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sábado, 30 de dezembro de 2017

Octaedro, de Julio Cortazar




Orientar o leitor até ao sentido, dispensando o esforço de quem recebe o texto, é algo rejeitado por escritores como Jorge Luis Borges, ou Edgar Allan Poe. Julio Cortázar (1914-1984), influenciado por estes dois escritores, construiu narrativas que exigem do leitor redobrada atenção. O escritor argentino dá liberdade e pede responsabilidade, num jogo literário que depende da participação de quem decide caminhar por esta teia construída de forma exemplar. A Cavalo de Ferro continua a publicar a obra do autor de O jogo do mundo – Rayuela. Surge agora um dos últimos livros do escritor, Octaedro, publicado em 1974, mas inédito em Portugal até agora.

Octaedro é composto por oito narrativas breves em pouco mais de cem páginas, e são mais do que suficientes para o autor demonstrar a mestria ao alcance de muito poucos. A utilização de diferentes recursos estilísticos revela a capacidade do escritor argentino para contar uma história de várias formas.

A construção temporal de Liliana a Chamar é arrojada e bem-sucedida. Nesta narrativa, um homem está na antecâmara do grande sono. Nos instantes finais da sua vida, ele conta o que virá a acontecer depois da sua morte. A sua imaginação permite-lhe criar a história – com a utilização de tempos verbais como o futuro imperfeito, o condicional e o infinitivo – ainda antes de ela acontecer. O leitor não tem algo contado em media res, mas antes numa possibilidade por concretizar.



Cada conto cria um espaço próprio (o conto Aí mas onde, como é dos mais dúbios e radicais). O corte com o expectável abre uma porta para uma nova realidade, e é aí que as personagens se aproximam ou se afastam. Em boa verdade, existem várias realidades em cada conto. A tensão existente provém da clivagem entre interpretações das diferentes personagens do que vai acontecendo. Em Lugar chamado Kindberg essa clivagem provoca muita tensão não só entre os pontos de vista das personagens, mas também com o leitor. A interpretação nunca é unívoca.

Cortázar não se limita a replicar na literatura o tempo, falsamente linear. Ele introduz elementos inesperados, fantásticos, que impelem as personagens a reagir de forma diferente. Em Verão, por exemplo, uma menina provoca alterações na rotina de um casal. Mariano, o marido de Zulma, vê os rituais como uma “resposta à morte e ao vazio, fixar as coisas e os tempos, estabelecer ritos e passagens contra a desordem cheia de buracos e manchas”.

Um jogo de reflexos instalou a dúvida e o medo, rompendo com a previsibilidade diária. Um cavalo lá fora? O interior reflectido no vidro? O que representa este cavalo? A cena que sugere uma violação significa que algo os invadiu. Ela, dominada pelo medo; ele, a representação da ameaça. Tudo termina com a chegada da manhã.



Jean Chevalier, em “Diccionario de los simbolos”, afirma que o “cavalo”, como arquétipo presente na memória dos povos, “es portador a la vez de muerte y de vida, ligado al fuego, destructor y triunfador, y al agua, alimentadora y asfixiante.”
Entre as muitas possibilidades de significação, Chevalier afirma também que, ao amanhecer, “el caballo, siguiendo este  proceso, abandona sus oscuridades originales para elevarse hasta los cielos, en plena luz.” O desejo impetuoso desaparece com a chegada da luz.

Cortázar procura a colaboração do leitor. A dubiedade das palavras dos personagens, das suas posturas e da própria história introduzem variáveis que levam a múltiplas interpretações. Em As fases de Severo, talvez mais do que nos outros contos, o escritor argentino elimina as respostas a “como?”, “o quê?” e “porquê?”, mantendo o leitor em suspense e as possibilidades em aberto. O não entendimento daquele ritual e toda a simbologia cria uma ruptura com o expectável. O que estão a fazer?; porquê? Os contos de Cortázar são poliédricos, têm várias faces, tantas ou mais que as de um octaedro. E são, por vezes, analíticos do próprio jogo literário.

Os passos nas pegadas tem essa componente, ao constituir-se como uma história sobre um crítico ultrapassado pelo repórter de moda, crítico de coluna e escribas do momento. A erudição académica de Jorge Fraga foi relegada pela imediatez do consumo de textos com asserções parcamente fundamentadas. O seu conhecimento é de tal profundidade que acontece o fenómeno de interinfluência com Claudio Romero, sobre quem estuda a vida e a obra. Ele vive a vida do poeta tal qual ela não foi vivida, ou seja, os espaços em falta são preenchidos com os seus desejos, projecções e imaginação formando, desta forma, uma “vida paralela” fora do factual. A conjugação de várias interpretações constrói uma visão mais alargada e completa do indivíduo em estudo. Claudio Romero é muito mais do que dados recolhidos nos poucos estudos conhecidos. Ele é composto pelas diferentes vidas vistas por diversas pessoas com quem ele confraternizou. Tudo muda quando Fraga, já depois de ter contribuído para formalizar uma imagem icónica através da publicação de um livro com muito sucesso sobre Romero, percebe que a versão consagrada é enferma de parcialidade e erros grosseiros.

“Atingia agora o estado mais profundo da sua identificação com Claudio Romero, que nada tinha a ver com o sobrenatural. Irmãos na farsa, na mentira esperançosa por uma ascensão fulgurante, irmãos na queda brutal que os fulminava e destruía.”

A escrita sobre a captura do efémero através do jogo literário chega à excelência em Manuscrito encontrado no bolso. Este conto, um dos melhores do livro, tem uma realidade e um tempo próprio. “O jogo”, como lhe chama o narrador, tem regras “belas, estúpidas e tirânicas”. Na carruagem do metro, ele explica:

“ (…) se gostava de uma mulher sentada à minha frente junto à janela, se o seu reflexo na janela cruzava olhares com o meu reflexo na janela, se o meu sorriso no reflexo da janela perturbava ou agradava ou repelia o reflexo da mulher na janela, se Margrit me via sorrir e então Ana baixava a cabeça e começava a examinar detalhadamente o fecho da sua mala vermelha, então havia jogo (…)”

Cada estação de metro multiplica as possibilidades. O espaço e tempo subterrâneos, em que todos coincidem, exponenciam-se pelo número de saídas, ruas e pessoas. (Este espaço viria a ser importante, também, em Pescoço de gatinho preto, conto que encerra o livro.)

O autor de livros como Todos os fogos o fogo ou Gostamos tanto da Glenda não ilumina o “punto ciego”. Ele cria-o.
Octaedro não se deixa compreender numa só leitura. Cortázar é absolutamente brilhante.

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Só este mês adquiri o primeiro cortazar, Rayuela, se gostar será mais um escritor a explorar. Lembro-me que o Mário Rufino no grupo "O que andamos a ler?" no passado me fez boas recomendações. Um abraço e bom ano novo com boas leituras

Mário Rufino disse...

"Rayuela" é um clássico. Cada vez gosto mais de Cortázar. Não foi amor à primeira vista...

Belo grupo.

Bom ano.
Mário

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