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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

"Princípio de Karenina": Somos melhores na voz de Afonso Cruz









Afonso Cruz (n.1971) expande geografias e encurta distâncias entre pessoas através da literatura. Um pai conta a sua história à filha. Essa história passa por territórios longínquos como o Vietname, Camboja e o que antigamente se chamava Cochinchina. Será essa longa e intensa viagem que o levará a compreender o outro, a si próprio e a conjugar-se com todas as vicissitudes ocorridas ao longo da vida. Nessa viagem são dadas a conhecer personagens como uma mãe que revela as costuras do mundo, um amigo com ambição de ser campeão de luta e com desejos inconfessados, uma criada velhíssima... Um conjunto de acidentes (ou imperfeições) levou a que a filha nunca o tivesse conhecido. Estas imperfeições, que conduzem ao fracasso, foram batizadas por Jared Diamon de “Princípio de Karenina”. Em “Armas, Germes e Aço”, onde surge este conceito, o biólogo vencedor do prémio Pulitzer afirma que “Todos os animais domesticáveis se parecem; cada animal não domesticável é não domesticável a seu próprio modo”Jared Diamond remete tanto o princípio como o respectivo título para "Anna Karenina”, de Tolstoi. Foi em diálogo com estas obras que Afonso Cruz iniciou o seu livro: “Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo.” Vários mundos, disciplinas e visões se entrelaçam no mais recente romance do autor nascido na Figueira da Foz. Mais do que fazer um juízo de valor sobre as imperfeições que resultam em insucesso, Afonso Cruz faz dessas imperfeições a força motriz da criatividade. O fracasso motiva a longa viagem do pai e do próprio leitor, que irá muito longe para perceber o que está bem perto. Mais do que um enredo, “Princípio de Karenina” (Companhia das Letras), tem uma ideia.   substracto  pode ser sintetizado numa frase de Paul Celan: “Sou mais eu quando sou tu”. 

A génese deste livro aconteceu com uma conjugação de factores. “Princípio de Karenina" tem origem num texto de Afonso Cruz para o espectáculo "Pasta e Basta", da autoria de Giacomo Salisi e Miguel Fragata. Esta peça promove a combinação de ingredientes de várias origens, numa metáfora de sã convivência e mútuo enriquecimento entre culturas; tal qual um grupo de pessoas se senta à mesa para saborear a combinação de ingredientes oriundos de vários territórios: o café do Oriente, de Timor, Brasil ou Colômbia, o milho da América central, os tomates americanos, o açúcar do Brasil, as laranjas e o melão trazidos pelos árabes, ou o arroz e as massas que vieram da Ásia. Outro elemento importante na construção deste livro foi uma viagem organizada pelo Centro Nacional de Cultura ao Vietname e ao Camboja. Nesses territórios, Afonso Cruz assentou as geografias do romance e trouxe fotos para complementar o texto.





O pensamento inerente a esta obra, assim como a outras obras do autor, encontra-se  num livro de não-ficção que cruza várias culturas e compreende várias viagens. Em "JalanJalan – uma leitura do mundo” (2017) reside a essência da ficção de Afonso Cruz: O universalismo da condição humana. “Princípio de Karenina" é mais um exercício literário deste universalismo. A ideia atribuída aos persas (como metonímia) de que quanto mais longe os povos se encontram do centro da civilização persa mais bárbaros se tornavam é desmantelada da primeira à última página. 


 “Assim como o meu pai chamava bárbaros a todos os que viviam fora da nossa casa, os gregos chamavam bárbaros aos que não eram gregos. Os romanos, a quem não era grego ou romano. Os persas, dizia Heŕodoto, criam ser o povo mais espectacular do mundo e que quanto mais longe se vivia da Pérsia mais horrível era a raça. O mesmo Heródoto dizia que os egípcios chamavam bárbaros a quem não falava egípcio. Para o meu pai, qualquer pessoa que não fosse da nossa família era bárbaro e, mesmo falando a nossa língua, grunhia em estrangeiro, esse fenómeno fonético especialmente animalesco."

  Este centrismo é uma das condições contrariadas por Jesus Cristo. Apesar do cristianismo não ser "pedra de toque” de Afonso Cruz (mais próximo das ideias de Plotino), está, em boa verdade, bem presente na sua prosa. Jesus Cristo afastou-se da mãe e do pai, afastou-se da sua aldeia, e foi ao encontro do estrangeiro além da porta de casa. Foi ouvir e falar; foi dialogar e perceber. Numa parábola presente em “Génesis", a voz de Deus pergunta: "Onde está o teu irmão?” (Génesis 4:9). Está perto e está longe, parece responder Afonso Cruz. A principal distância não é física; está na incapacidade de empatia, na pouca disponibilidade para ouvir e perceber o que o “outro” tem para dizer. E não seremos nós o estrangeiro para quem nos recebe? Este humanismo está no ADN do autor de "Para Onde Vão os Guarda-Chuvas", “Enciclopédia da Estória Universal", "Flores" entre tantos outros livros. Há algo de redentor, algo que - excepto em Flores- nos faz conciliar com a bondade que existe no ser humano. Não por inexistência de maldade, mas por suplantação dessa maldade. Sem esquecer o lado malévolo, o olhar do autor concilia-nos ao incidir no melhor que existe na nossa condição. Lembremo-nos de Saramago: "É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”. O humanismo do prémio Nobel da Literatura é o humanismo de Afonso Cruz. Através da literatura, ambos procuram aproximar o homem do homem. Sem empatia e com juízo moral como medida de todas coisas, a distância não é percorrível. Deixamo-nos dominar pelo medo. O caminho escolhido para combater esse medo é mais simples do que em livros anteriores. Atente-se na estrutura escolhida. Ao contrário de outros romances, a história é única, sem alternações com sub-enredos (lembremo-nos de ”A Boneca de Kokoschka”, por exemplo). 

Na Enciclopédia da Estória Universal - Biblioteca de Brasov", Afonso Cruz escreveu: 
“Sempre que se abre um livro, o mundo deixa de ser verdade para passar a ser uma hipótese". 
Ao terminar o romance "Princípio de Karenina” , o leitor pensa que este mundo, esta ideia, deveria deixar de ser uma hipótese para passar a ser uma verdade. 

Obra que se completa e dialoga –entre si e com os clássicos- tem no livro “Princípio de Karenina" um renovar de esperança para o leitor. Afonso Cruz convida-nos a reflectir sobre a pluralidade na condição humana. 







foto: https://www.wook.pt/livro/principio-de-karenina-afonso-cruz/22382279








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