Se um autor for avaliado pela constante actualidade, então Ferreira de Castro (1898-1974) assume especial relevância.
Depois da publicação de “A Experiência”, “ «A Missão» e «O Senhor dos Navegantes» ” e “Emigrantes”, a Cavalo de Ferro publica, agora, “A Selva”, uma das obras mais comercializadas do escritor nascido em Salgueiros, concelho de Oliveira de Azeméis.
Este livro vendeu, quando a literatura portuguesa tinha pouca ou nenhuma expressão, mais de 500 mil exemplares e foi louvado por Camus, Stefan Zweig, Jorge Amado e Nemésio como um dos mais importantes romances sobre a selva amazónica.
Nesta obra, Ferreira de Castro procura pacificar-se com o seu passado ao exorcizar a experiência traumática que teve nos seringais. O biografismo é fundamental na génese de “A Selva”. O autor português esteve muitos anos em território brasileiro, incluindo o espaço geográfico onde se desenvolve a acção do romance. A história de Alberto, o personagem que viaja em condições miseráveis para o Brasil, é a projecção da experiência do escritor que viajou, aos 12 anos, nas mesmas condições, entre esfomeados, num porão de 3ª classe.

Os seringueiros, na procura de vida melhor, contraem dívidas na aquisição e renovação de material indispensável à actividade laboral. O parco pagamento do seu labor pouco mais serve do que para abater essa dívida.
O capital sai do bolso do patrão para voltar a entrar no mesmo bolso. A miséria é um grande negócio.
A lógica esclavagista deixara de ter base na captura de negros (muitos foram exportados para o Brasil depois de raptados em território africano) para sustentar-se na dependência, pelo trabalhador, de um encargo acumulado e indefinido. A violência do capital incide sobre homens entregues a uma dívida estrutural contraída para exercer o próprio trabalho. O que Ferreira de Castro pensa em “A Selva” mantém a actualidade em tempos de neoliberalismo.
Tudo é vendável. Até a própria dignidade.
Dentro dessa realidade hostil, Alberto conhece a sua essência, a dos homens que o acompanham e a da própria selva. Tal qual o seu criador.
Alberto viria a substituir a competição pela cooperação, e o sentimento de superioridade por o da solidariedade. Ao chegar, via-se como ser individual, independente, e superior ao comum dos trabalhadores dos seringais. Quando sai, Alberto sente-se um elemento pertencente a um conjunto, dotado de uma causa social, convicto da justiça do combate contra a desumanização pela pobreza.
A autenticidade do romance deve muito a essa perspectiva credível, autêntica, de um homem que conheceu por dentro a realidade que descreve. O humanismo da sua visão soma-se ao perfeito equilíbrio na descrição da personagem principal deste livro: A selva. As descrições não são demasiado extensas, ou fastidiosas, conseguindo sugerir ao leitor o ambiente infernal em que a acção se contextualiza.
Ferreira de Castro continua com “A Selva” a professar humanismo. Com profundas raízes realistas, o autor marcou – conforme temos vindo a afirmar nas críticas às diversas obras no Diário Digital- o panorama literário da sua época. A universalidade dos seus temas e a qualidade da sua escrita propõem-no como um dos melhores autores em língua portuguesa.
“A Selva”, de igual modo às anteriores obras de Ferreira de Castro publicadas pela Cavalo de Ferro, é um livro com enorme qualidade literária e de permanente actualidade.
Mário Rufino
Outros textos sobre Ferreira de Castro:
"A Experiência": https://oplanetalivro.blogspot.com/2014/07/a-experiencia-de-ferreira-de-castro.html
"A Missão e O Senhor dos Navegantes": https://oplanetalivro.blogspot.com/2014/01/a-missao-e-o-senhor-dos-navegantes-de.html
"Os Emigrantes": https://oplanetalivro.blogspot.com/2013/09/emigrantes-de-ferreira-de-castro-diario.html
Outros textos sobre Ferreira de Castro:
"A Experiência": https://oplanetalivro.blogspot.com/2014/07/a-experiencia-de-ferreira-de-castro.html
"A Missão e O Senhor dos Navegantes": https://oplanetalivro.blogspot.com/2014/01/a-missao-e-o-senhor-dos-navegantes-de.html
"Os Emigrantes": https://oplanetalivro.blogspot.com/2013/09/emigrantes-de-ferreira-de-castro-diario.html
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