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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

12 Sugestões de Leitura


12 Sugestões de leitura

Fim do ano é tempo de balanço. Por esta razão, deixo-vos 12 sugestões de leitura, uma para cada mês. As obras não estão organizadas por ordem de importância, mas por ordem alfabética.
Não posso deixar de referir o facto de não estarem presentes dois livros de que gostei particularmente:
“ As aventuras de Pinóquio”, de Carlo Collodi, adaptado por Stella Gurney, com maravilhosas ilustrações de Zdenko Basic.
“ O traço do anjo”, um belíssimo livro de poesia, de Maria João Cantinho.

Boas Leituras!!!!!



Anderson, Sherwood
“Winesburg Ohio”

Há livros que têm um grande impacto. Há autores, até dado momento desconhecidos, que formam a sensibilidade e criam uma exigência mais apurada. Há autores e há livros que nos mudam e nos indicam as posteriores leituras de outros autores. Há muitos livros e muitos autores, mas existem poucos que conseguem exigir uma releitura. “Winesburg Ohio” exige. O primeiro capítulo é indispensável a qualquer leitor e escritor. Intitula-se "grotesco" e é um medicamento contra a intransigência e a mediocridade da verdade absoluta. 


Askildsen, Kjel
“Um repentino pensamento libertador”

Askildsen escreve o necessário e nada mais. Ao deixar de dizer o que se intui, ao conseguir um (quase) perfeito equilíbrio entre o dito e o não-dito, o autor consegue mostrar o horror que o ser humano sente pelo vazio. A história que nos é contada é um instante essencial na vida do (s) interveniente (s), onde os conflitos permanecem irresolúveis. O leitor percebe que há mais aquém e além do que é mostrado. As várias histórias que compõem “Um repentino pensamento libertador” são estupendas criações literárias, onde o autor consegue no formato de narrativa curta capturar a angústia da solidão e a incapacidade de percebermos integralmente quem é o “Outro”


Carvalho, J. Rentes de
“Os lindos braços da Júlia da Farmácia”

“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” é composto por 30 narrativas escritas com a mestria de quem sabe contar bem uma boa história. J. Rentes de Carvalho surpreende-nos com a sua ironia queirosiana e com a fluidez de uma prosa equilibrada, que transmite a sensação de que tudo o que é necessário está em cada frase, em cada conto, na proporção exacta.
José Rentes de Carvalho tem controlo absoluto sobre as técnicas narrativas que aplica na arte de contar. A leitura é fluida, não existem perdas de sentido, malabarismos estéreis nem petulância no léxico utilizado.
Há momentos de brilhantismo.
Arrisco em dizer que esta obra não é somente (?) um belíssimo livro onde coexiste a narrativa e a poética; é uma lição de bem escrever.


Dazai, Osamu
“Não Humano”

O que mais impressiona em “Não Humano” não é a descrição de violência física ou mesmo a tortura psicológica. O que mais impressiona neste livro é a indiferença à dor própria e alheia. A estrutural moral e social é outra, se é que existe. Yozo está sempre à margem das emoções (excepto de um medo primário de animal), não se envolve socialmente e vê o sentimento como um sintoma de doença.
Poucos autores conseguem criar mundos diferentes, livros que causem impacto no leitor. O mundo “Não Humano” de Osamu Dazai é um desses mundos literários criados para nos abanar e, estranhamente, seduzir-nos a percorrê-lo e acabar a viagem.


Donoghue, Emma
“O quarto de Jack”

Emma Donoghue criou uma obra onde se interroga sobre a angústia que vem com a perda de inocência, o conhecimento como porta de entrada, o amor como suporte da vida e o horrível como parte integrante do Ser Humano.
A história fundamenta-se na dialéctica entre luz e sombra, mal e bem, ficção e realidade, na decadência física da mãe em contraste com o crescimento do filho. A tensão causada pelo antagonismo de situações e emoções díspares é mantida, com sucesso, desde o princípio até ao fim do livro. Numa prosa onde só há espaço para o essencial, Emma Donoghue afasta os vícios académicos e constrói um texto emotivo, sem cair no facilitismo melodramático.


Hollinghurst, Alan
“O filho do desconhecido”

“O filho do desconhecido”, editado pela Dom Quixote, é um livro onde o não-dito ocupa um espaço fulcral na interpretação da narrativa. A estrutura do romance, composta por cinco capítulos, e a contínua mudança de ponto de vista exigem a dedicação e a concentração do leitor. Os grandes temas do livro estão em fundo, dependem do silêncio e das versões contraditórias das personagens. “O filho do desconhecido” não rompe com a temática dos livros anteriores, mas vai muito além da problemática da sexualidade/homossexualidade. São abordados alguns aspectos dos quais dependem a personalidade: a memória, a aceitação, a interacção social e a ditadura do senso comum/regras da sociedade. Desta forma, Hollinghurst apresenta um texto que nos interroga sobre quem somos e qual é a base da nossa personalidade.


Kielland, Alexander
“Garman & Worse”

O Leitmotiv de “Garman & Worse” é o confronto entre inovação e tradição. Ao longo do texto podemos acompanhar a impossibilidade de conjugar estes dois factores dentro do seio familiar e das ligações sociais – através da relação laboral e, intrinsecamente, das diferenças entre classes. O papel da mulher na sociedade e o papel da igreja contextualizam-se, também e de forma clara, neste confronto entre tradição e inovação. A prosa é objectiva, equilibrada, e elimina o supérfluo. A perspectiva muda consoante o capítulo dando, desta forma, uma pluralidade de pontos de vista. A narrativa é sólida e, apesar dessa mudança de perspectiva, não perde, em momento algum, a sua coerência. O autor tanto se aproxima das personagens (ao ponto de não sabermos a quem é que pertence determinado pensamento, se à personagem ou ao narrador) como delas se distancia.


Luca, Erri
“O peso da borboleta”

Erri de Luca construiu um duelo poético entre dois seres dominados pela obsessão da perseguição e pela expectativa de um duelo.
Em "O peso da borboleta” há uma comunhão de entidades pertencentes a vários círculos existenciais: O animal, o homem, a natureza e o imaterial (a morte, os espíritos). Tudo se move em simultâneo e numa infinita conexão de causa-efeito.
Erri de Luca conta-nos uma história de obsessão, duelo, limites e eminente tragédia. Mas é, principalmente, uma história de dependência entre personagens, de demanda, de simbiose e transformação final.


McCann, Colum
“Deste lado da luz”

Em “Deste lado da luz”, Colum McCann estabelece uma relação tanto intrínseca como extrínseca com a pintura. As construções das comoventes e poderosas imagens baseiam-se numa dialéctica entre luminosidade e sombras. A caracterização emocional das personagens, a construção de todo o ambiente onde se inserem, a própria contextualização social é sugerida ao leitor através de uma luz que se concentra em aspectos particulares. O que fica na sombra enfatiza o facto desnudado pela luz. A memória e o tempo estão dependentes entre si e a constante referência ao “Melting Clock” de Salvador Dali, grafitado na parede do túnel, simboliza a relatividade do tempo perante a persistência da memória.
É um bom livro, composto por várias camadas interpretativas, pleno de significação e que, provavelmente, pede uma releitura. E se o solicita, não é por dificuldade de seguir ou compreender o enredo, mas pela riqueza simbólica das imagens criadas.


Mendes, Pedro Rosa
“Peregrinação de Enmanuel Jhesus”

Peregrinação de Enmanuel Jhesus” contém uma fulgurante riqueza imagética, complexidade narrativa e demanda existencial sobre a génese de uma cultura.
É, na minha opinião, um dos grandes livros da literatura contemporânea, assumidamente influenciado pela literatura de viagens desde o século XVI até à actualidade.
Pedro Rosa Mendes assume esta herança e oferece-nos um livro soberbo, que exige leitura e releitura. “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” é um acontecimento literário que merece perdurar no tempo e deixar a sua marca na História da Literatura Portuguesa.


Sepetys, Ruta
“O longo inverno”

“O longo inverno” é a história de um povo, simbolizado pelas personagens existentes, sob o discurso de violência de Estaline. Mas é também a história de Ruta Sepetys, do que ela ouviu e do que ela própria sofreu ao longo da investigação. Essa emoção está presente desde a primeira até à última página.
O ambiente histórico é verídico. Durante o período em que Estaline esteve no poder morreram milhares de pessoas. A autora recolheu testemunhos, visitou locais e algumas situações escritas foram, de facto, vividas pelos sobreviventes.
Ruta Sepetys desenterra as histórias de sofrimento e provações a que milhares de lituanos, letões, finlandeses, e não só, foram sujeitos, para nos mostrar, através destes exemplos, a indomável vontade de viver do ser humano.
A autora quis passar o testemunho de sofrimento de um povo. Foi bem-sucedida.


Tsiolkas, Christos
“A bofetada”

“A bofetada” é um livro extenuante não só pelo volume (537 páginas), mas – essencialmente- pelo desgaste emocional a que o leitor é sujeito. Apetece dizer quando se abre a primeira página “ Deixai toda a Esperança, Vós que entrais”.
“ A bofetada” de Christos Tsiolkas é um rasgo na realidade do leitor. Há livros assim: Pegam em nós e conseguem sacudir a nossa realidade até à quase insuportável inquietação.



Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

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