a diarística, o Vergílio Ferreira não o é menos. Como diarista e como romancista. O "Para Sempre" é importante na minha relação com o campo.
Invoco Torga e invoco Vergílio  como noutras ocasiões invoco a literatura açoriana, de que me sinto herdeiro e da qual tenho muito orgulho.  Aquilo que eu creio que posso ter acrescentado ao olhar sobre os Açores e sobre o campo do século XXI é o olhar urbano. Tanto "Arquipélago" como "A Vida no Campo" são resultado de um olhar de quem tem um pé dentro e um pé fora. Não deixa de ser um olhar urbano sobre a ruralidade. 

Continuemos com Torga: "A linguagem que o meu sangue entende - é esta." Naquela extraordinária apresentação no Chiado, Fernando Alves [jornalista TSF] disse "Estás à escuta das palavras da tua ilha, esse magma primordial". A linguagem urbana foi insuficiente para demonstrar a realidade açoriana? 
Há um lado talvez etnográfico no modo como faço esse levantamento, mas isso é apenas a dimensão mais plástica da utilização dessa linguagem.
Quando eu me mudei dos Açores para Lisboa, ou seja do campo para a cidade, fiz um esforço de aculturação e passei a falar de um modo diferente. Nós queremos pertencer àquele novo lugar e sermos conhecidos como parte daquele novo lugar.
Nesse esforço de aculturação, ganha-se um léxico novo, mas perde-se inevitavelmente uma série de termos. Eu não me tinha apercebido disso até regressar de vez.  Só depois percebi que havia possibilidades e emoções que eu só conseguia caracterizar com recurso àquele léxico.
Sem perder o léxico de Lisboa, recuperei o léxico dos Açores e, ao fazê-lo, recuperei uma série de emoções e de memórias. Não quero perder isso, mesmo que volte a viver na cidade.
Aliás, por esta altura nós já devíamos estar a viver na cidade, eu e a Catarina. Voltámos por quatro anos. Já se passaram e não temos pressa em ir embora. 

Parece-me que fazes batota. O facto de a casa estar sempre inacabada e o jardim estar sempre a precisar de mais alguma coisa não será uma forma de adiares a tua ida para Lisboa? 
Nunca tinha pensado nisso. É possível que sim... A batota faz parte da vida. Os escritores fazem ainda mais batota.  

"A comida que o meu estômago deseja - é esta." Lembrei-me da Alcatra de Feijão do Ti Choa. Come-se "só" para matar a fome, ou ainda resiste essa vontade de se contar histórias à mesa? 
Sim, ainda existe o prazer de estar à mesa.  A minha paixão pela comida tem a ver com as memórias que a comida traz. Mas não só a comida. Acontece-nos com os sabores, com os cheiros, toda a matéria sensorial. Evocam-nos memórias.
Toda a literatura é memória. Disse isso na Mesa [Fólio], e aliás não é novo: toda a literatura é um esforço para desenterrar os mortos, recuperar o passado e dialogar com a história.  

No ano passado, no LeV- Literatura em Viagem, falaste na procura pessoal da possibilidade do Bem. Encontraste essa possibilidade nas pessoas dos "Dois Caminhos", na Terra Chã? 
Toca-me muito que te lembres dessa frase. Foi talvez o pior debate em que já participei e aquele em que eu disse mais asneiras. Não me preparei devidamente. Fizemos um debate miserável. Essa foi a única frase que talvez tenha valido a pena.
Quando olho para trás, vejo que ela me define. Nessa altura (2015), estava nos Açores há menos de três anos.  A possibilidade do bem e a maravilha que é poder abraçar essa possibilidade... Nas grandes cidades, sentimos o impulso do cinismo.  
Cheguei ontem a Lisboa. Depois vim para Óbidos. Desde então, tive três ou quatro conversas, mais ou menos passageiras, e nessas conversas houve sempre alguém que se queixou do estado do mundo, do estado do seu emprego, do estado de outra qualquer coisa...
Realmente, há razões para isso. Mas eu prefiro olhar para o facto de ainda não haver fome – ou haver menos fome – em Portugal. De existir este festival. De ainda existirem jornais.   Hoje, a vida impele-me a olhar para o seu lado mais luminoso.
Não é uma condescendência. Existe bondade no Homem. Passei demasiados anos a acreditar na maldade como núcleo da identidade humana.  


O teu amor pelos Açores é um amor correspondido. Foste homenageado pela junta de freguesia de Terra Chã... 
Foi muito comovente. Não fui homenageado pelas Nações Unidas, nem pelo Presidente da República. Fui homenageado por uma junta de freguesia. No entanto, é a minha junta de freguesia. São as pessoas que me viram crescer. O reconhecimento dessas pessoas tem um significado muito superior a qualquer outro tipo de reconhecimento.
Foi muito especial, realmente. Sabendo que sou ateu e criado numa igreja protestante, as pessoas tiveram o cuidado de me perguntar se eu aceitava que a homenagem fosse feita na igreja católica. Houve uma série de cuidados absolutamente enternecedores e de que nunca me vou esquecer.  

E foi dado o nome de "Arquipélago", teu último romance, a uma unidade de turismo na Ilha Terceira... 
Sim, tem havido uma série de pequenas e grandes coisas ao longo destes dois anos.  O carinho que tenho recebido nas escolas, os leitores que ainda hoje tocam diariamente à campainha da minha porta para eu assinar os livros... São coisas comoventes.
Só o "Arquipélago" vendeu quase 1500 exemplares na Ilha Terceira.  Há muitos livros com grande exposição mediática que, a nível nacional, não vendem mil exemplares no país todo. A Terceira tem 55 Mil habitantes e um nível de iliteracia razoável.
As manifestações de carinho não são contabilizáveis; eu continuo a sentir esse carinho todos os dias. Tem sido de uma beleza extraordinária. Daí o esforço de dizer a mim próprio que isto não vai durar para sempre. É impossível durar para sempre.  



O Melville, que tanto aparece em "A Vida no Campo", está contigo desde pequeno.  
Uma das coisas pelas quais me tinha tornado conhecido era por odiar cães. Eu, na verdade, não odiava cães. A personagem Joel Neto odiava cães, tal como odiava o vegetarianismo. Odiava muitas coisas. E, a certa altura, o homem Joel Neto começou a sentir-se escravo daquele personagem. 
Fiz uma horta urbana. Nos primeiros esforços para fazer a horta, tive uma guerra infinita com os coelhos. Mais tarde, percebi que não eram os coelhos, eram os pombos. Mas foi a primeira vez que alguém me sugeriu que tivesse um cão para ele espantar os coelhos.  
Aquela ideia ficou-me na cabeça e disse à Catarina: "E se tivéssemos um cão?" 
A Catarina riu-se e disse-me que nem pensar, pois cães, com ela, viviam em casa. Se eu quisesse ter um cão na rua, não valia a pena.  Ela é lisboeta do Castelo. Ter um cão na rua seria absurdo.
Ficou definido que nós não teríamos um cão, pois. Entretanto, chegámos à ilha depois de termos estado fora cerca de um mês. A Terceira estava cheia de beladonas. Fomos dar uma volta à ilha, o que é muita coisa muito típica. Nesse dia, vejo um cachorro a descer no meio das beladonas. Tinha um ar inofensivo e rabino. Soube imediatamente que ele iria ser o meu cão. Apanhei-o e passámos pelos trâmites habituais: colocámos anúncio no jornal, nos veterinários. Ninguém o reclamou.
Esse cão mudou dramaticamente o meu olhar. É verdadeiramente um amigo. É um amigo de quem tenho saudades. É um amor, realmente.  
Mais tarde, nas nossas caminhadas diárias, passávamos em frente a uma casa abandonada onde estava uma cadela. Não levávamos o Melville. Ele era (e é) muito indisciplinado.
Essa cadela, que é quase cem por cento
 border collie, tinha um dono. Ela vinha ao nosso encontro todos os dias à mesma hora. Fundia-se num abraço com a Catarina. Aquilo era uma grande paixão. Se passássemos a outra hora do dia, ela não estava lá. Tinha dono, mas vivia livre por ali. Pedi-a várias vezes ao dono, ele não ma deu. Quando ela procriou, o dono decidiu ficar com um dos cachorros e dar-me a cadela.  

É a Jasmim... 
Sim. Tem uma personalidade maravilhosa. E o Melville também a aceitou de uma forma incrível. Ele, que ladrava a todos os cães, foi buscar cada um dos seus brinquedos e pô-los todos à volta dela.
É um momento de que não me vou esquecer. O cão que odiava cães! Todos os outros cães eram uma ameaça. Como ela não reagiu, pois estava petrificada, ele pegou numa bola e começou a atirar a bola para cima dela. É uma coisa inesquecível. Como é que se explica a alguém que nunca teve um cão como é que isto acontece? 



Há uma pessoa que está sempre presente nos teus livros. Não é nenhuma personagem. É o teu avô. É inevitável falarmos sobre ele. Moras na casa que um dia pertenceu a José Guilherme da Silveira Couto e, de certa forma, todos os teus livros são dedicados também a ele. Quem era o teu avô e por que é tão importante para ti? 
Se eu tivesse uma resposta sobre quem era o meu avô, provavelmente ele não continuava a desempenhar nos meus livros o papel que desempenha. Posso dizer com alguma facilidade que era o meu avô materno, açoriano da Ilha de São Jorge.  Eu era o neto mais velho dos que viviam perto dele. Era o mais próximo e a quem ele ensinava carpintaria e mostrava os afazeres do campo.  
Ainda estou a descobrir coisas sobre o meu avô. Consegui, há pouco tempo, localizar a casa onde ele nasceu. Eu imaginava um casebre pobre, mas afinal o meu avô nasceu numa casa grande, confortável.  Embora não fosse um grande proprietário, era de uma família da classe média possível dos tempos do salazarismo.
Depois converteu-se ao protestantismo na Ilha de São Jorge, nos anos 30. Isto é algo de muito especial. No fundo, ele continua a conservar uma série de camadas de leitura. 
O meu avô morreu-me nos braços.  Eu estava na faculdade e estávamos cheios de saudades um do outro. Cheguei de férias num sábado. Fiquei a dormir na casa dele, porque ele andava com alguns problemas cardíacos que se estavam a agravar. 
Morreu na terça-feira, depois de termos estado a conversar até às tantas da noite. Teve um ataque cardíaco durante a madrugada. Morreu-me nos meus braços e nos do meu pai.  
Quando a minha avó morreu, dez anos depois, ninguém considerou importante conservar-se a casa e a propriedade dele. A minha família estava toda disponível para vender. Fiz um esforço para a comprar. Revelou-se uma decisão inteligente. Hoje, é a minha casa. Sempre que faço uma alteração ao desenho dela, há um diálogo com ele; pergunto-me se ele ficaria aborrecido. 

Há um ano, aqui no Fólio, falámos sobre o sucesso de "Arquipélago".  "A Vida no Campo", teu livro seguinte, está a ter, também, excelente aceitação. São duas obras que marcam a tua carreira literária. 
Sim, claro. Mais: "Arquipélago" e "Vida no Campo" são duas obras complementares, pois partilham personagens, perplexidades. Fazem a exegese uma da outra. São propostas de leitura uma da outra. Constituem dois andamentos de um díptico que, na verdade, irá ser um tríptico. Haverá um terceiro volume, que será algo entre o ensaio e a reportagem dentro do âmbito social e político. 

Será publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos? 

Sim, será publicado pela Fundação. 

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=851854

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