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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Nem Todas as Baleias Voam", de Afonso Cruz






Nem Todas as Baleias Voam 
A musicalidade de um universo em expansão.

No decorrer da Guerra Fria, a CIA pensou num plano diferente para seduzir a juventude do leste da Europa. O Programa chamava-se Jazz Embassadors e consistia em concertos nos países do bloco soviético com grandes nomes do jazz. Seria a melhor forma de ganhar a guerra e cativar os inimigos. 
"Nem todas as baleias voam" (Companhia das Letras) tem espionagem, amor, mistério, raptos, blues e jazz. É um livro imediatamente reconhecido como de Afonso Cruz, seja pela "voz autoral", pelo gnosticismo ou pela respectiva qualidade.  

 
Erik Gould, pianista de blues, é um dos músicos que poderá actuar no Leste da Europa. Antes de partir, ele espera ansioso pelo regresso da sua mulher, enquanto Tristan, o filho, procura a mãe nas páginas de um Atlas. Saberá o leitor, mais tarde, que o desaparecimento de Natasha, mãe de Tristan, está ligado ao programa Jazz Embassadors e que o raptor tem também ligações a Dresner, melhor amigo de Gould. 
Afonso Cruz sugere que se observe a realidade como uma conjugação entre o racional e a fantasia. Em suma, é proposto que o leitor acredite que as baleias podem voar, mas que nem todas o fazem (ao contrário do senso comum que, como é óbvio, defende que as baleias não voam). É uma ideia estrutural nas obras  do autor nascido na Figueira da Foz, ou seja: vejam o que vos rodeia por um outro prisma. Gould e Tristan, que sofrem de sinestesia, são a metonímia desta proposta. 
Veja-se o caso de Gould. Ele vê sons. Num dos "Relatório Gould" é dito que o tangível pode ser descrito musicalmente: 
"- Uma pedra tem uma melodia. Podemos descrever uma pedra através da sua composição daquilo que vemos ao observá-la, mas podemos também, segundo Gould, descrevê-la musicalmente. 
- Uma pedra pode ser uma sonata? 
-Sim, ou bebop. Uma parede terá sua melodia, uma janela terá outra, imagino que consoante a paisagem do outro lado. Um pé cantará uma canção, uma flor exalará a sua própria melodia". 
O mundo de Gould é formado por acordes, desde o material ao imaterial. 
Tristan sofre de um outro tipo de sinestesia. Ele vê sentimentos. É desta forma que descodifica o mundo. Segundo Tristan, ver sentimentos é como ver pessoas ou coisas que saem da cabeça de outras pessoas.
O autor de "Para Onde Vão os Guarda-chuvas" consegue a simbiose entre ficção e realidade. Através do conjunto da sua obra, Afonso Cruz aumenta a capacidade de o leitor observar, liberta-o da ditadura do visível, faz com que utilize vários sentidos para apreender o real e o irreal. O polivalente autor dota o leitor de um mecanismo pluridimensional. "A realidade é uma invenção", assim escreveu em "Mil Anos de Esquecimento" (Alfaguara), o mais recente volume da "Enciclopédia da Estória Universal".
Essa dimensão poliédrica é transposta para a estrutura do romance. São "mosaicos" ou mesmo espelhos que vão reflectindo as personagens e ligando os acontecimentos nos diferentes capítulos.
Existem delirantes episódios como o das prostitutas transformadas em “apóstolas”. Elas são as autoras do "Evangelho das Putas Gnósticas" e últimas leitoras do evangelho gnóstico escrito nas paredes da "Pensão Tertuliano". A transmissão oral dessas histórias é fundamental, recordando assim que o ser humano é, como o autor escreveu em livro anterior, composto por histórias.
O leitor não consegue aprofundar o conhecimento das principais personagens com base num só livro. É a obra completa que permite ligar os pontos uns aos outros de forma a delinear as características físicas e psicológicas dessas personagens. São as histórias e os contextos diferentes que vão revelando o plano de Afonso Cruz.  Tal como a vida se nos vai revelando. O Ser Humano não é definível num só episódio, mas antes no confronto entre idades e situações que, tantas vezes, nos mostram como falíveis e incoerentes.  
GouldDresner, Vogel, Natasha são criações já anunciadas em livros anteriores. 
Podemos conhecer melhor Dresner em "Mil Anos de Esquecimento". No mais recente volume da Enciclopédia, sabemos que Dresner é neto de Dovev Rosenkrantz, figura importante de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças". Sabemos também que tem a mania de criar museus e que anda sempre à procura de novas formas de ficção. O seu papel é essencial em "A Boneca de Kokoschka", livro em que Vogel visita a livraria "Humilhados & Ofendidos". É neste livro que nos é contado o acontecimento que faz Dresner coxear. Em "Nem Todas as Baleias Voam", Afonso Cruz remete para "A Boneca de Kokoshka" ao afirmar que Vogel era um homem com reticências cranianas (expressão já usada no livro vencedor do Prémio União Europeia para a Literatura).
Gould, cuja importância é maior em  "Nem Todas as Baleias Voam", já é mencionado em " Mil Anos de Esquecimento" e num volume mais antigo das enciclopédias intitulado "As reencarnações de Pitágoras."
São exemplos da presença de alguns personagens em diferentes obras. Mais cedo ou mais tarde, será necessário um “Dicionário de Personagens" para conhecermos muito melhor 
BadiniFazal ElahiMalgorzata Zajac, Morel entre muitos outros nestas combinações intratextual.  O “problema” deste hipotético dicionário é que rapidamente ficará desactualizado, pois estamos perante um universo ainda em expansão.
O conhecimento de vários modos de expressão artística é aproveitado neste romance. "Nem Todas as Baleias Voam" não tem as ilustrações de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças" ou de "A Boneca de Kokoschka", mas a música, uma outra vertente artística do autor, tem um papel essencial. Afonso Cruz, músico na banda "The Soaked Lamb", utiliza o seu conhecimento sobre estilos musicais e respectivos intérpretes na construção de "Nem todas as Baleias Voam". E a paixão pela música é essencial para a compreensão da sua prosa.  

Poucos escritores conseguem criar personagens, ambientes e histórias como Afonso Cruz. “Nem Todas as Baleias Voam” é mais um exemplo dessa capacidade. 
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1 comentário:

Carlos Faria disse...

Nunca a obra "Para onde vão os guarda-chuvas" me despertou interesse de leitura, apesar de já ter lido várias de Afonso Cruz e já nem sei se foi o Rufino que me recomendou uma das enciclopédias se foi outro blogger que o entrevistou, isto de que acompanha o mundo dos livros também se perde após algum tempo, todavia não sei se foi a forma como este post apresentou "Nem todas as baleias voam", se foi o facto de informar que as suas personagens vão sendo parcialmente reveladas num puzzle de obras diferentes, incluindo "A boneca de Kokoschka" que simplesmente adorei, hoje fiquei mesmo interessado em ler estas baleias que não sei se são as que voam ou não faladas no livro. Um abraço

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