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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Entrevista a Valter Hugo Mãe








São vinte anos de carreira literária e um livro novo. Valter Hugo Mãe celebra com os seus leitores um percurso com muitos momentos de sucesso. Faz furor no Brasil, onde ganhou o “Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano” e o “Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano” com “A Máquina de Fazer Espanhóis”. Chegou aos lugares cimeiros dos tops da Islândia, com “A Desumanização”. Adónis, Caetano Veloso, José Saramago, Ney Matogrosso louvaram os livros do autor nascido em Saurimo (Angola). Em Portugal, “Nenhuma Palavra é exacta” (Porto Editora; org. Carlos Nogueira) reúne estudos sobre a sua obra: a poesia, os romances, o teatro e a literatura para a infância e juventude
“Homens Imprudentemente Poéticos” (Porto Editora) surge três anos depois de “A Desumanização”. A paisagem da Islândia dá lugar à magia do Japão. É nessa ilha que Valter Hugo Mãe dá a conhecer ao leitor as suas novas personagens.
Itaro, Saburo, a senhora Fuyu, o monge sábio, a menina cega e a senhora Kame são exemplos da capacidade imaginativa do autor residente em Caxinas. É através deles que Valter Hugo Mãe conta as sensações causadas pela sua visita à “floresta dos suicidas”, conforme ficou documentado em “O Sentido da Vida”, filme de Miguel Gonçalves Mendes (realizador de José e Pilar).
“Homens Imprudentemente Poéticos” tem do seu autor a toada poética e o prazer de narrar. O poeta não desapareceu para dar lugar ao prosador.

O autor conversou com o Diário Digital a propósito do seu novo livro

O teu primeiro romance  ["O Nosso Reino", 2004] é sobre um miúdo de oito anos; o segundo ["Remorso de Baltasar Serapião", 2006] tem um personagem com dezoito; no terceiro ["Apocalipse dos Trabalhadores",2008], o personagem tem mais de quarenta anos; o quarto ["A Máquina de Fazer Espanhóis", 2010] tem o senhor Silva com oitenta anos. 
Esta evolução foi propositada? 
Foi propositada. Os meus primeiros quatro romances, embora se tenham tornado conhecidos como a "tetralogia das minúsculas", são, na verdade, a construção de um tempo de vida humana. É como se eu pudesse abarcar uma vida inteira com a literatura. Não foi através da mesma personagem, porque não me era interessante fazer uma sequela contínua, uma saga da vida de alguém. A intensificação dos instantes fundamentais da vida é mais interessante: A infância, juventude, casamento, idade adulta e a velhice. De alguma forma, duvidando eu da minha longevidade, a literatura foi uma metodologia para eu viver velozmente uma vida inteira. 

Onde se encaixa "O Filho de Mil Homens"? 
"O Filho de Mil Homens" é absolutamente exterior a essa tetralogia, a essa lógica. Na verdade, não se encaixa em nada no meu trabalho. Hoje, com a saída de "Homens Imprudentemente Poéticos", já pode ser visível que "O Filho de Mil Homens" é um livro meio à deriva. Foi um texto que eu escrevi por uma pulsão muito pessoal, eventualmente até muito íntima, e que talvez tenha sido publicado pelo vício de ser normal publicar os meus textos. Talvez tivesse sido escrito para mim, como se não fosse necessário ter chegado a mais ninguém.  

Hoje, publicarias "O Filho de Mil Homens"? 
Talvez publicasse, mas alteraria o fim e faria algumas alterações drásticas. Talvez adensasse a tragédia e não criasse uma redenção em que, na verdade, não acredito. 

Com "A Desumanização" voltaste ao princípio... 
Foste o primeiro jornalista a reparar nisso. Com "A Desumanização" voltei à infância e com "Homens Imprudentemente Poéticos" voltei aos vinte anos. 

É um novo ciclo? 
É talvez uma nova tetralogia. Enquanto escrevi a tetralogia anterior, não a anunciei. Creio que a primeira vez que aventei a possibilidade de estar a fazer uma tetralogia foi exactamente depois de ter publicado "O Remorso de Baltasar Serapião", que foi o segundo livro. É curioso. Este é o segundo livro, também. 

Há três anos conversámos, por correio electrónico, sobre os conflitos do escritor, neste caso dos teus. Mencionaste a "violenta relação entre razão e inteligência emocional". Itaro e Saburo, personagens de "Homens Imprudentemente Poéticos", representam esse confronto?  
O Itaro e o Saburo interessam-me muito como inimigos que precisam de aprender a cordialidade. O esplendor do Japão tem muito a ver com a conquista dessa cordialidade. Por ser um lugar superpopulado, eles precisam de ser inimigos com respeito. Antagonizam-se, desentendem-se, contradizem-se e, sobretudo, rejeitam o estrangeiro, mas têm uma forma elegante e admirável de convívio.  Este Itaro e este Saburo simbolizam a maturação cultural do Japão, que vem de uma batalha contínua, constante e secular de carnificina e que, de repente, desemboca num esplendoroso bem-estar, numa esplendorosa espiritualidade de apaziguamento. De alguma forma, o Itaro e o Saburo são os indivíduos que estão numa batalha, numa fúria e numa promessa de agressão e que, eventualmente, chegam a um ponto em que atingem uma inimizade educada e respeitosa. 

Eles começam longe um do outro mas vão se aproximando, sem nunca ficar amigos. 
Exactamente. Eles aprendem a ser inimigos. 

Saburo, o oleiro, queria ser feliz. Escreveste "O Japão, no entanto, nunca definiria a felicidade assim". 
Ao mesmo tempo, o Saburo exceptua-se na cultura do Japão.  O japonês é contido e incapaz de adulterar as regras da Natureza. O Saburo interfere na decisão da Natureza. Ele ajardina a floresta, o que é uma intromissão sacrílega. A floresta, como dimensão da liberdade natural, não convida à adulteração. Por isso, ela não precisa de ser embelezada. A cultura japonesa de base propende para uma espécie de naturalização dos objectos e de todos os gestos, como se eles não fossem distintos da Natureza. Eles não têm de ser mais belos do que a Natureza. A Natureza é abraçada contendo o seu próprio grotesco, a sua própria perigosidade. A Natureza é que verdadeiramente decide o grau de esplendor que quer ter. O Saburo é um desrespeitoso cidadão. Ele tenta educar a Natureza. 

Através do jardim, o oleiro tenta amansar as feras e ganhar a atenção dos deuses. Li há alguns anos um texto teu publicado no Jornal de Letras em que falas das flores e do falecimento do teu pai. Que importância ou significado têm as flores para ti? 
 Foi numa das minhas primeiras crónicas para o Jornal de Letras. 
É tremendamente triste que as flores, indutoras de cor, de vida e de beleza imediata, sejam usadas para adornar, à custa da sua morte. Parece que as sacrificamos, embora na verdade não pensemos muito assim. A impressão que me dá é que quando asseamos os túmulos com as flores, estamos a sacrificá-las em prol dos nossos mortos. Não estamos muito distantes de outros povos que degolam as galinhas. Nós não temos a percepção de que, de algum modo, também matamos para elogiar e celebrar os nossos mortos. 

Disseste que não acreditas em redenção. Vejo muita tristeza nos teus livros. Escreveste em "Homens Imprudentemente Poéticos": "Ilustrava o desespero com o talento". Aplica-se à tua escrita? 
Sim, todos os meus livros são uma tentativa de ilustrar a disforia. Aqui há uns anos, alguém me perguntou se eu tivesse de escolher uma palavra portuguesa como a mais bela de todas qual seria. Eu escolhi "disforia". É uma espécie de desalento profundo. A ideia de disforia talvez esteja patente em todos os meus livros. O que eu procuro fazer, com toda a carga poética que emprego nos livros, é partir da disforia para uma possibilidade sublime, que seria essa redenção, mas que é sempre um projecto literário. Na verdade, tenho cada vez menos a convicção de que essa aspiração, essa construção para o sublime, possa ser aplicada à cidadania, ou mesmo à vida. 

Os teus primeiros escritos foram aos seis anos; uns versos sobre a praia.  Neste novo ciclo escolheste o Japão e a Islândia. São ilhas. A escolha dos locais foi propositada? 
Sim, foi.
Há pulsões; há livros à espera. É como se eu tivesse ao longo da vida uma acumulação de livros que ainda não escrevi, mas que esperam por mim. A escolha do Japão foi sedutora, muito também por isso. A deslocação do universo islandês para o japonês é enorme. Eu queria muito a possibilidade de partir para um livro que, apesar de comungar um esforço poético com "A Desumanização", não fosse um livro capaz de ser "A Desumanização". Por isso, eu queria muito deslocar-me para uma mundividência, para uma atmosfera que me desse, por natureza, a impossibilidade de repetir "A Desumanização". No meio das possibilidades todas que eu tinha para escrever um livro, de tudo o que tinha guardado acerca do Japão, achei que trabalhar outra vez com uma ilha faria um díptico interessante com "A Desumanização". 

Essa mudança de ambiente e de referências implicou uma mudança de linguagem? 
Há uma secura maior em relação a "A Desumanização". Há uma poeticidade mais controlada, que acaba por interferir na sintaxe, mas menos exuberante nas imagens. É claro que tem muitas imagens, mas investe mais na desconstrução do lugar das palavras na frase, ou de deturpação do lugar das palavras na frase, e menos no lirismo imediato e puro, como acontecia em "A Desumanização". 

E qual a importância do mar para ti? Estamos a falar de ilhas, vives perto mar, escreveste versos sobre a praia... 
O mar é sempre a aparência do vazio. Podemos olhar para aquela folha de água, como uma página limpa de um livro que ainda não se escreveu. É só aparentemente destituído de texto ou de discurso. O mar, na verdade, é tudo menos vazio. É um contentor tremendo. É o maior dos contentores. A relação com essa planura, com essa máscara, é muito sugestiva. Essa máscara induz-me medo. Lembro-me de quando fui para ali [Caxinas] morar, com os meus nove anos, desconfiar da quietude da água e de achar que num qualquer dia de Inverno a água seria capaz de galgar. Por que razão é que o mar decide parar na areia? A maior parte das Caxinas estão construídas no antigo areal.  

É uma zona com situações dramáticas... 
Essa realidade, que é a das pessoas do mar, é de tragédia expectável e constante. Claro que isso me marcou muito. Os meus pais tiveram um café, dos meus nove aos dezassete, dezoito anos. Nesse tempo, via clientes, que eram também amigos, a desaparecer. Recebíamos a notícia da morte daqueles jovens. Os pescadores eram inevitavelmente jovens. 

E a relação entre o homem e a montanha? Acontece no Japão, mas também existe na cultura ocidental. Moisés e o Monte Sinai, por exemplo. 
A elevação. O lugar da terra que se aproxima do céu, como indicador de proximidade com Deus, com a divindade.  Há uma coisa interessante no imaginário japonês. A maneira como eles dizem montanha é próxima da maneira como eles dizem selvagem. Isso significa que uma montanha é iminentemente um espaço selvagem.  Se viajarmos no comboio-bala, que vai de Tóquio a Quioto, vemos uma paisagem com muita população, mas as casas estão postas nas planícies. As colinas, por vezes ínfimas, são puramente selvagens. Não há intervenção. Existe esse conceito de que a montanha é selvagem. É sacralizada. 
Eu quase transformo a montanha numa personagem porque tento aludir à dimensão sagrada da montanha.  

Itaro parece renascer quando sai do buraco. Há a elevação divina e há um buraco no chão, um ventre... 
Sim, o ventre do Japão. É como se ele deixasse de se conceber como filho de alguém para se conceber como filho da natureza do Japão. Ele nasce daquilo que o sábio monge chama de ventre puro do Japão. Ele recomeça o seu percurso já não por generosidade dos seus pais, mas porque ele participa no espírito divino, animista, do próprio Japão. O hinduísmo, que é a religião endémica do Japão, é puramente animista. Eles têm um deus para cada coisa, para cada detalhe.
Há um deus para as ervas, um deus para as canas, outro para o bambu, um deus para a água, para o vento, para as laranjas... 
Nós simplificámos e juntámos tudo num deus.
Eles querem dizer que cada coisa é divina. Se arranjares um deus para todas as coisas, tu distingues o deus da coisa, mas se arranjares um deus para as laranjas tu dizes que as laranjas são divinas. Há um deus que só toma conta das laranjas. Ela é a obra fundamental de um determinado deus. Isso explica muito a consciência do japonês. Ele respeita todas as coisas, inclusive todas as coisas feias.  

O bicho dentro do poço escuro, sem ser visto, é mais sugerido do que descrito. Cabe ao leitor projectar o seu inimigo ou medo? 
É sobretudo para que o leitor seja confrontado com a escuridão. O Itaro no poço tem uma experiência de cegueira. Foi interessante descrever as coisas ao leitor, obrigando-o ao mesmo tipo de cegueira.  O que eu gosto desse longo capítulo é exactamente a respiração mais paulatina que nos obriga à aprendizagem de uma outra condição, que é a de cegueira. 

Esta alegoria é o capítulo mais longo do livro.  Pensaste nele ao longo da escrita, ou foi a génese do próprio livro? 
Um dia, numa das versões do livro, estou a contar à minha mãe alguns pormenores e aquilo que eu queria criar na história. Disse-lhe, numa daquelas conversas simples e despreocupadas na hora de almoço, que precisava que o Itaro experimentasse a cegueira sem estar cego. A minha mãe, com toda a naturalidade do mundo, disse-me para o atirar para o fundo de um poço. Eu fiquei pasmado. "Eis a minha mãe no seu melhor", pensei. Fez todo o sentido.  

"É fundamental que prepare a fome. A arte da fome", escreveste neste livro. "Arte" e "Fome" são, para mim, antagónicos. Que arte é esta? 
"A Arte da Fome" esteve quase para ser o título do livro. Não foi porque um amigo islandês me avisou de que Paul Auster tem uma recolha de ensaios sobre Arte com esse título.
A aprendizagem é uma espécie de preparação para a miséria. Tem que ver com o Itaro prevendo que empobrecerá mais ainda. Ele precisa de afeiçoar-se à fome, como se precisasse de fazer uma aprendizagem de uma miséria mais profunda e um despojamento mais profundo para subsistir.  

Itaro tem muito medo do escuro e do bicho. Ele tenta conquistar o inimigo com a bondade. Não será aqui que a ficção se afasta mais da realidade? 
Ele diz sempre que está a conceder a liberdade ao inimigo. Ele considera sempre aquele animal como inimigo e predador.  Com abnegação e bondade, Itaro consegue devolvê-lo à liberdade. O bicho será outra vez o predador em solta, sem a sua natureza ter sido alterada. De alguma forma, Itaro acredita nessa possibilidade de redenção. Sem querer, ele fez o ofício das flores do Saburo. Tentou domesticar a fera selvagem. Tem a ver com as utopias, com o nós acharmos que podemos ultrapassar aquilo que é a natureza.  

Itaro significa primogénito? 
Sim, primeiro filho. 

Continuas à volta do tema da paternidade. 
Até certo ponto está pressuposta a família. Ao chamar primeiro filho ao Itaro, está pressuposto um pai. No livro acaba até por entrar fantasmagoricamente culpando-o de alguma coisa. Ao princípio, Itaro não consegue imediatamente definir o quê. 

Fizeste várias versões do livro. O artesão Itaro "era um deus revoltado com a sua criação." Isto acontece-te, como artesão das palavras? 
Quantas vezes fico frustrado com os textos, com o facto de não conseguir clarificar o que verdadeiramente quero... É como se eu pressentisse o livro, mas não o conseguisse evidenciar e concretizar; ou como se estivesse a escrever nesta sala o que está para lá daquela parede, na outra sala. Sinto o que se passa na outra sala; consigo auscultar os seus movimentos. Através dos sons posso construir imagens, impressões e distâncias. Posso começar a imaginar as cores.  

Nesse exercício acabaste por deixar algumas personagens fora do livro? 
Nesse exercício de abandono das diversas versões caíram personagens.  

Sem revelar muito do livro, pode-se dizer que há uma personagem muito forte que, na verdade, não está. A senhora Fuyu... 
É uma personagem forte que não está. É mais importante do que outras que estão presentes. 

Numa entrevista à Visão [22/01/2010], dizes esperar que os livros sejam um percurso com o qual tu aprendas e te aproximes das pessoas e, de vez em quando, façam justiça a alguém. 
Seis anos mais tarde, pensas que alguma vez foi feita essa justiça? 
 Não sei se hoje chamaria justiça, mas que valeram para alguém, valeram. Reiteradamente recebo mensagens e encontro pessoas que me vêm agradecer a importância que algum livro meu teve na sua vida. Por exemplo, no caso esdrúxulo de "O Filho de Mil Homens", há pessoas que decidiram ter filhos depois de ter lido aquele livro. Inclusive, casais que não queriam ter filhos e estavam prestes a separarem-se, mas que se solucionaram depois da leitura daquele livro.  
Chega ao ponto de chamarem Valter a algumas crianças. 

Sabes o que responder numa situação dessas? 
Não sei. Fico atrapalhado, porque há uma responsabilidade minha que eu não consigo assumir. 

Lembro-me de uma situação no Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco, em que uma rapariga, apesar de estar muito nervosa, conseguiu dizer que tinha ido ali só para agradecer-te pelo teus livros.  Pelas salas sempre cheias por onde passas, essa aproximação foi conseguida. 
Sim, penso que sim. Quem me acompanha e quem presta a mínima atenção à pessoa que eu sou percebeu que não crio uma barreira entre mim e o leitor. Não tenho a convicção de que uma pessoa se deve exceptuar do convívio com os outros. Por isso, ainda que em determinado momento possa querer ficar quieto e só, o normal é estar disponível para encontrar as pessoas.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=848348


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Tempos Difíceis", de Charles Dickens





Não há crise de fé no poder da Literatura que resista a livros como “Tempos Difíceis” (E-Primatur)
Charles Dickens (1812-1870) fortalece a crença de que a Literatura pode salvar o Homem.

Dickens, após ter conquistado o público com "Pickwick Papers", seu primeiro livro, tomou como missão a denúncia da precariedade de algumas classes sociais. O autor nascido em Landport, Reino Unido, partilha com Thomas Carlyle (1795-1881) o humanismo e a desconfiança sobre o poder económico. As ideias de Carlyle são opostas às de Jeremy Bentham (1748-1832), cujos princípios apoiam-se no utilitarismo. 
"Tempos Difíceis", décimo romance de Dickens, opõe estas posições divergentes. O "Benthanism" (ou utilitarismo) enfatiza o conhecimento baseado em factos, marginalizando a emoção, a imaginação e, em consequência, a expressão artística. 

Texto completo em na Sábado online:


http://www.sabado.pt/cultura_gps/livros/detalhe/a_actualidade_e_excelencia_de_itempos_dificeisi.html

"O meu Nome é Lucy Barton", de Elisabeth Strout






A importância de um nome.


Lucy Barton saiu da casa de seus pais e viajou para Nova Iorque. Desde esse dia, nunca mais os viu. Casou e teve duas filhas. Os avós nunca viram as netas.
Um dia, Lucy foi hospitalizada para ser operada ao apêndice. A cirurgia, prevista como simples, complicou-se e obrigou-a a ficar acamada no hospital por vários dias.
Durante esse período recebeu escassas visitas do marido e das filhas. Mas houve uma visita que se prolongou durante cinco dias: a da sua mãe.
Elisabeth Strout, vencedora do Pulitzer com “Olive Kitteridge”, desenvolve em "O meu nome é Lucy Barton" (Alfaguara) a reconciliação de uma personagem com o seu passado.
Durante muitos anos, que abrangeram infância e adolescência, Lucy levou pancada, foi fechada dias inteiros dentro da carrinha do pai, somente com bolachas de água e sal com manteiga de amendoim, passou fome e viveu isolada. Chegou a morar numa garagem e a ir buscar comida ao lixo. O pai, traumatizado pela guerra, passava por incompreensíveis acessos de fúria. Só e desamparada, a menina Barton tinha numa árvore a sua melhor amiga:

"(…) quando vejo outras pessoas andarem com autoconfiança pela rua, como se estivessem completamente livres do terror, percebo que não sei como são os outros".

Lucy é, desde sempre, conquistada por quem empatiza com ela.
O seu primeiro marido fugiu "à carência de uma mãe enviuvada". O segundo marido foi também muito pobre.
Dentro deste contexto, é muito interessante perceber que tanto o pai como os dois maridos são personagens planas. Strout optou por não desenvolvê-las, sem deixar de pejorar bastas vezes por sugestão.
Lucy tem uma irmã e um irmão, com quem tem pouca ligação emocional, e é mãe de duas filhas. Este afastamento à figura masculina é demonstrado nas ligações entre membros da mesma família: Lucy não se dava bem com o pai; a mãe não se dava bem com o primeiro marido; o pai contava traumas de guerra ao filho, mas não o fazia com a filha. São realidades distantes, as do homem e as da mulher, com poucos pontos de intersecção. O contraponto acontece com o médico que a acompanhou no hospital. Ele é a figura masculina que mais apreço suscita na personagem.
Não surpreende que seja uma figura feminina a ter um papel fundamental na catarse da personagem principal: A escritora Sarah Payne.
Lucy Barton ouviu a escritora em alguns seminários e em algumas aulas. Ao longo desse processo, a escrita foi ganhando importância como catarse. A personagem vai sendo confrontada com as próprias idiossincrasias da escritora. Não só pela sua figura, mas também pela motivação que incutiu em Lucy Barton, Sarah Payne torna-se fulcral no romance. Ela é, além disso, a representação da teoria dentro da ficção:
"se houver um ponto fraco na vossa história, enfrentem-no sem medo, aguentem e trabalhem-no, antes que o leitor fique a saber. É aqui que vão buscar a vossa autoridade, disse ela, durante uma daquelas aulas (…)"

A escrita fornece a Lucy Barton as ferramentas necessárias para avaliar a sua infância, a incapacidade da sua mãe dizer que gostava dela, os acessos de fúria do pai, a pobreza, o falhanço do seu primeiro casamento e o próprio “darwinismo social” em que se vê derrotada. Ao fazê-lo, Lucy Barton evita que os filhos herdam os seus traumas.
“O meu nome é Lucy Barton", escrito já com alguma distância temporal e sentimental, é o registo literário desse caminho de reconciliação.
Este romance de Elisabeth Strout é a afirmação de individualidade de Lucy Barton. A autora, como já afirmou em diversas entrevistas, não projecta a sua imagem na personagem... apesar de partilharem algumas características físicas, a mesma profissão e de ser a primeira vez que a autora escreve na primeira pessoa. O caminho é de rememoração, sabendo que a memória falseia o passado.
Através da escrita, Lucy aumenta a capacidade para se afirmar, ao contrário da sua "imagem ideal":

"E, depois, apercebi-me de que, mesmo nos seus livros, ela não estava a dizer exactamente a verdade, mantinha sempre a distância de alguma coisa. Ora, mal conseguia dizer o próprio nome! E senti que também compreendia isso"

Lucy ouviu a mãe lamentar que ela e os irmãos tivessem passado por tanta pobreza. Depois, conseguiu discernir as fraquezas de Sarah Payne. Estes são episódios fulcrais. Daqui resulta a aceitação de tudo o que a forma: o passado e o presente. "O meu nome é Lucy Barton", frase dita pela personagem, representa essa assunção.
Lucy Barton, tal como é demonstrado na belíssima capa de Maria João Lima, é uma mulher que avança, caminha para a frente, enquanto ainda olha para trás.
A gestão do silêncio é fulcral. É aí que reside a mestria da autora.
As críticas nunca são directas. A caracterização acontece por projecção dos defeitos dos outros (principalmente) em Lucy. O posterior silêncio sublinha cada crítica. A verdade está muitas vezes nos pormenores.
 "O meu nome é Lucy Barton" é o oposto de um outro romance, dentro da mesma temática, editado este ano: "Uma rapariga é uma coisa inacabada", de Eimear McBride. Enquanto o livro de McBride é formado por tudo o que a personagem tem a dizer, o livro de Elisabeth Strout deixa para o não-dito muito do seu sentido.
Só uma escritora que não descansa enquanto não encontra a palavra certa pode escrever um livro desta qualidade. Estrutura simples e prosa de grande sensibilidade num excelente livro de Elisabeth Strout.

"Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar





Raduan Nassar, Prémio Camões 2016, é um escritor com poucos livros publicados, muito limitada exposição mediática e escasso interesse em dar entrevistas. E é, no pouco que escreve, extraordinário. "Lavoura Arcaica" e "Um Copo de Cólera", ambos publicados em Portugal pela Companhia das Letras, são sublimes exemplos de literatura.
"Um Copo de Cólera" foi publicado, pela primeira vez, em 1978, oito anos depois de ter sido escrito. "Lavoura Arcaica" saiu em 1975. "Menina a Caminho", colectânea de contos, sairia em 1997 no Brasil.


Em “Um Copo de Cólera”, uma amante jovem, jornalista de profissão, espera pelo personagem principal, homem de meia-idade com alguma riqueza. Depois da espera, o casal tem uma noite de sexo intenso – magistralmente narrado por Nassar - antes de entrar na rotina diária, igual à de tantos casais. No entanto, a rotina não traz estabilidade. Há uma inquietação emergente, lenta, que se irá transformar em violência. As expectativas não cumpridas, tanto do homem como da mulher, revelam uma complexa relação de domínio e, em consequência, da negação do outro como indivíduo. Essa relação ultrapassa o vínculo entre os dois amantes. No máximo da sua agressividade, o personagem diminui o casal que trabalha em sua casa. A dualidade dominador-dominado deixa de se reduzir à questão de género ("tenho colhão, sua pilantra, não reconheço poder algum!") e expande-se para a realidade social e política do país ("ofendido e humilhado, povo é só, e será sempre, a massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar conta de que o povo, em geral, segundo a anuência de quem o domina").
A explosão acontece por algo exterior ao relacionamento entre as personagens. São as ordeiras formigas que fazem com que este homem de meia-idade fique "puto com a sua exemplar eficiência, puto com essa organização de merda que deixava as pragas de lado". É o gatilho de algo que esteve a fermentar durante muito tempo.
Essa violência é, sobretudo, uma catarse. O ciclo narrativo termina com o mesmo título com que começa...mas não da mesma forma.
O primeiro capítulo tem o título de "A Chegada", assim como o sétimo e último capítulo.
 A substancial diferença assenta na voz narrativa. A perspectiva deixa de ser masculina e passa a ser feminina. O fim da catarse é o despojamento da segurança do indivíduo. E aí a mulher assume o papel de mãe e de amante. Será a voz feminina a narrar que o homem "fica deitado de lado, a cabeça quase tocando os joelhos recolhidos, ele dormia (…) " Ela passa a exercer o domínio.

"Um Copo de Cólera" consegue em poucas páginas captar a complexidade de uma relação primária, de domínio, entre macho e fêmea, entre classes altas e classes sem privilégios. O jogo entre a perspectiva e a realidade causa fissuras no comportamento do ser humano. É na frustração que a cólera assenta; na frustração do "eu", mais do que no acto e nas palavras de o "outro".
Raduan Nassar delapida as frases para exponenciar a tensão. "Um Copo de Cólera" é tanto em tão poucas páginas. Notável.





sábado, 22 de outubro de 2016

FOLIO: João Fazenda recebe o Prémio Nacional de Ilustração




João Fazenda recebeu o Prémio Nacional de Ilustração durante o Fólio - Festival Internacional de Óbidos. «Dança» (Pato Lógico), editado em 2015, foi o livro premiado pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).
A Galeria NovaOgiva, onde decorria a "PIM! II Mostra de Ilustração para Imaginar o Mundo", foi o local escolhido para a cerimónia.
Miguel Honrado, Secretário-Geral da Cultura, entregou o prémio de vencedor a João Fazenda, por "Dança" (Pato Lógico), e a "Menção Honrosa" a Yara Kono, pelo livro "Gato Procura-se" (Caminho). Bernardo de Carvalho, distinguido com "Menção Honrosa" por "Verdade?!" (Pato Lógico), não esteve presente na cerimónia.
No discurso de abertura, Humberto da Silva Marques, Presidente da Câmara Municipal de Óbidos, começou por dizer que "a cultura não é apenas uma matéria de contemplação e nostalgia, mas que é verdadeiramente o motor de uma qualquer economia." E defendeu a existência de um evento como o Fólio ao afirmar que "a cultura pode ser um verdadeiro motor de desenvolvimento económico de territórios de baixa densidade, com efeito de contaminação em sectores clássicos como a indústria e a agricultura".
Sendo a segunda vez que o Prémio Nacional de Ilustração é entregue no Fólio, é vontade de Humberto da Silva Marques e de Silvestre Lacerda, Secretário-Geral da DGLAB, que seja o começo de uma nova tradição.
Numa breve declaração, o Secretário-Geral da Cultura afirmou que "o Fólio, apesar da sua pouca idade, já é uma referência em termos nacionais. O Festival de Óbidos tem sido um exemplo bastante importante na valorização do território".
Jutta Bauer, autora convidada a participar no Fólio, esteve presente na cerimónia. A "Nobel" da literatura infantil confessou sentir-se desconfortável perante o olhar do público. Preferia que olhassem para as ilustrações. E eram muitas. A exposição "PIM! II Mostra de Ilustração para Imaginar o Mundo" contou com as colaborações de ilustradores como Ana Biscaia, André Neves, Marta Torrão, Paulo Galindro, Rachel Caiano, Yara Kono, Bernardo Carvalho, João Fazenda e muitos outros.



O ilustrador lisboeta nascido em 1979 soma o Prémio Nacional de Ilustração (20ª edição), no valor de 5.000 euros, a prémios como "Melhor Livro de banda desenhada português - Festival Internacional de BD da Amadora (2000) ", "Awards of Excelence  –  Society of News Design (USA, 2002,2003, 2006 e 2008), e a o "Grande Prémio Stuart de Desenho de Imprensa", para a melhor ilustração da imprensa portuguesa.
João Fazenda terá ainda o apoio de 1500 euros para a participação na "Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha" . O seu trabalho pode ser consultado em www.joaofazenda.com

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=843696

Fólio: O cáustico e hilariante Salman Rushdie





As ruelas de Óbidos estavam mais patrulhadas do que em outros momentos do Fólio- Festival Literário Internacional de Óbidos. Era o dia mais esperado pelo público do evento. Salman Rushdie estava presente para conversar com Clara Ferreira Alves. E, ao contrário de Naipaul, viria a conquistar a plateia.
O sucesso foi maior do que o esperado. A organização teve de mudar o local da entrevista devido à elevada procura de bilhetes. A sala de 250 lugares onde V. S. Naipaul foi entrevistado era pequena. Salman Rushdie tinha mais público do que o Nobel. A solução foi utilizar a sala de concertos, com cerca de 450 lugares sentados… e espaço para um “elefante”.
"Um elefante [no meio da sala] é pequeno em comparação. É um rato comparado com a Religião", disse o escritor nascido em Bombaim.
"A religião é um assunto entediante, mas infelizmente aqui está sentado no meio da sala. É muito difícil se estás a escrever sobre a sala e ignorares o que está sentado bem no meio."
Desde “ Versículos Satânicos” que o autor tem sobre si uma “fatwa”. O assassinato de Salman Rushdie valerá 500 mil euros ao assassino. Desde 1989, ano em que a “fatwa” foi divulgada, o prémio foi aumentado duas vezes.
Muitas obras depois, o escritor ainda é interrogado sobre o livro que provocou a ira de fanáticos religiosos.



“Apesar de ser um episódio que se passou há vinte e oito anos, é algo sobre o qual me perguntam sempre que falo com um jornalista. Não há muitos escritores a quem perguntam sobre o que escreveram há 28 anos. Foi quase há 30 anos. "Versículos Satânicos" foi o quinto livro que publiquei.".
Salman Rushdie não fugiu das perguntas de Clara Ferreira Alves, apesar de confessar o cansaço com o tema religião. Como ser humano e escritor, que tem muito pouco interesse pela religião, sente que tem de ter interesse para saber lidar com o mundo actual. De outra forma, não estaria a olhar para os temas importantes.
O autor recordou as ideias revolucionárias defendidas em Maio de 68. Rushdie tinha cerca de vinte anos. Temas como o feminismo, os direitos civis e a guerra estavam no centro da discussão. A religião como tema estava ausente. Ninguém o discutia. Foi assumido que o tema estava acabado. Era história antiga. Ninguém pensava que voltaria com uma força tão grande.  Os diversos atentados despertaram o ocidente para uma guerra imposta pelo fundamentalismo islâmico. Charlie Hebdo foi um desses momentos de terror. Salman Rushdie viu-se envolvido na polémica sobre a publicação das ilustrações. Segundo o autor...
"É claro que devemos gozar com a religião, pois a religião é absurda. Se não podes gozar com o absurdo, podes gozar com o quê?"
Para sua surpresa, autores como Junot Diaz ou Joyce Carol Oates desaprovaram a publicação dos “cartoons”.
Posteriormente, veríamos que a culpabilização da vítima não funcionava, defendeu Rushdie. Os atentados aconteceram em diversos locais sem ligações religiosas.
"Não respondas à crítica com violência".
Clara Ferreira Alves sublinhou que o escritor não havia propriamente convidado o ayatollah Khomeini para tomar chá e falar sobre o assunto.
"Não me ocorreu. Mas deixa-me sublinhar que um de nós está morto".
"E não és tu", complementou a jornalista.
Não se metam com escritores, disse Rushdie continuando a demonstrar o seu bom humor.
O principal problema para Rushdie, referindo-se ainda a “Versículos Satânicos”, é que os leitores pensam que ele era um autor negro. E aconselhou:
“Penso que todos deviam ler o meu trabalho da frente para trás. Comecem agora e vão para trás. Quando chegarem aos "Versículos Satânicos" já vão ter uma ideia de quem sou."
O realismo mágico é “marca de água” de grande parte da sua obra. A jornalista portuguesa, exemplificando com os fantásticos “jinn”, interrogou o escritor sobre se ele não pensava, por vezes, que o realismo mágico era demasiado louco.
"Não há nada demasiado louco. Há só aquilo que consegues que as pessoas acreditem. Quando se sai do Naturalismo, tu tens que fazer com que o leitor diga "Ok. Eu acredito." E para fazeres isso, tu tens que fazer com que as personagens sejam verosímeis. O lugar onde tudo acontece também tem de parecer real."
Como é que não se morre de frio num tapete que voa nas alturas? Como se mantém equilibrado? Como resolver os problemas de uma personagem que levita alguns centímetros sobre o chão? São perguntas que o autor se propôs a resolver em algumas das suas obras.
“O realismo mágico funciona quando o levas completamente a sério.”
Não há magia na realidade actual. São os tempos mais negros que o autor viveu, conforme afirmou.
Salman Rushdie não se inibiu de tecer comentários pejorativos sobre Donald Trump, Marine Le Pen e, principalmente, Boris Johnson, a quem chamou “uma das piores pessoas do mundo”.
A terminar a conversa, Clara Ferreira Alves perguntou-lhe sobre o Prémio Nobel.
Salman Rushdie fingiu adormecer na cadeira. Tudo terminou com gargalhadas do público.



(fotos da CM Óbidos)

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Fólio: Entrevista com Jón Kalman Stefánsson









Era uma das presenças mais aguardadas no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. Jón Kalman Stefánsson veio do frio e desmontou alguns lugares comuns da crítica literária sobre a sua obra. Durante a sua participação, o autor escandinavo espalhou boa-disposição e compensou a frustrante entrevista dada por V.S. Naipaul, um dos grandes nomes da edição de 2016.

Horas antes do encontro marcado com os seus leitores, o autor de "O Coração do Homem" deu uma entrevista ao Diário Digital, em "The Literary Man- Óbidos Hotel".
"O Coração do Homem" (Cavalo de Ferro), recém-chegado às livrarias, fecha a trilogia proposta pelo autor. "Paraíso e Inferno" e "A Tristeza dos Anjos", obras antecedentes, estabeleceram Stefánsson como um autores escandinavos contemporâneos mais lidos em Portugal.
O seu desconforto com fotos e entrevistas depressa foi substituído pela disponibilidade própria de um bom conversador. Ainda antes das perguntas, Stefánsson falou sobre a sua vida de jornalista. “Foi no século passado”, afirmou. Era o tempo dos gravadores de cassetes. Contou que estava sempre preocupado com o facto de a cassete poder acabar e ele não reparar. Chegou a perder informação. Os gravadores digitais resolveram esse problema. Não tivemos que repetir nenhuma pergunta ou resposta.
Teve a ideia de escrever "Paraíso e Inferno" depois de ouvir um programa de rádio. O que causou tanto impacto? 
Sim, foi num programa de rádio em 1995. Era sobre uma mulher notável do norte da Islândia. No meio do século XIX, a Mulher não tinha quaisquer direitos. Uma mulher não podia ir à igreja sem o consentimento do marido. Era a lei. 
Esta mulher notável tornou-se rica e poderosa. Por causa disso, ela afrontou o poder exercido pelos homens.  Para mim, a história era sobre os direitos das mulheres, mas também sobre a supressão por poderes invisíveis, "sem cara". Eu sabia que tinha de a escrever, mas, naquela altura, eu estava a escrever o meu primeiro romance e tive que pôr esta história de lado. Nunca deixei de pensar que, mais cedo ou mais tarde, tinha de a escrever.
E estava destinada a ser um romance? 
Eu só escrevo romances. Bem, o meu primeiro livro de ficção é considerado por algumas pessoas como um conjunto de narrativas breves. Para mim é um romance.
Pareceu-me existirem muitos confrontos em "Paraíso e Inferno": Vida versus morte,  escuridão versus luz, homem versus natureza.
Eu nunca escrevo a pensar nisso. Não decido o que vou fazer e como o vou fazer. A minha mente não trabalha assim. Quando escrevo tenho, obviamente, uma história na minha cabeça, mas assim que a começo a escrever tudo começa a mudar.
Não segue um plano... 
Não. Tenho alguns apontamentos antes de começar, mas depois de dois ou três dias a escrever deito-os fora. São inúteis. De certa forma é como tocar música. Improviso. Tens um "feeling" de que algo vai acontecer, sem ter, no entanto, uma pista do que vai acontecer.

Aquela "neblina" e o ritmo que existem na narrativa vieram da poesia?
A história em si é importante, mas está longe de ser a única coisa que importa. O estilo é tão ou mais importante do que a história. O estilo é a forma como contas a história. Podes ter a melhor história do mundo, mas está morta se não a contares numa maneira interessante. 
É onde vê a sua voz autoral? 
Sim, exactamente. Quando começo a escrever é esta a pergunta principal: "como é que vou contar?" Obviamente que quero contar histórias, mas quero mais afectar muito o leitor. Não quero somente que leia e goste, mas que o afecte de uma maneira que o faça pensar na vida e na própria existência. Eu ponho pequenas coisas num texto que pretendem afectar o leitor constantemente. Não o faço de forma consciente. Quando escrevo não estou a pensar nisso. É a minha respiração que vai para o texto. Ser poeta explica, de certa forma. Escrever um romance é, em parte, técnica de poesia. A poesia é ilógica. E é a forma como pensamos. Nós quereremos acreditar que pensamos de uma forma lógica, mas é treta. O tempo não é em "linha recta". Não funciona assim. A nossa mente e o nosso sangue estão cheios de passado, de coisas que nos aconteceram e de palavras que alguém nos disse. Todo o tempo nós estamos parte no passado e parte no presente. Nesse sentido, o tempo não existe. O passado e o presente são invenções nossas. 
É a voz de poeta e não a de um jornalista... 
Sim... Quis contar a história dessa maneira para me aproximar da forma como pensamos e vivemos. Se lermos um romance linear, temos algum prazer. Mas eu não queria escrever dessa forma.  A vida não é linear. A vida não é ir numa direcção; é ir sempre em todas as direcções. Eu quero pôr isso nos meus textos.

Os espíritos são um "coro grego"? Pensou nisso quando escreveu? São muito portugueses. Estão-se sempre a queixar... 
[risos] Tem algo a ver com ilhéus. Vocês são quase ilhéus. Pensamos que os outros são melhores do que nós.
Tem a ver com técnica e com o que temos falado: a forma de contar uma história. Eu sabia que ia escrever sobre algo de há um século e não de há uma década. No entanto, eu não queria escrever um romance histórico. Queria também que o leitor sentisse que estava a ler sobre o seu próprio tempo e não só sobre o passado. Eu queria ter uma voz que conhecesse o passado e o nosso tempo.
Uma voz intemporal? 
Sim, sim...pode ser problemático. Essa foi a resposta. Não veio de uma forma lógica, simplesmente veio. Eu estava constantemente a pensar como contaria a história daquela forma. Depois escrevi a primeira frase na primeira pessoa do plural, "Nós...". Perguntei-me sobre quem era este "Nós". Então percebi que era a voz das pessoas que estão presas entre a vida e a morte. Elas têm a esperança de serem libertadas desse limbo e passar para a morte, caso consigam contar a história de tal forma que afecte muito o leitor. 
É muito importante que as palavras afectem os leitores para que estes libertem aquelas vozes.

Acerca do poder das palavras, Barour paga com a sua vida por andar sempre a ler "Paraíso Perdido", de Milton. Esta pergunta parece-me ser muito importante na trilogia: 
Para que serve a literatura? Torna as pessoas melhores? 
Sendo escritor, espero que o meu trabalho tenha algum significado. Se olharmos para a poesia e para ficção, ao longo da história, percebemos que os maiores autores escreveram sobre uma profunda necessidade de mudança, seja na sua própria vida ou mesmo na sociedade. Está sempre na história da Humanidade que a palavra pode afectar. Se olharmos bem para trás, para tempos bem antigos, as pessoas acreditavam que se podia lançar um feitiço com as palavras, caso estas fossem ditas num certo ritmo. Podiam levar as pessoas às lágrimas, matar, ou abrandar o tempo. Harry Potter não foi o primeiro a fazê-lo. 
Na Bíblia, como é que Deus cria o Universo? Com palavras. Se Deus ficasse em silêncio, tudo se manteria na escuridão. 
Tenho esta crença quase ingénua ou desesperada de que a palavra pode afectar as pessoas. Sei que a poesia ou a ficção não afecta as pessoas como afectava antes, mas continua a manter esse poder. E deve tentar exercê-lo. Se o autor desiste da ideia de que a palavra pode mudar o mundo, algum "poder negativo" prevalece. 

Em "A tristeza dos anjos", segundo livro da trilogia, Jens entrega correio, ou seja, ele entrega palavras. Continuamos atrás da salvação pelas palavras.
Era terrível ser carteiro na Islândia. Não se conseguia atravessar montanhas por causa do mau tempo. 
As cartas, nesse tempo, eram tudo. Eram consolação...eram tudo...tudo. Parte da nossa história está nas cartas. Nos arquivos, nós podemos ler cartas do século XVIII. Muitas das cartas contam-nos a história daquela época, sobre as condições de vida e ainda sobre os sentimentos das pessoas. As cartas sempre me fascinaram. O nosso tempo preocupa-me, pois ninguém escreve cartas. Agora só escrevemos “emails”, ou pomos fotos no instagram. Eventualmente as cartas vão desaparecer. Ninguém imprime uma carta, por isso o que se escreve acaba por desaparecer. Penso no que será de nós. Provavelmente nada. Não haverá memória colectiva.
Jens não terá oportunidade para entregar cartas.

As cartas são uma forma de combater a solidão?
Sim, sim... Naquele tempo, não havia praticamente aldeias na Islândia. As pessoas viviam em fazendas isoladas, tal qual eu descrevo nos livros. Não tinham visitas durante semanas ou meses. As cartas eram muito importantes. Receber ou enviar uma carta era espantoso. E não nos esqueçamos: o que fazemos de melhor por nós mesmos, muitas vezes, é escrever. Não é necessário enviar. Esquecemo-nos o quão importante é escrever. Vinte ou trinta anos depois, tens a tua vida escrita e os teus filhos podem lê-la.

Talvez seja melhor não...
Só quando morrermos! Aí já podem. [risos] 
A palavra escrita é extremamente importante.

Em "A Tristeza dos Anjos", Jens diz "Tu estás sozinho, eu estou sozinho, por isso não existe "Nós". É uma voz colectiva que representa os islandeses?
Sim e não. Se olharmos para Clint Eastwood, em alguns dos seus filmes, podemos "ver" o Jens. 
Jens é extremista. É considerado um personagem muito forte. Tal qual os "heróis" nos filmes de Clint Eastwood, Jens não fala muito. É um homem de poucas palavras. Na Islândia isso sempre foi considerado como força de carácter.  Jens é assim. No entanto, se analisarmos bem, também pode ser uma fraqueza. Não falas dos teus sentimentos. Em consequência, não sabes como lidar com eles. Não falas com os outros. Não dás nada. É mau para aqueles que te são próximos.

Podemos ver essa situação em Barour ["Paraíso e Inferno"], não podemos? Ele está sempre a ler e nunca fala. Os companheiros vêem isso como uma fraqueza.
Sim, exactamente. E ler muito não é "cool", na Islândia.

"O Coração do Homem", último livro da trilogia, começa algumas horas depois do fim de "A tristeza dos anjos". O livro começou a ser vendido esta semana. O que nos pode dizer sobre "O Coração do Homem"?
Lembro-me de quando publiquei o meu livro de ficção, em 1996, fazerem-me uma pergunta sobre de que se tratava o livro. Lembro-me de ter ficado bloqueado num silêncio. [risos] Percebi que nunca pensava num livro dessa forma. Primeiro fiquei embaraçado, mas depois percebi que tinha dificuldades em descrever porque não penso no livro assim. O meu trabalho é como uma sinfonia, para mim.
Contar a história não é o mesmo. É como a diferença entre descrever a comida e comê-la. Podes descrever a comida, mas não a saboreias. Contar sobre o que é o livro é deixar de fora quase tudo.
Temos que "comer" o livro. 
Sim, temos que "comer" o livro. Tude reside ou deve residir no estilo e nos detalhes.
Pode ser lido de forma independente dos outros dois? 
Pergunta complicada... O meu editor gostaria que eu dissesse que sim, imediatamente.  Eu sou o autor do livro. Eu não o li, só o escrevi. Perguntar-me como lê-lo... Eu sou a pessoa a quem não deves perguntar como deve ser lido. No entanto, sendo uma trilogia, é sempre melhor ler os três. É possível ler-se "Paraíso e Inferno" ou "A Tristeza dos Anjos", isoladamente, mas penso que se usufrui mais se se ler os três.
É mesmo o fim? 
"This is the end, beautiful friend", como disse Jim Morrison. Tive algumas queixas de leitores que queriam o quarto livro. Esse livro existe na mente dos leitores. 
 
Numa entrevista a "Icelandic Literature Center", afirmou que escrevia para chegar a alguma conclusão, para descobrir quem é, quem somos e o que andamos aqui a fazer. No fim desta trilogia, conseguiu chegar perto de uma resposta? 
Quando comecei a escrever estava convencido de que no fim -até por causa das vozes dos mortos- iria descobrir o que nos acontece depois da morte. Tinha tanta certeza, que chega a ser embaraçante. É ingénuo pensar que se consegue. Eu acreditava nisso.... E ainda acredito que consigo chegar à verdade derradeira, quando começo a escrever.
Não encontro, mas enquanto procuro acho sempre qualquer outra coisa que desconheço. Cito muitas vezes William Faulkner, o grande bebedor de Whisky. Ele disse que no processo de escrita  estava sempre a tentar alcançar o impossível. Ele sabia que não conseguia, mas valia a pena tentar. Eu concordo com ele; nisso e em gostar de whisky.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=844968

O colapso da crítica literária no Fólio Festival Literário Internacional


Pedro Mexia, João Pedro George e Miguel Sanches Neto debateram o estado da crítica literária (e cultural) tanto em Portugal como no Brasil. Foi na 2ª edição do Fólio - Festival Internacional de Óbidos.
A crítica literária está em colapso?
José Mário Silva, jornalista do Expresso, moderou uma conversa bem menos espinhosa, e com participantes bem mais cooperantes, do que a por si mantida com o Nobel V.S. Naipaul.
O tema da mesa organizada no âmbito do Fólio assume especial relevância na literatura. Longe de serem uma Utopia, as mudanças na crítica literária são uma realidade.
Segundo Pedro Mexia, a formulação da mesa era até consensual, pois "o diagnóstico catastrofista é da ordem da evidência". Para o actual consultor cultural do Presidente da República, o colapso da crítica tem boas e más razões.
O "Mandarim cultural" perdeu a sua utilidade, pois não é já um dos poucos com acesso à cultura. A democratização da opinião e do acesso mais imediato à oferta cultural são aspectos positivos, segundo Pedro Mexia. No entanto, nem tudo é bom.
A falta de espaço nos jornais ajuda a que a crítica literária tenha hoje um efeito residual. Só o brilhantismo de um J.L. Borges, como é demonstrado nos prólogos do autor argentino, consegue crítica literária com qualidade em espaço tão curto. Hoje, a crítica nos jornais serve como guia de compras, em que as "estrelas" com que se adjectivam os livros são um sintoma irritante.




"Ao fim de um certo tempo é incoerente. Se nós dermos quatro estrelas a um livro dito menor de Tolstoi e depois dermos cinco estrelas a um livro poemas de um jovem estreante... então o estreante é melhor do que o Tolstoi. Não quer dizer nada. Em última análise, as estrelas são uma distracção".
João Pedro George, a quem já foi atribuído o epíteto de "crítico buldózer", não concorda com a existência de um colapso, mas sim na de uma evidente descentralização.
A ideia de colapso não é factual nem nova. O fim catastrofista é constante no discurso: "o fim da História", " a morte do autor", "a morte do romance".
"O colapso da crítica é uma constante do próprio discurso da crítica. A crítica tem uma tendência permanente para a eutanásia. Este contexto catastrofista tem a ver com uma certa volúpia que as pessoas sentem pelo desastre. Faz-me lembrar o "Crash", do Ballard, em que os indivíduos têm excitação sexual com o desastre de automóvel. E volúpia por quê? Quem anuncia o desastre está, de algum modo, a acariciar o seu próprio ego. É um pretexto para ele próprio fazer um apelo, colocando-se fora do próprio diagnóstico".
Para o antigo colaborador do jornal "O Independente", a crítica está mais viva do que antes. Se se apresenta em colapso nos jornais é porque os jornais estão em colapso. Quanto à menor influência do crítico tradicional, João Pedro George afirmou não saber se é bom ou mau. "A crítica entendida como capacidade de julgar não está em colapso, pelo contrário! Está mais viva do que antes"
"No Brasil é mais apocalíptico ainda", de acordo com Miguel Sanches Neto, poeta e crítico literário brasileiro.
A diminuição dos espaços é comum aos dois países. Até há dez anos, a crítica era uma forma de sobrevivência do escritor. Os críticos tinham a capacidade para fazer ou destruir uma carreira literária. O espaço foi diminuindo; o poder da crítica, também.  Hoje praticamente não existe.
"O grande espaço de sustentação de discussão sobre os livros é o blogue".
A voz cultural foi sucedida pelo murmúrio, segundo Sanches Neto. São muitas pessoas falando ao mesmo tempo. O modelo da crítica está em colapso. No entanto, o grande papel da crítica mantém-se, seja nos jornais ou nos blogues: Apontar caminhos.

Escritaria: Novo livro de Alice Vieira apresentado


A sala principal do Museu Municipal de Penafiel encheu-se de leitores para assistir à apresentação de “Diário de Um Adolescente na Lisboa de 1910” (Texto Editores), o novo livro de Alice Vieira. A obra da escritora foi apresentada na Escritaria, em Penafiel, durante a homenagem que a cidade lhe prestou.
 O livro foi apresentado por Rosário Araújo, editora do grupo Leya, Patrícia Furtado, ilustradora do livro, Sílvia Alves, contadora de histórias e escritora de livros infantis, além da própria autora.
Após a dramatização de “Corre, corre Cabacinha” e declamação de alguns poemas de Alice Vieira, a editora do grupo Leya começou por demonstrar o seu contentamento pela “celebração da vida e obra de Alice Vieira”, em Penafiel.
Segundo Rosário Araújo, este é um livro que irá divertir jovens e adultos, enquanto dá a conhecer a época prévia à implementação da República. Quando recebeu o livro da homenageada da Escritaria, sentiu “amor à primeira vista”.
O personagem é um menino chamado Joaquim José. Tem 14 anos em 1910. O seu pai é republicano, a sua avó é monárquica. O diário vai sendo o registo de todas as confusões provocadas pelo antagonismo na família e pela turbulência da época.




Patrícia Furtado afirmou estar deslumbrada por ter desenhado este menino e as outras personagens para uma obra de Alice Vieira. A leitura deste novo livro remeteu-a para a sua infância, em que se isolava a ler livros. As suas companhias eram, tantas vezes, livros da autora de “Rosa, minha irmã Rosa”. A influência foi tal que Patrícia Furtado quis ser escritora. A menina “antissocial” começou a escrever e a desenhar. E foi pelo desenho que se afirmou na área da literatura.
A emoção é grande, confessou, por ver as suas ilustrações neste livro e nas mãos de tanta gente.
Para Sílvia Alves, as ilustrações sugerem o sabor e os cheiros da época.
Segundo a contadora de histórias, a voz autoral de Alice Vieira está bem presente neste livro. A capacidade de inovar mantém-se. As casas, nos livros de Alice Vieira, nunca estão vazias; existem sempre famílias nessas casas, segundo Sílvia Alves.
É um livro para leitores, “não-leitores” e “pré-leitores”. Pertence aos adultos a responsabilidade de promover o gosto pelas histórias através de leituras conjuntas, em família. Assim se criam hábitos de leitura nos mais jovens.
A apresentação de “Diário de Um Adolescente na Lisboa de 1910” terminou com algumas declarações da autora.



Na génese deste livro estão os folhetins que Alice Vieira foi publicando no Jornal de Noticias, a pedido do editor do jornal. Todos os sábados era publicada meia página com o objectivo de ser lida pelos mais jovens. A recepção foi tão boa que os folhetins passaram a livro.
A Escritaria tem sido para Alice Vieira um “festival de afecto”. A publicação de “Diário de Um Adolescente na Lisboa de 1910” foi programada para coincidir com a Escritaria. E facilmente se percebeu a razão. No fim, formou-se uma longa fila para se conseguir que o livro fosse autografado.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=845612

Escritaria: «Vem aí a Alice»




Este é o ano de Alice Vieira, após Mário Cláudio ter sido homenageado em 2015. A escolha da escritora de livros infanto-juvenis abre novas perspectivas para a Escritaria. É a mais relevante representação da literatura dedicada aos mais novos entre os homenageados até hoje, como foram Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge e Mário Cláudio.
O primeiro dia da Escritaria foi marcado por teatro de rua, abertura da feira do livro e inauguração da exposição sobre a autora. Alice Vieira visitou escolas e foi recebida, já noite, pela Tuna Académica da CESPU.


Foi entre “Entre palavras e sons/lápis, borrachas, canções em dois tons...”, conforme o Hino da Escola Básica e Secundária de Pinheiro, que Alice Vieira começou a visitar outras escolas, neste segundo dia de homenagens.
Os alunos do Agrupamento de Escolas Paço de Sousa, do Agrupamento de Escolas de Pinheiro e do Agrupamento de Escolas Penafiel Sudeste receberam a autora. Quando entrou numa dessas escolas, um dos alunos disse, sem timidez, a uma colega: “Vem aí a Alice, a escritora”
A afectividade e conhecimentos dos alunos demonstraram o sucesso de uma carreira literária a eles dedicada. As salas encheram. As paredes estavam ocupadas por ilustrações baseadas em vários livros trabalhados nas aulas.



A curiosidade pela origem das ideias para escrever surgiu logo nas primeiras perguntas Nada de novo para quem desde muito cedo contacta com alunos de diferentes anos de escolaridade.
Uma outra pergunta comum às três escolas visitadas foi “quando começou a escrever?”
Alice Vieira não se lembra dela própria sem ser a ler e a escrever. “Foi a forma de me defender de uma infância complicada”, afirmou ainda.
O seu primeiro livro foi “Rosa, Irmã Rosa” e foi escrito a pedido dos filhos, que lhe disseram que só escrevia nos jornais histórias para os outros. Alice Vieira, jornalista de profissão, escreveu esse livro para os filhos. Corria o ano de 1979. O livro foi publicado e cedo conquistou os leitores. Foi o princípio dos quase quarenta anos de carreira literária. Mas uma ou outra intervenção fugiu do habitual Um rapaz afirmou gostar de ler os textos escritos para a “Audácia – Revista Missionária para adolescentes”; outro afirmou ter gostado de “vinte cinco a sete vozes”, livro menos mencionado nas escolas visitadas.
Algumas páginas dos muitos livros escritos por Alice Vieira foram lidas nas três escolas. “Rosa, irmã Rosa, “Às dez a porta fecha” ou “Graças e Desgraças da Corte de El-Rei Tadinho - Monarca Iluminado do reino das cem janelas” foram algumas das obras escolhidas.
Muita alegria e algum burburinho para receber Alice Vieira, que confessou escrever para fazer as pessoas um bocadinho mais felizes.
A escritora demonstrou disponibilidade para autografar, responder a todas as perguntas ou estar em todas as fotos solicitadas
Na despedida, Alice Vieira cantarolava “A Fisga”, dos “Rio Grande”,cantada horas antes pela Tuna da Escola Básica e Secundária do Pinheiro.

sábado, 8 de outubro de 2016

Descerramento da silhueta de Alice Vieira, na Escritaria


Escritaria 2016: Homenagem a Alice Vieira.


Escritaria: Fotos de Alice Vieira nas escolas


"Foi entre “Entre palavras e sons/lápis, borrachas, canções em dois tons...”, conforme o Hino da Escola Básica e Secundária de Pinheiro, que Alice Vieira começou a visitar outras escolas, neste segundo dia de homenagens.
Os alunos do Agrupamento de Escolas Paço de Sousa, do Agrupamento de Escolas de Pinheiro e do Agrupamento de Escolas Penafiel Sudeste receberam a autora. Quando entrou numa dessas escolas, um dos alunos disse, sem timidez, a uma colega: “Vem aí a Alice, a escritora”


























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