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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"O Aroma do Tempo – um ensaio filosófico sobre a Arte da demora" (Relógio d`Água), de Byung-Chul Han






Em tempo de devoção à velocidade, suspender o movimento para reflectir é um acto de coragem. Byung-Chul Han (n.Seul, 1959) propõe em "O Aroma do Tempo – um ensaio filosófico sobre a Arte da demora" (Relógio d`Água) a revalorização do ócio.
Segundo o ensaísta nascido na Coreia do Sul, “o ócio remete para o pensar como thorein, como contemplação da verdade". Está distante do desligamento ou afastamento da realidade.
O trabalho, imposto como castigo a Adão e Eva quando expulsos do Paraíso, é regulador do carácter. Deus castigou a desobediência impondo o trabalho. Só através do labor Adão e Eva puderam satisfazer todas as necessidades outrora garantidas pelo Divino.
A mudança de paradigma também teve a religião como força impulsionadora. A Reforma viria a ampliar o conceito de trabalho para algo mais do que a satisfação de necessidades primárias. Até ao movimento que viria a dividir a Igreja, a vida activa era menos importante do que a vida contemplativa. As orações marcavam o início, o ritmo e o fim de cada dia. Posteriormente, Lutero viria a associar o labor à vontade de Deus.
O medo da condenação eterna é afastado através do trabalho, que ganha, desta forma, um sentido salvífico. A hierarquia é o espelho da elevação do indivíduo. O Belo e o Nobre, tão louvados por Aristóteles, foram substituídos pelo utilitarismo. Hoje, somos o que produzimos. A existência é quantificada e demonstrada em índices. A coesão social depende da capacidade produtiva. Quando se estuda, afasta-se a possibilidade de abstracção. Estuda-se para fazer. Um existe para alimentar o outro. A possibilidade de parar para reflectir é um luxo. A inutilidade de algo deve ser eliminada. Tudo é útil, ou não deve existir.
A contemplação, com a inutilidade como parte integrante da sua riqueza, é um vício dos ociosos. É algo que os produtores de riqueza permitem a quem é "extravagante", "diferente" ou "inadaptado". A inacção cataloga o ocioso como preguiçoso ou improdutivo
A crise temporal advém da eliminação da contemplação. Tudo tem de ser rápido e comensurável.  A nossa existência é fragmentada em vários planos, sem alcançarmos qualquer um deles em profundidade. Trocamos a essência pela pluralidade superficial.
Fazemos um zapping pelo mundo, sofrendo do que Heidegger chama de "desassossego distraído" e de "carência de morada". Para Byung Chul-Han, é por isto que "cada um de nós se torna qualquer coisa de radicalmente passageira".
A Literatura não escapa a esta hipervelocidade social (nem a crítica literária).
Byung-Chul Han afirma que "o tempo avança cada vez mais rapidamente no curso do romance. O que faz com que, num mesmo número de páginas, se apresentem, no princípio do livro, apenas umas quantas horas de tempo narrado, horas que depois se transformam em dias e acabam por ser semanas, de tal modo que, no final da obra, se comprimem meses e anos num pequeno número de páginas".
É a antítese de Proust. O aroma do tempo existe na madalena do autor de "Em Busca do Tempo Perdido" e na sua chávena de chá. A Magnum Opus de Proust é um exemplo do que se tem perdido com a fragmentação do tempo. A construção proustiana sustenta "o edifício enorme da recordação", algo que a atomização actual do tempo já não permite.
Byung-Chul Han sustenta as suas afirmações com vasta bibliografia, demonstrando, desta forma, ser um leitor voraz. Nietzsche, Heidegger, Adorno, Bouchillard, Zygmunt Bauman, Aristóteles, Arendt e São Agostinho, entre outros, abrem novas possibilidades ao leitor de "O Aroma do Tempo". O autor de "Psicopolítica"(Relógio d`Água) e “A Sociedade do Cansaço” (Relógio d`Água) indica caminhos sem cair na tentação do ostensivo "name dropping".
Byung-Chul Han preocupa-se em comunicar com o leitor. Os capítulos são curtos, os textos são extirpados de metalinguagem obscura, as ideias são explicadas claramente. Professor de Filosofia na Universidade de Artes de Berlim, Byung-Chul Han alia a pedagogia ao desenvolvimento teórico. O aluno/leitor não é secundário; o ensaísta/ professor não "fala" para se ouvir.
Em "O Aroma do Tempo – um ensaio filosófico sobre a Arte da Demora" são desenvolvidas ideias sobre a decisiva influência da organização do trabalho no comportamento do ser humano e na percepção do tempo.
A coacção, explícita em "Psicopolítica", encontra-se implícita nesta obra. A regulamentação comportamental por forças económicas tem o seu substrato em ideias religiosas. A coação existe sem o ser humano ter disso consciência. A optimização de processos físicos e mentais, abordada em "Psicopolítica", é desenvolvida nesta obra por diferentes prismas.
O "idiota" de "Psicopolítica" é aquele que se afasta para contemplar em "O Aroma do Tempo". Ele personifica a solução, aquele que percebe que "o tempo perde o aroma quando se despoja de qualquer estrutura de sentido, de profundidade, quando se atomiza ou aplana, se enfraquece ou se abrevia.” O "idiota" é aquele que contempla. E quem contempla dá coesão ao tempo e permite o resgate da narrativa como força criadora.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=836877

terça-feira, 23 de agosto de 2016




Patrícia Portela (n.1974) especula, ensaia, e conta a possível existência de Acácio Nobre, cujo nome próprio significa "aquele que não tem maldade".

Em 1999, a autora descobriu em casa dos seus avós uma pessoana arca com textos e projectos inacabados de Acácio Nobre, que terá supostamente nascido em 1869 e morrido em 1968. Os documentos que compõem "A Colecção Privada de Acácio Nobre" (Caminho) permitem conhecer um personagem que se destaca no seu tempo.

http://www.sabado.pt/cultura_gps/livros/detalhe/o_extraordinario_universo_de_patricia_portela.html




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

"Narciso e Goldmund" (D. Quixote), de Hermann Hesse


Hermann Hesse (Calw, 1877-Montagnola, 1962), Nobel da Literatura em 1946, transmuda experiências fulcrais da sua vida para a literatura. Longe de ser uma autoficção, Narciso e Goldmund (D. Quixote) espelha, ainda assim, muitas das vivências deste autor alemão.


http://www.sabado.pt/cultura_gps/livros/detalhe/o_caminho_do_conhecimento_por_hermann_hesse.html



domingo, 21 de agosto de 2016

"O Rosto de Eurídice" (Teodolito), de João Paulo Sousa




João Paulo Sousa (n.Porto, 1966) poderia ter feito de "O Rosto de Eurídice" (Teodolito) um exercício exibicionista de cultura literária. Poderia, mas não o fez. O ensaísta em áreas como Estética e Crítica Literária manteve o seu perceptível conhecimento teórico no substrato de uma ficção bem conseguida, envolvente e com um começo capaz de agarrar de imediato o leitor: "Demorei muito tempo a compreender como poderia ser reconfortante a ideia da morte da minha filha."
Em "O Rosto de Eurídice" não existe a tentação de se credibilizar o romance através de constantes alusões a ideias e autores canónicos, numa ostensiva manipulação da atenção do leitor. A meta-literatura existe como corrente interior do fluxo de consciência.
António, personagem principal, tenta conciliar-se com o passado. A morte de Teresa, sua irmã, reflecte-se no presente. As recordações desse acontecimento dramático condicionam as relações amorosas e os simples gestos quotidianos. João Paulo Sousa espelha o passado nas acções e pensamentos deste personagem que se move entre uma casa de praia, uma cidade e um hotel à beira mar. António é dominado por um jogo de compensações em que personagens se projectam noutras personagens:
"(...) e segundo, porque o rosto da minha irmã, ao confundir-se com o de uma mulher que me provocava uma atracção sexual crescente, a qual, ainda assim, eu tentava negar, interpunha-se entre mim e o objecto de desejo, como se apenas a Teresa [irmã] fosse capaz de o satisfazer"
O escritor portuense desenrola o tempo até à emancipação do seu principal avatar. O ritmo da narração é lento, permitindo constantes analepses e a fusão de tempos num presente proustiano.
A falibilidade da memória adensa a neblina sobre o passado. A introspecção desenvolvida pretende clarificar a razão das lembranças serem projecções tão vívidas.
O personagem afirma que "um morto é o lugar de um vazio absoluto". O reflexo do rosto da falecida Teresa desmente-o ao projectar-se em outras importantes figuras femininas que lhe preenchem a vida. Este jogo de reflexos e compensações é o pilar em que assenta a narrativa desta obra. A relação entre António e Teresa tem paralelo com a de Orfeu e Eurídice. A ligação entre estes dois personagens da mitologia clássica é essencial para a descodificação do texto.
A impossibilidade de António é a impossibilidade de Orfeu: resgatar da morte a pessoa amada. Olhar para o rosto de Teresa tem um custo elevado. Se Orfeu perde Eurídice por olhar para o rosto dela, António perde as pessoas no presente por ter, sempre, o rosto da irmã na cabeça.
O episódio bíblico protagonizado por Lot é, igualmente, actualizado pelo autor. António, ao olhar constantemente para trás, fica preso ao passado.
O conhecimento da teoria da literatura é demonstrado uma vez mais num episódio passado no teatro. O ficcionista consegue disciplinar o ensaísta. Ele sugere, não explica.
Na peça de teatro a que António assiste há um espelho no centro do palco.
Sentado na primeira fila, o narrador vê o seu rosto naquele espelho. A interpretação do que vê depende, como ele próprio conclui, da perspectiva que é adoptada. António está "dentro" da peça. O sentido do que é visto depende do que ele leva para o palco. A avaliação que faz dos personagens dessa peça depende não só delas próprias, mas também do espectador.
Este é essencial na construção de sentido:
" (…) talvez a preponderância que insisti em atribuir ao homem de preto [personagem da peça] encontrasse também uma justificação exterior à peça; na verdade, eu bem poderia sentir que me identificava com ele, ou com a sua obsessão em relação à irmã, de que estava afastado há anos, ainda que essa identificação fosse sobretudo de pendor negativo, marcada por aquilo que, na personagem, me parecia ser a projecção de um dos meus interditos".
Nesta passagem, que sublinha a arte como catarse, mantém-se o jogo de sombras e projecções e é adicionado uma vertente defendida na Teoria da Recepção.
Segundo Hans Robert Jauss, em "A literatura como provocação", "A recepção interpretativa de um texto pressupõe sempre o contexto anterior da experiência em que se inscreve a percepção estética".
João Paulo Sousa conseguiu criar mais do que um conjunto de personagens numa boa história. O autor criou um tempo paralelo, fundindo passado e presente.

A qualidade de “O Rosto de Eurídice” não deve passar despercebida.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=838278

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Bíblia traduzida por Frederico Lourenço


Quetzal publica a mais completa edição da Bíblia em português

A Cinemateca Portuguesa foi o local escolhido para o editor Francisco José Viegas e Frederico Lourenço, que assume a tradução integral, anunciarem a tradução da Septuaginta (Bíblia grega).
Composta por seis volumes, a Bíblia terá o seu primeiro volume publicado no próximo mês de Setembro. O segundo volume, com possível saída para as livrarias num espaço de seis a oito meses, completará o Novo Testamento. Os seguintes quatro volumes compõem o Antigo Testamento, com o último a ser publicado no início de 2019.
A edição da Quetzal contempla os 27 textos do Novo Testamento, iguais em todas as versões, os 46 do Antigo Testamento presentes na Bíblia Católica e ainda os seguintes sete:
3.º Livro dos Macabeus, 4.º Livro dos Macabeus, Salmos de Salomão, Odes, Livro de Susana, Bel e o Dragão e Epístola de Jeremias.
São mais 14 livros do que os existentes nas Bíblias protestantes e mais 7 do que os presentes no actual cânone católico.
É a versão mais completa alguma vez publicada em língua portuguesa.
Francisco José Viegas não escondeu o seu entusiasmo por uma edição que pode marcar a sua vida profissional de editor e a de Frederico Lourenço, como tradutor. Segundo o editor da Quetzal, houve um momento inspirador. Aconteceu em 1450, ano em que Gutenberg começou a impressão da Bíblia. A maior portabilidade da impressão determinou a história da leitura, da literatura e da própria Bíblia. É devido a Gutenberg que a cultura tem o seu centro no livro.
"O sonho de qualquer editor é, também, reproduzir o gesto de Gutenberg".
Depois da leitura das primeiras páginas desta tradução, Francisco José Viegas apercebeu-se que estava perante uma experiência múltipla, pois o texto "tem a ver com poesia, tem a ver com a História, tem a ver com a língua, com a religião e com a contemplação. Precisamos de contemplar a Bíblia"
A tradução desta edição da Quetzal é o trabalho de um homem solitário, com coragem para enfrentar 2000 anos de texto e de diferentes versões, em busca da palavra original.
Frederico Lourenço, tradutor de "Odisseia" (Cotovia) e "Ilíada" (Cotovia), cedo pensou em traduzir a Septuaginta para português, mas esperou até ter o conhecimento e a maturidade para o fazer.
Frederico Lourenço comprou uma edição do Novo Testamento em grego no verão de 1984, numa banca perto da Feira do Livro, antes de entrar para o 1º ano de Estudos Clássicos, na Faculdade de Letras de Lisboa.
"Não tinha ainda conhecimentos de grego que me permitissem ler aquele livro, mas comecei a tentar ler. Ao longo destes anos todos em que tenho estudado grego, aquele livro tem sido dos livros que eu mais li e que mais quis ler."
Após a tradução das obras-primas da literatura clássica, é tempo de se dedicar ao "Livro dos livros"
A nova tradução da Bíblia é feita com o intuito de ser inteligível a leitores com ou sem preparação teológica, crentes ou não-crentes. A preocupação de "aproximar" o texto dos leitores leva a que Frederico Lourenço utilize diferentes estratégias para facilitar a compreensão do texto.
As notas sobre diferenças relevantes na tradução, que podem implicar diferentes significados, são explicadas; sinais gráficos como os parênteses são usados para identificar palavras que não estão no texto original, por serem subentendidas na época da escrita, mas que agora são necessárias; existe uma introdução geral à obra e outra a cada um dos volumes. Nessas introduções são explicadas várias questões históricas e linguísticas, de forma a iluminar o sentido do texto bíblico.

Em "O Livro Aberto: leituras da Bíblia" (Cotovia) percebe-se a perspectiva do tradutor sobre o colossal trabalho que enfrenta. A erudição de Frederico Lourenço e a louvada capacidade de transposição da "Ilíada" e "Odisseia" do grego para português credibilizam o trabalho sobre o texto bíblico.
O pensamento que rege a organização desta nova versão já é perceptível em "O Livro Aberto: leituras da Bíblia". Após a leitura desta obra, percebe-se a diferença estrutural imposta por Frederico Lourenço nesta nova tradução. A organização dos textos fundamenta-se na abordagem histórica ao invés da abordagem teológica, para que "as pessoas consigam perceber que o primeiro livro que nós lemos na Bíblia não é o livro mais antigo da Bíblia. Nas nossas Bíblias cristãs, o Antigo Testamento está organizado  de acordo com a lógica "Livros da Lei", "Os Livros Sapienciais" e os "Livros Proféticos". Esta organização tem, no seu fundamento, a ideia de que o Antigo Testamento é um prelúdio do Novo Testamento. Os "Livros Proféticos" são os últimos porque, segundo Frederico Lourenço, são os que melhor se entrosam no Novo Testamento.
"A questão é que alguns dos "Livros Proféticos" são os textos mais antigos da Bíblia; são muito mais antigos do que o Livro de Génesis".
O colossal trabalho que o professor, escritor e tradutor Frederico Lourenço tem até 2019 implica dedicação e concentração totais. Outras possibilidades de trabalho foram recusadas.
A nova tradução da Bíblia, cujo texto continua a captar interesse e a demonstrar actualidade, pode ser o trabalho da vida de um tradutor. A sua edição, o trabalho da vida de um editor.
Frederico Lourenço confessou que voltou a sentir o medo que sentiu nas traduções dos dois livros de Homero: o medo de morrer sem acabar o trabalho.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=835516








sexta-feira, 17 de junho de 2016

"Uma rapariga é uma coisa inacabada" (Elsinore), de Eimear McBride






Eimear McBride (n.Liverpool, 1976) tem reunido a admiração dos críticos e dos júris de vários prémios literários.
“Uma rapariga é uma coisa inacabada” (Elsinore), primeiro romance da autora, foi distinguido com os prémios “Baileys Women´s Prize for Fiction”, “Goldsmiths Prize”, “Kerry Group Irish Novel of the Year”, “Desmond Elliott Prize” e o Geoffrey Faber Memorial Prize”.
Joshua Cohen, em “The New York Times”, descreve-o como “future classic”, a escritora Anne Enright, em “The Guardian”, também diz que “The result is an instant classic”. As vozes de Beckett e Joyce, assim como os princípios do modernismo irlandês, sentem-se na prosa, de acordo Wood e a própria autora A unanimidade em torno do livro da escritora inglesa garante um sucesso comercial? Dificilmente. “Uma rapariga é uma coisa inacabada” resiste a leituras superficiais. Está no antípoda do “walk in the park”.  Eimear McBride apresenta-se com olhos postos em leitores exigentes. As personagens desta violenta história não têm nomes. As suas características psicológicas definem as respectivas identidades. O interlocutor não é definido, mas é a ele que cabe a responsabilidade de nomear e interpretar o texto:“Para ti. Que vais. Vais dar-lhe nome. Nos pontos da sua pele ela vai usar o teu poder de decisão” A história deste livro tem pontos de contacto com a história pessoal da autora. Eimear McBride, em entrevista a “Faber & Faber”, disse que, aos 17 anos, mudou-se para Londres para estudar Drama. Seis meses depois de se graduar, um dos irmãos ficou doente. Durante um ano, tal como a personagem, Eimear McBride fez várias viagens entre Londres e a Irlanda, em visita a esse irmão. No livro, a família é composta por uma mãe devota, um filho com atraso cognitivo, devido a uma operação a um tumor no cérebro, e uma irmã. Por vezes, aparece um tio. Aparece pouco, mas estraga muito. Não há uma figura paterna. O pai deixou-os. Havia de morrer com uma apoplexia. A narração é entregue à filha. As suas palavras saem cheias de culpa. É um peso carregado e raramente aliviado. A relação familiar é disfuncional. A mãe entrega-se à fé, a filha entrega-se ao sexo, o filho… o filho é a culpa feita carne. O atraso do rapaz vai sendo mais evidente com o tempo. Os colegas gozam com ele, a irmã não percebe como é que ele deixa isso acontecer, a mãe...reza e nega a realidade. Não quer aceitar. Eimear McBride vai escarafunchando, sem dó, até expor uma dor ainda maior, numa gramática manipulada e deturpada. Tal como a mente da narradora. As frases de Eimear McBride ora transgridem a velocidade máxima permitida ora se tornam espásticas e limitadas a uma palavra. São frases que irritam e desconcertam. A agramaticalidade não é um gratuito exercício de estilo. A personagem quebra convenções, sofre numa família disfuncional e apresenta-se emocionalmente destruída. A linguagem é o espelho dessa vivência.


A torrente de consciência proporciona o encadeamento de diferentes tempos e vozes (ou lembranças dessas vozes). Não é a cronologia que condiciona o desenvolvimento da personagem. O tempo é relativo e tem como eixos os diversos traumas da narradora.
O sentido torna-se nebuloso devido à incoerência do pensamento e das estruturas frásicas. Tudo nos parece inquietante, hipnótico e impossível de largar.
Pudesse o leitor agarrar esta rapariga sem nome ver-se-ia numa situação delicada. Não saberia se a salvava ou acabava com esta agonia.
A imagética cristã está muito presente na prosa de McBride. A devoção da mãe é ostensiva, e as preces em busca de misericórdia são frequentes. A simbologia ganha outra dimensão tanto na estrutura como nas diversas pistas que McBride vai deixando ao longo da narrativa.
O caminho da narradora é um calvário desde o princípio até ao fim. Ela cai, levanta-se e caminha. Os obstáculos que vão surgindo deixam marcas cada vez mais profundas. As esporádicas ajudas são eliminadas ou reduzidas por novas contrariedades. A cruz é carregada sem a misericórdia da autora. Parece não haver hipótese de salvação. Enquanto a mãe reza, a filha escarnece:
“Dizer umas orações de merda de que adianta isso? Eu disse as minhas orações da noite todas as noites e olha-me só o que me fizeram.”
As hemorragias e o sexo são valores simbólicos na vida desta narradora. O sangue é constantemente referido. A narradora sofre diversos derramamentos. As agressões, as hemorragias nasais por causa do estado nervoso e a perda da virgindade demonstram os castigos físicos durante o caminho desta personagem. No entanto, a maior violência é auto-infligida. Esta criação de McBride castiga o corpo numa vertigem hipersexual.
A narradora, ainda menor de idade, perde a virgindade com o tio. A partir desse momento, a actividade sexual desenvolve-se até práticas masoquistas. As descrições são pungentes, não caem no gratuito e demonstram a complexidade da personagem “É bom não nos sentirmos puras”, chega a afirmar.
Tal como nos rituais cristãos será a água a via para a redenção. O baptismo é um renascimento aos olhos de Cristo. Possibilitará McBride uma saída para a sua criação?
A intensidade psicológica das personagens põe o leitor perto da apoplexia. Eimear McBride não facilita. “Uma rapariga é uma coisa inacabada” é para aqueles leitores que gostam de testar a capacidade de resistência em livros mais dolorosos. Na última página, suspira-se de alívio, sabe-se que se terminou um livro extraordinário, e tem-se vontade de tatuar “Eu li Eimear McBride e sobrevivi”.
Magnífico.

Mário Rufino

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=829644

quarta-feira, 15 de junho de 2016

“O último Natal de guerra” (Cotovia), de Primo Levi



O lado menos conhecido de Primo Levi


Primo Levi (1919-1987) fez do inferno o núcleo da sua criação literária. A vida do autor italiano é indissociável dos campos de extermínio. Perto do fim da II Guerra Mundial, os prisioneiros de Auschwitz e campos circundantes foram retirados devido à proximidade das forças aliadas. A deslocação para outro campo foi denominada Marcha da Morte. Uma doença incapacitante permitiu que o autor italiano e judeu ficasse na enfermaria e sobrevivesse.
Primo Levi viria a escrever um dos mais medonhos e brilhantes livros sobre a experiência humana em condições absurdas. O já muito estudado “Se isto é um homem” é um dos livros marcantes da literatura universal.
A experiência nos campos de concentração é contada sem qualquer autocomiseração. A honestidade põe a descoberto a sempre emergente possibilidade do mal, mesmo na vítima. “Se isto é um homem” seria mais do que o suficiente para inscrever Primo Levi na História da Literatura, mas ainda há qualidade muito apreciável em outras obras.
Entre elas, “O último Natal de guerra” (Cotovia).
Esta obra póstuma é composta por vinte e seis textos publicados durante dez anos em diversos jornais. O absurdo e a brevidade das narrativas são matéria comum a todos os textos.
O contraste entre a verdade e o paradoxal tem um efeito perverso. O genocídio causa menos perplexidade do que um canguru numa festa, uma poça alienígena a fazer uma entrevista, ou a existência de seres bidimensionais em um país bidimensional.
A profícua narração sobre o genocídio perpetrado pela Alemanha Nazi fez que com que o choque perante tal aberração fosse atenuado ou desaparecesse. Neste livro de narrativas breves, que conta também com textos sobre os campos de concentração, é o inverosímil que causa estranheza. É a impossibilidade de um canguru participar num jantar volante que põe o leitor em sobressalto. Não é a narração do assassínio de milhares de seres humanos. O maior absurdo inscreveu-se no real. O texto que dá nome ao livro é demonstrativo. Um rasgo de bondade num campo de concentração é visto como uma impossibilidade lógica. Não é a maldade que constrange; é a bondade.
A raiz do ódio, contrariada pela personagem de “O último Natal de guerra”, é ficcionada em “As duas bandeiras”. O ódio é ensinado até integrar a cultura de uma comunidade. A lógica é deturpada devido à assimilação de ideias disparatadas. A reconquista de um vulcão é o o exemplo dado por esta parábola:
“Em todas as escolas da Lantânia ensinava-se que a anexação do vulcão por parte dos gundúwios tinha sido uma empreitada de bandidos, e que o primeiro dever de um lantano era o de se treinar militarmente, odiar a Gundúwia com todas as suas forças (...) Que o vulcão, a cada três ou quatro anos, devastasse dezenas de aldeias, e todos os anos provocasse terramotos desastrosos mão parecia ter importância: lantânico era, e Lantânico voltaria a ser”
A violência é constante na prosa de Levi. Em “Força Maior”, a perspectiva de M. sobre a vida é alterada após ser arbitrariamente agredido.
Primo Levi utilizou diversos e extravagantes pontos de vista na análise sociológica e psicológica do ser humano. Neste livro, há espaço para entrevistas a uma bactéria intestinal, a uma gaivota, a uma aranha, e a outras personagens nada habituais. A substituição de elementos esperados por inesperados causa estranhamento. Não é a história nem a estrutura conservadora dos textos que causa impacto. São os elementos pouco habituais que, utilizados estrategicamente, incutem estranheza no leitor.
Kafka fê-lo, com a reconhecida qualidade, em “Metamorfose”. Levi, leitor do autor checo, compartilha essa estranheza, sendo, contudo, um escritor que procura mais a mente humana do que os mecanismos que a limitam. Essa procura é visível no conto “O fabricante de espelhos”, em que se nota também a presença de obras de Pirandello. Este conto sobre um homem que constrói um espelho metafísico está ligado pela temática a “Um, ninguém e cem mil”. Pirandello, escritor da mesma nacionalidade de Levi, interrogou-se sobre as diferentes perspectivas que compõem a sua imagem. Cada pessoa, uma ideia.
Tal como Vitangelo Moscarda, em “Um ninguém e cem mil”, Timóteo percebeu que “não havia duas imagens que coincidissem entre si: em resumo, não existia um verdadeiro Timóteo”
Primo Levi registou em obras maiores a sua memória. É um escritor mais de reconstituição e de testemunho do que de imaginação. “O último Natal de guerra” apresenta características menos vistas do autor italiano. A capacidade imaginativa de Levi fomenta a estranheza. O antropomorfismo das personagens mais surpreendentes obriga o leitor a adequar as suas expectativas em textos ficcionais que compõem este livro.

Nos textos de não-ficção presentes neste livro, há esse exercício de memória. O biografismo sustenta narrativa, que perde em estranheza, mas ganha em pungência.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=827942

Mário Rufino

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Festival Literário da Gardunha 2016



O destino especial dos portugueses



No segundo dia do Festival Literário da Gardunha, Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia, Mário Zambujal e o professor Alexandre Manuel (moderador) participaram na primeira “Mesa Redonda”, no Teatro Clube de Alpedrinha.

O Festival Literário da Gardunha começou no Auditório Moagem, no dia anterior, e continuou fora do Fundão, no Teatro Clube de Alpedrinha.
A paisagem envolvente já promete as desejadas cerejas. Os caprichos da Natureza atrasaram a produção deste ano.
Dulce Maria Cardoso, que esteve em residência literária ao abrigo do festival, revelou que a cereja era vangloriada em Angola, durante a infância da autora.
Devido à sua delicadeza, a cereja chegava mirrada e pouco saborosa a um país onde os frutos são luxuriosos. Mesmo assim, os portugueses comiam o fruto vindo da sede do Império como se fosse de sabor e aspectos raros.
As experiências e imagens coleccionadas na infância são matéria-prima para a criação literária da autora de livros como “O Retorno”, “Campo de Sangue” ou “Os Meus Sentimentos”.
“Eu ainda cantei hinos ao Império, na escola”, afirmou.
A mistificação do Império era algo muito presente.
“Tudo isto me foi vendido pessoalmente”.
Para Dulce Maria Cardoso, os portugueses pensam ter um destino especial; é algo que já vem dos Descobrimentos. Aos poucos, a História vai sendo descoberta.
“Seis Milhões de africanos foram deslocados para o Brasil”.
A versão actual ainda é dominada pela ficção. Só mais tarde teremos ensaios e estudos que permitirão saber a verdade.
“Fomos aos rio de Meca, Pelejamos e roubamos”, disse a autora citando Gil Vicente.




Pedro Mexia, actual consultor para a cultura do Presidente da República, disse que para os portugueses a viagem é uma espécie de justificação. É uma forma de autodescoberta.
Os portugueses procuraram na viagem (e na expansão) uma forma de contrariar a pequenez geográfica. A viagem transformou-se num desígnio.
A desintegração do Império marcou Portugal. A pequenez geográfica originou uma ferida narcísica, característica não partilhada por Inglaterra, cujo império também se desmantelou.
Segundo Pedro Mexia, a crítica à expansão aparece muito cedo na literatura portuguesa. Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões são mordazes. “Auto da Índia”, de Gil Vicente, é particularmente violento. No entanto, existe também no ser humano um impulso para a descoberta de o Outro, sem intuitos marcados pelo egoísmo.





Mário Zambujal chegou ao Teatro Alpedrinha “fresco de paisagens”. Antes da “Mesa Redonda”, o autor de “Crónica dos Bons Malandros” esteve num colóquio sobre vinhos na região do Douro. Confessou ter feito todas as provas de vinho.
Mário Zambujal não se sente tentado a escrever sobre paisagens, pois vê-as como inertes. As paisagens humanas são-lhe mais entusiasmantes.
“Viajei muito no tempo em que se viajava pouco. O que nos encanta é a novidade e a surpresa. Isto vai-se perdendo”
O escritor confessou que quando está no estrangeiro quer voltar para Portugal.
“Sou um portugalão. Sou mesmo daqui. Adoro estar aqui.”
Segundo Mário Zambujal, a viagem só é perfeita quando a cabeça está a observar o que os olhos vêem.
O segundo e último dia de viagem do Festival Literário da Gardunha viria a voltar ao Fundão para, depois de várias “Mesas Redondas”, terminar com a Conversa Cruzada entre Tiago Salazar e Clara Ferreira Alves sobre viagens.



Festival Literário da Gardunha iniciou a sua 3ª viagem



Festival Literário da Gardunha iniciou a sua 3ª viagem



A 3ª edição do Festival Literário da Gardunha começou, oficialmente, no dia 21 de Maio.
Gonçalo M. Tavares, Ana Margarida de Carvalho, Fernando DaCosta e Margarida Gil dos Reis (moderadora) foram os protagonistas da primeira “Mesa Redonda” do festival.
Após a Conferência de César António Molina, antigo ministro da Cultura de Espanha, os três autores portugueses conversaram, com maiores ou menores desvios, dentro do mote proposto para esta edição: “Escrever a Paisagem”.

Gonçalo Tavares vê a energia humana como algo de muito atraente. Depois de estar isolado a escrever, o autor de “Uma Viagem à Índia” precisa de ter pessoas à sua volta.
“Se a paisagem não incluir seres humanos, entedia-me”.
O indivíduo contemporâneo limita-se a passar repetidamente pelos mesmos lugares sem qualquer observação do que o rodeia. A repetição desse trajecto desenha uma figura geométrica no mapa. É o traço deixado pela rotina. Além da vertente concreta e geográfica da viagem, a deslocação do indivíduo é também formada por uma variável: a velocidade.
A linha recta, que indica o caminho mais curto e mais rápido, tornou-se uma obsessão. Esta realidade elimina o gozo de viajar. Hoje a viagem começa e acaba no ponto final, ou seja no destino.
Antes do vício em velocidade, a viagem era o trajecto entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Daqui resulta o interessa do autor pelos situacionistas e pelo conceito de desvio. Sair da forma geométrica e reduzir a velocidade permitem que o indivíduo repare. Se uma pessoa viaja mas continua com a atenção no local de partida, em verdade não viaja.
Fernando Dacosta, autor de “Viagens Pagãs” (Parsifal), lembrou as histórias trágico-marítimas. Nessa época, os reis mandavam embarcar pelo menos um cronista em cada caravela. Era o “registador de factos”, capaz de grandes descrições dos costumes e das paisagens.
A tradição da viagem na literatura portuguesa prolonga-se no século XIX com “ Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, entra no século XX com “As Ilhas Desconhecidas”, de Raúl Brandão e, já no século XXI, prossegue com “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M. Tavares.
Há uma característica fundamental no pensamento do homem português, para Fernando Dacosta: Portugal não é o centro do mundo.
Em consequência, o português sente o apelo pela viagem.
A vontade de viajar tanto pode ser mental, como a do sedentário Fernando Pessoa, ou mais física, como a de Padre António Vieira e Luís Vaz de Camões.


Ana Margarida de Carvalho, que viria a apresentar o seu novo romance no Festival Literário da Gardunha, afirmou que escrever é estar parada e isolada num sítio.
“Que importa a fúria do mar” (Teorema) foi construído através da investigação e não através de uma viagem a Cabo Verde e ao Tarrafal. As possíveis incoerências factuais não são relevantes. Na ficção a verosimilhança é muito mais importante do que a verdade.
A viagem tem várias declinações. O Festival Literário da Gardunha promoveu desvios aos hábitos dos habitantes desta região. O Auditório Moagem, no Fundão, recebeu muitos interessados em fugir da rotina através da literatura.


MR




quarta-feira, 1 de junho de 2016

LeV- Literatura em Viagem 2016



Cláudio Magris e Howard Jacobson em uma das melhores edições do “LeV- Literatura em Viagem”




A 10ª edição do “LeV-Literatura em Viagem” decorreu de 13 a 15 de Maio, em Matosinhos. Uma Exposição, várias visitas a escolas, a Feira do Livro, uma Oficina e a presença de autores consagrados levaram a que esta edição tenha confirmado o LeV como um dos principais festivais literários de Portugal.


Há várias narrativas antes de cada gesto. São as histórias que moldam os futuros rituais. Matosinhos, cidade litoral, tem a sua génese em lendas que conjugam irrealidade com o suor de quem trabalhou ao longo dos séculos seguintes.
A mais antiga imagem de Jesus crucificado está em Matosinhos. Segundo a lenda, a imagem em madeira de Cristo deu à costa no ano de 124. Havia sido esculpida por Nicodemos, que fora testemunha da crucificação de Jesus. A Bíblia refere que Nicodemos e José de Arimateia retiraram da cruz o filho de Deus. Nicodemos guardou o Santo Sudário. José de Arimateia foi o fiel depositário do Santo Graal.
Nicodemos começou a esculpir a imagem de Jesus crucificado na madeira, baseando-se na imagem do Santo Sudário.
Devido à perseguição perpetrada pelos romanos, ele viria a lançar as esculturas ao mar Mediterrâneo. Uma dessas imagens veio dar a Matosinhos, mas sem um braço. Esse braço viria a ser descoberto cinquenta anos depois por uma mulher em busca de lenha para a lareira. Quando depositou esse pedaço de madeira no lume, ele saiu das chamas. Uma e outra vez. Foi então que a sua filha, surda-muda, disse-lhe em bom som que estavam perante o braço em falta na escultura.
Devido a esta lenda, a cidade entrega-se uma vez por ano às Festas de O Senhor de Matosinhos. As estradas são ocupadas pelas barracas de artesanato e bugigangas. Os Matraquilhos rivalizam com as “vintage” máquinas de flippers, os carrinhos de choque sobrevivem às novas tecnologias, as farturas apelam à gula. Atira-se ao alvo para se ganhar um boneco. Conversa-se ao balcão, entre uma bifana e uma cerveja. E há a demonstração de fé na procissão.
Matosinhos é feita de histórias. A religião, o futebol e a literatura ocuparam os espaços da cidade entre 13 e 15 de Maio.
O “LeV - Literatura em viagem” teve a sua 10ª edição. E é possível que tenha sido a melhor.
Em fim-de-semana de Oliveirense-Leixões, de procissão, da Festa de O Senhor de Matosinhos e de decisão da Liga Portuguesa de Futebol, a Galeria Municipal encheu para se ouvir falar de literatura. A 10ª edição do LeV confirma que a Câmara Municipal e a Booktailors, a quem coube a produção executiva, têm uma questão para resolver: A Galeria Municipal já não consegue responder à quantidade de público que procura assistir às sessões. A sala central esteve sempre cheia. As salas laterais, onde numa delas se poderia ver a exposição “um dia na Terra - fotografias do quotidiano do Planeta” (Gonçalo Cadilhe), receberam mais público, apesar de não assegurarem a mesma visibilidade para o palco.

De Homero a Thomas Mann, numa biblioteca com cinco quilómetros

A 10ª viagem do Lev começou numa sala maior, mas ainda assim insuficiente para tanta gente assegurar um lugar sentado.
José Pacheco Pereira procedeu à Conferência Inaugural, no dia 13 de Maio, no Salão Nobre da Câmara Municipal. Em dia de Nossa Senhora de Fátima, Pacheco Pereira falou sobre as obras fundadoras da nossa Civilização.
António Pacheco Pereira tem a maior biblioteca privada do país. São cinco quilómetros de uma biblioteca que cresce metro e meio por semana. O arquivo foi formado por três gerações e gasta quase todos os proveitos financeiros do seu actual detentor. Foi o avô de Pacheco Pereira que iniciou a pesquisa e aquisição de documentos, pois não são só livros, que hoje possibilita conhecer a História da Europa através de uma viagem pelas prateleiras.
Quando lemos os livros essenciais encontramos uma viagem, afirmou Pacheco Pereira. Seja geográfica, como “Os Lusíadas” de Camões e “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, ou mais psicológica/moral, como “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. A viagem é uma metáfora da vida. A efectuada por Ulisses é, do ponto de vista cultural, a genética da cultura europeia. Viaja-se física e culturalmente na imagética grega, que viria a ser incorporada pelo cristianismo.
Desde os tempos de Homero, a literatura mundial teve o minimalismo de Tchekhov, o ambiente psicotrópico de Lewis Carroll, o universo concentracionário de Kafka, a metaliteratura de Cervantes e a clarividência de Thomas Mann.

Prozac e livros
A literatura contemporânea mantém a sua ligação à viagem.
Paulo Moura, autor de “Extremo ocidente” (Elsinore) e Gonçalo Cadilhe, autor de “Passagem para o Horizonte” (Clube do Autor), conversaram no dia 14, segundo dia do festival. Francisco José Viegas, a quem coube a moderação, perguntou se se nasce viajante, ou se se aprende a viajar.
Para Gonçalo Cadilhe, é necessário querer viajar. Tem de haver predisposição para tal. A aprendizagem vem depois. Aprende-se a viajar viajando.
Paulo Moura defende a atitude activa perante a viagem. É necessário atitude, envolvência nas vidas das pessoas e ainda criar enredos para se ser parte integrante da acção. A sensação que os sítios lhe provocam tem muito a ver com a perspectiva. A viagem, como deslocação física, não determinada nada; é a bagagem pessoal e o que se aprende que determinam o efeito. “Tenho essa tese: Viajar é sofrer”.
A globalização veio uniformizar os países e os costumes. Para Paulo Moura, essa uniformização é superficial. Ultrapassada a superficialidade imposta pelas cadeias de “fast-food” e vestuário, existe a especificidade a descobrir.
Um dos sintomas de uniformização é a própria língua. O inglês conquistou o lugar de língua franca. Em um evento com escritores de várias nacionalidades e, pela primeira vez, em cooperação com a “Literature Across Frontiers” a língua de Shakespeare possibilitou a compreensão entre diversas culturas. Foi o que aconteceu na mesa “Novas Vozes”, em que Andrés Barba (Espanha), Ilzé Butkuté (Lituânia) e Josefine Klougart (Dinamarca) e em “Poderão os Livros Salvar o Mundo?” com Hélder Gomes (jornalista Canal Q, Moderador), Ella Berthoud, autora de “Remédios Literários, livros para salvar a sua vida - de A a Z” (Quetzal), e Clara Ferreira Alves, jornalista e autora de “Pai Nosso” (Clube do Autor). No dia 15, último dia do festival, numa conversa feita integralmente em inglês, Clara Ferreira Alves afirmou que os livros podem salvar ou condenar. “A mim salvam mais do que condenam”.
A sua actividade de repórter fê-la passar por experiências dramáticas. Foi inevitável a construção de um certo cinismo perante a morte e o perigo. É uma arma de defesa contra o horror presenciado. Na sua opinião, a ficção não tem conseguido acompanhar a velocidade dos acontecimentos na sociedade contemporânea.
A biblioterapeuta Ella Berthoud acredita que o livro pode melhorar a vida das pessoas. A autora inglesa passa, nas suas consultas, cerca de uma hora com cada paciente. Desta forma, consegue prescrever o livro adequado para a maleita de quem procura a sua ajuda. E deu um exemplo: Quando há o vício da Internet, Berthoud prescreve “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queiroz. É uma terapêutica que complementa a medicina tradicional. “Prozac e livros”, afirmou.



Ases de trunfo

A qualidade das intervenções manteve-se elevada. Além das participações mencionadas, o LeV teve ainda a contribuição de Patrícia Reis e Teolinda Gersão, na mesa “Conversa a quatro mãos”, com moderação de José Luís Barreto Guimarães; Alberto S Santos, autor de “Para lá de Bagdade” (Porto Editora), João Ricardo Pedro (Prémio Leya) e David Toscana (Prémio Casa das Américas), dialogaram sobre “Viagens na minha terra”. Filipe Morato Gomes, cronista e fotógrafo de viagens, participou na mesa “Segredos da Pérsia”. A moderação das duas mesas foi entregue a Tito Couto (Booktailors).
Cláudio Magris, candidato ao Nobel da Literatura, e Howard Jacobson (Booker Prize) foram os grandes trunfos da organização.
O escritor italiano foi entrevistado pelo historiador e político Rui Tavares. Foi o ás de trunfo lançado no 2º dia do festival.
Portugal é mais do que um país de visita para Cláudio Magris. “O Conde”, conto da sua autoria, tem como inspiração a foz do Douro. A língua portuguesa foi a língua de chegada da primeira tradução de um livro seu.
A sua boa disposição e charme foram notórios durante a permanência no Porto e em Matosinhos. Na “Entrevista de Vida”, o autor de “Danúbio” disse que o trabalho para “Uma Causa Improcedente”, editado este ano pela Quetzal, começou em 2009 e baseia-se em uma pessoa real A realidade é muito mais rica do que a ficção, afirmou.
Essa pessoa dedicou o seu tempo a construir um Museu para a Paz. A colecção era constituída por objectos e outros elementos relacionados com a guerra. Cada um desses objectos é uma nota de rodapé na história universal. Depois dos objectos, o personagem começou a procurar nomes.
Ele acabou por morrer num incêndio, com causas pouco claras. De certa forma, este personagem era um Minotauro dentro do seu próprio labirinto.
Um espectador fez então uma pergunta, relembrando Vila-Matas: “Escrever é uma forma de corrigir a realidade?”
Magris, que tem Vila-Matas como amigo pessoal, disse que escrever complementa a realidade, em vez de a corrigir.
“A realidade é uma série de futuros que foram abortados”.
Em resposta a uma outra pergunta, o escritor afirmou que, em “Danúbio”, não previa a queda da cortina de ferro, mas já tinha a sensação de haver fissuras nessa cortina.
A política está muito presente no pensamento de Magris. O escritor declarou ser um patriota europeu. O seu desejo é votar num presidente europeu, dentro de uma organização geográfica e política em que os países sejam regiões da Europa. Infelizmente -declarou- a Europa está bloqueada politicamente.
No último dia de festival, foi a vez de Howard Jacobson, Booker Prize com “A Questão Finkler” (Porto Editora).
O escritor inglês tirou fotos com os leitores, deu autógrafos e visitou a Livraria Lello sem perder a capacidade de promover gargalhadas. E isso continuou na “Entrevista de Vida”, com Tito Couto e Pedro Vieira (Booktailors).
“A comédia é o coração da literatura. Tem de se deixar a tragédia e a comédia existir”, afirmou.
As anedotas que fazem rir são, segundo Jacobson, uma defesa contra a tragédia da vida.
“Quando faço comédia tudo é pergunta”.
Quando interrogado sobre os seus casamentos, o escritor inglês não perdeu o seu humor.
“Não fiquem aborrecidos se o vosso primeiro e segundo casamentos falharem. É preciso prática”. E, de seguida, virou o feitiço contra os entrevistadores, ao aconselhar as respectivas esposas a “despachá-los” e partirem já para os seguintes casamentos.
A ironia incide constantemente em si mesmo. Quando Jacobson contou à sua mãe que estava nomeado para o Booker, a Sra Jacobson avisou-o de que não ia ganhar. Se ele tirasse uma foto das muitas pessoas que ali estavam para o ouvir e a enviasse para a sua mãe, ela diria que estava ali muito público, mas era para ouvir outro escritor. Não era para ele. “Ela faz isso para me proteger das desilusões”.
Howard Jacobson é descendente de família judia oriunda do leste europeu. A memória é essencial na transmissão de conceitos e hábitos culturais. “Eu vivo em memórias, eu vivo em memórias que não são as minhas”. Em “J”, publicado pela Bertrand, as pessoas não querem saber da memória. Existem efeitos nefastos quando se despreza a memória. O anti-semitismo é um desses efeitos. A contínua recorrência desse fenómeno intriga o escritor inglês. Assim como o fenómeno Trump. Ele é um palhaço, afirmou Jacobson. Assim como foi Mussolini. “Os palhaços parecem que estão sempre a voltar”.
Segundo Jacobson, houve uma época que o Booker mudava a vida de um autor para sempre; agora muda a vida de um livro para sempre e a de um autor por um ano ou dois.

Religião, futebol e literatura.

Durante o fim-de-semana do LeV, houve Jesus na cruz em procissão, bifanas e couratos no pão acompanhados de cerveja; o Benfica foi campeão, o Leixões manteve-se na Segunda Liga, o presidente do clube de Matosinhos foi preso, vários jogadores do Oriental, que jogaram na mesma divisão que o Leixões, também. Alguns escritores anunciados não puderam participar. Apesar de tudo isto, houve mais público neste festival literário do que em alguns jogos da 1ª divisão da Liga Portuguesa de Futebol.
Desde a Oficina gratuita sobre edição, leccionada por Paulo Ferreira (Booktailors), até às entrevistas com autores consagrados internacionalmente, o livro esteve o centro das atenções.

O LeV desiludiu quem pensa que os portugueses não gostam de livros e de conversar com os escritores. E ainda mais quem pensa que escritores como Magris ou Jacobson não gostam de conversar com os leitores.

Mário Rufino

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=825782

domingo, 29 de maio de 2016

"Pássaros de Asas Abertas - antologia de contos angolanos"




A publicação de “Pássaros de Asas Abertas - antologia de contos angolanos” (A23 edições) surge contextualizada pelo quadragésimo aniversário da independência de Angola e, em simultâneo, com o surgimento da União de Escritores Angolanos (UEA).
A antologia é composta por 36 escritores, organizados por ordem alfabética, e almeja servir como “um instrumento valioso para o estudo do conto e da literatura angolana”, segundo os selecionadores Margarida Gil dos Reis e António Quino.
A temática da antologia é plural. A riqueza da (s) sociedade (s) angolana (s) assim o permite. A extensa presença de autores tão variados possibilita abranger os vários temas.
De acordo com os organizadores,“para além de construção de uma Nação Literária, com pontos de transformação e de ruptura, a literatura angola exprime, tal como o voo de um pássaro de asas abertas, um pensamento em transformação, multi-cultural, repleto de novas opções estéticas”.
Agostinho Neto, em “Náusea”, contribui com um dos melhores contos para esta colectânea. Em “Náusea”, o personagem principal demonstra que a relação do angolano com o mar é ambivalente. O mar trouxe a colonização e o desenvolvimento, mas também a morte.

“Kalunga é mesmo morte. Trouxe o automóvel e o jornal, a estrada e o fecho éclair, mas para ficar embora ali a fazer negaças.







sexta-feira, 27 de maio de 2016

Entrevista a Julián Fuks






Chegou do Brasil, Viu a Póvoa de Varzim, convenceu nas Correntes d`Escritas. Tudo saiu bem a Julián Fuks. O livro, a intervenção na Mesa e as entrevistas deixaram excelente imagem do autor de “A Resistência” (Companhia das Letras)
Julián Fuks conjuga a amabilidade com a inteligência. A clareza do seu discurso é ímpar tanto no texto literário como na oralidade. O autor parece procurar constantemente a palavra mais próxima ao que sente e ao que pensa. “A Resistência” reflecte essa demanda.
Sebastián, o narrador do livro, tenta reconstruir a história da sua família a partir da origem: a Argentina. Os seus pais, psicanalistas, foram obrigados a fugir da Argentina, devido à implementação de uma ditadura militar. Corria o ano de 1976. No período de vigência dessa ditadura, centenas de crianças desapareceram.
Em fuga da Argentina para o Brasil, onde Sebastián viria a nascer, o casal leva uma criança entretanto adoptada.
Ao longo dos anos, as relações entre irmãos e entre irmãos e pais vai-se complicando. E um mistério vai ganhando cada vez maior importância: Quem é o filho adoptivo?
Será Sebastián a narrar, nesta pungente autoficção, a evolução familiar desde a origem argentina até anos já passados de exílio no Brasil.
O Diário Digital entrevistou o autor na 17ª edição das Correntes d`Escritas, para saber mais sobre “A Resistência”
O silêncio após a primeira pergunta foi desconcertante, mas logo se percebeu que esse momento era a antecâmara de uma resposta sucinta e esclarecedora. Julián Fuks ponderou antes de responder a cada pergunta. E cada resposta foi demonstrativa da inteligência do autor.


No teu livro, o irmão adoptivo diz isto na pág. 187:
“Sobre isso você devia escrever um dia, sobre ser adotado, alguém precisa escrever”
“ A Resistência” foi a resposta a esse desafio?

-Houve esse desafio, feito há alguns anos como resposta ao processo de terapia familiar por que estávamos passando, processo que se narra no livro. Tanto ele quanto eu vivemos a situação muito intensamente, e naquele momento eu não pensava que aquilo podia-se tornar literatura. Simplesmente assimilei o comentário e não o esqueci. Ficou em mim. Foram precisos muitos anos para que eu entendesse que devia escrever sobre aquilo. Comecei então a escrever um conto sobre o meu irmão. E, ao me pôr a escrever, percebi que a história tinha que crescer, que devia também contar a história dos meus pais. Assim foi se configurando o romance.

Quando dizes “eu não sei bem se isto é uma história”, tem a ver com artifício literário ou não sabias mesmo onde o texto te levava?

-Esse comentário é feito ainda no começo do livro. De facto, havia algo de imponderável nesse início. Ali eu contrariava, inclusive, a minha prática de livros anteriores, pois abdicava de um planejamento e ia escrevendo enquanto tentava encontrar o caminho. Depois de passar por essa primeira parte, criei uma arquitectura para o livro. Mas a frase tem também outra intenção. Traz uma oposição entre a História, a que se costuma conceber com H maiúsculo, e a história menor, que é a pessoal e íntima. É nessa relação entre histórias que eu resolvi escrever este livro. A história familiar e íntima vai-se transformando lentamente numa História social e política.

Essa estrutura de que falaste é fragmentada. A forma como contas a história tem a ver como construímos as nossas narrativas através da memória?

Quando eu comecei a conceber o livro na totalidade, percebi que só dispunha de fragmentos. Transformar isso numa história completa e total ia ser uma maneira artificial de construir um enredo. Como eu queria ficar o mais próximo possível daquela realidade específica que eu tinha à disposição, a fragmentação me auxiliou a lidar mais directamente com esses elementos da experiência e da memória. Permitiu-me também fazer um livro mais de indagações do que de certezas. Em cada fragmento eu não chego a contar um episódio completo.  Por vezes conto uma pequena passagem, transitória, que me leva a algumas reflexões que estou tentando apreender. Não era minha vontade construir grandes cenas, passagens grandiloquentes.

O narrador está muitas vezes desconfiado da sua própria memória. Procuraste tentar ser o mais honesto possível?

Em grande medida sim, a desconfiança era parte dessa honestidade que eu pretendia no livro. Mas também partia do facto de que não se trata só de uma memória pessoal; é também uma memória a partir da memória de outros. É uma memória construída a partir de discursos sobre o passado, não uma memória directa do passado. São elementos falíveis, que não poderiam  construir um passado monolítico.
Dois personagens viveram o passado da militância contra a ditadura: o pai e a mãe. E eles não chegam a nenhuma versão comum. Eles têm versões díspares. Esse é o tipo de disparidade que eu quis incorporar na minha narrativa, para que não houvesse um discurso pronto sobre o passado, e sim um discurso em construção.

Há uma parte do texto que está dotada de uma tristeza extraordinária:
“(...) algum dia vocês se distraíram, vocês continuaram a vida e me deixaram sozinho aqui”. Com este livro quiseste compreender o teu irmão e aproximares-te dele?

Sim, essa era uma das finalidades da escrita, para além da finalidade da literatura, em si mesma. Foi uma tentativa de aproximação e de diálogo, num lugar em que o diálogo não se colocava muito francamente. Apesar desses lampejos verbais, como nesse momento de muita abertura do irmão para falar de certas coisas, a maior parte do tempo essa relação fraternal se dá pela impossibilidade da palavra, pelo silêncio, pela alusão pouco clara. O livro tinha a intenção de colocar palavras no lugar em que havia só silêncio.

Testas os limites da própria linguagem? O narrador chega a dizer “Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz”

O caso é que era preciso colocar palavras em lugares em que muitas vezes as palavras são incómodas. Por muito o tempo a família optou pelo silêncio, porque a palavra falada ou ouvida seria dolorosa. Num mundo ideal, é claro, não se falaria de adopção. O filho adoptivo é um filho, pura e simplesmente. Não seria preciso falar de um irmão ou de um filho adoptivo. Não seria preciso discriminar. Neste outro mundo, no entanto, é preciso encontrar palavras para lidar com essa questão, e essas palavras provocam inevitavelmente algum desconforto. Eu sentia isso enquanto escrevia o livro. Sabia que falar de adopção era falar de um assunto em que a própria palavra tinha o poder de estigmatizar. Falar da adopção como cicatriz, como nessa passagem, seria aumentar a importância que a adopção tinha ou poderia ter na vida desse personagem. Este era o risco a ser evitado: que as palavras perpetrassem a violência que se propunham a dissipar.

O narrador e o irmão adoptivo parecem optar por estratégias opostas. Enquanto o narrador enfrenta os problemas, o irmão adoptivo parece refugiar-se no silêncio.

É um livro de busca de identidade, mas feita por quem talvez não devesse fazê-lo. É uma procura feita por uma figura substituta. O irmão [adoptivo] poderia ir atrás das suas origens, indagar as circunstâncias da adopção, se esta podia ter alguma relação com a ditadura militar e o sequestro de bebés, muito frequente nessa época. Mas como esse irmão se imobiliza e foge dessas questões, o irmão narrador faz a busca no lugar dele. Essa busca é, inevitavelmente, limitada, por também ser uma busca própria e pessoal. Esse narrador não chega a ir muito longe na procura, pois poderia acabar incorrendo em uma invasão, em algo que não cabe a ele. Teria de ser o seu irmão [adoptivo] a pesquisar as suas origens. Cada um tem o direito, afinal, de ir atrás ou não ir atrás de seu próprio passado.

O irmão adoptivo teve psicanálise durante a adolescência. Contou muito sobre ele próprio, mas nunca mencionou ser adoptado. É o último tabu?

A consciência da adopção havia começado pela palavra. Os pais transmitiram-lhe desde o início a informação de que ele era filho adoptivo, só que aos poucos se dá um silenciamento e um afastamento dessa realidade como se fosse mais confortável viver assim, no desconhecimento. Isso cria um problema, pois a questão permanece ali mesmo que ele não queira lidar com ela.
Toda essa passagem é muito forte para mim. Não me refiro à passagem do livro, mas sim  à passagem da vida, o silenciamento do meu irmão, o facto de ter passado muito tempo em psicanálise sem falar sobre esse assunto. O livro conduz a partir disso para a terapia familiar, em que, depois de alguma insistência, o irmão aceita essa questão e passa a falar directamente sobre isso.

O irmão adoptivo vai-se encontrando ou desequilibrando?

Eu acredito que ele se vai encontrando, ainda que pareça um desequilíbrio. Talvez seja um desequilíbrio necessário para um equilíbrio posterior.

O livro “A resistência” é uma forma de resistir a quê? Ao medo? Ao esquecimento?

A proposta é que o título permaneça em aberto. Há muitas resistências sendo narradas aqui. Há a resistência dos pais à ditadura militar, a resistência do irmão a conceber a sua própria adopção, a resistência do irmão ao convívio familiar, a resistência do narrador a lidar com essa questão e a falar sobre esse assunto. O que me atrai na ideia de resistência é a ambivalência que o termo tem. Pode ser resistir positivamente, se colocar firmemente contra uma opressão, ou pode ser também se recusar a falar, se recusar a ver a verdade. A minha preocupação é captar o momento em que uma resistência se converte em outra.


Mário Rufino


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