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Sábado, 18 de Maio de 2013

Terça-feira, 14 de Maio de 2013

"Os demónios de Álvaro Cobra", de Carlos Campaniço (Diário Digital)



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=630895


Carlos Campaniço (n. 1973, Moura) construiu um extraordinário universo literário, onde cintilam personagens memoráveis.
“Os demónios de Álvaro Cobra”, editado pela Teorema, é um livro que merece toda a atenção dos leitores e da crítica literária.
Medinas, a fictícia aldeia alentejana onde habita a família Cobra, só tem uma porta de entrada e outra de saída. Nela se entra pela primeira página do livro, dela se sai pela última página. Não há mapa que a indique.
Dentro dessa aldeia de pagãos, novos cristãos e judeus, o importante peso da igreja católica na moral é inferior à superstição, aos costumes e aos mitos ancestrais. Por lá passam um anarquista que ensina a escrever e a ler, uma prostituta, dona de um bordel, que deseja casar as suas “meninas” com os homens mais ricos, uma cadela que adivinha o tempo, um pássaro que canta, sem nunca errar, em sincronia com a hora exacta e grifos e mais grifos…
Enquanto visita esse maravilhoso ambiente criado por Carlos Campaniço, o leitor  vai conhecendo as estranhas peculiaridades de cada membro da família Cobra, principalmente de Álvaro.
“ (...) aquela era uma família insólita: o marido com suas singularidades inusitadas e suas coleiras de epítetos; a bisavó, quem sabe, a mulher mais velha do mundo; a cunhada, doente com febre toda uma vida; e a sogra com duas mãos desiguais.”

A história de “Os demónios de Álvaro Cobra” é de abnegação, sofrimento, de derrotas e de vitórias. É uma história sobre o peso do destino e a (in) capacidade para o construir.
A pergunta essencial para a compreensão deste romance cedo se impõe:
Até quando aguentará Álvaro Cobra tanta dor?
O leitor tem, nas suas mãos, um romance de personagens. A narração vai apresentando várias peripécias que tanto podem provocar tristeza ou alegria; serem violentas ou ternurentas, fatalistas ou de esperança. O principal objectivo desses acontecimentos é provocar uma atitude, um gesto, uma palavra, que permita ao autor/leitor assistir a determinado comportamento.
Carlos Campaniço não deixa “pontas soltas”. Tudo está lá por alguma razão. Mais cedo ou mais tarde, o leitor entenderá o objectivo de determinado acontecimento.
A realidade imposta pelo visível e tangível é manipulada de forma coerente e credível.
É inevitável a referência ao realismo mágico. Neste aspecto, o autor parece seguir os mesmos caminhos de Garcia Márquez (Medinas em vez de Macondo), Riço Direitinho (características de algumas personagens de “breviário das más inclinações”), ou de alguma literatura nórdica.
O trabalho lexical é muito relevante. Os regionalismos estão presentes em abundância. O próprio autor faz questão de o mencionar.
“ Até cento e oitenta e duas palavras, capturadas ao regionalismo local, que não coabitavam no seu léxico da Língua Portuguesa, eram berberismos e arabismos falados apenas em Medinas. Mencionou como exemplo, abrindo os braços à multidão, o nome da praça onde estavam reunidos.” Pág. 94
“Os demónios de Álvaro Cobra”, obra vencedora do Prémio Literário de Almada 2012, é um livro marcante devido à capacidade do seu autor em criar e descrever, com muito equilíbrio, um ambiente singular onde habitam personagens que provocam empatia e estranheza no leitor.

O leitor não se esquecerá de Álvaro Cobra.

Mário Rufino


Os Demónios de Álvaro CobraOs Demónios de Álvaro Cobra by Carlos Campaniço
My rating: 5 of 5 stars

Garanto-vos: Vocês vão querer ler este livro.
O meu texto sobre "Os demónios de Álvaro Cobra" para o Diário Digital

O mundo mágico de Carlos Campaniço.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...

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Domingo, 5 de Maio de 2013

Sobre o artigo de António Guerreiro, no dia 03/05/2013, para o Ípsilon: "A Cultura do Lazer"



"(...)
A propaganda e as campanhas publicitárias são a alavanca para chegar ao “estado canónico”. A originalidade e o conceito de beleza não são considerados.
A facilitação é uma realidade social, não somente literária. A sobrevivência passa pela venda, a venda passa por ir ao encontro do consumidor e este não quer ser importunado (excepto uma minoria). Criam-se e aplicam-se receitas, vendem-se livros. Se são canónicos ou não, é irrelevante; vendem-se como sabonetes. O consumidor sai limpinho, sem qualquer “nódoa negra”, sem qualquer marca do conflito que o texto, esse que desafia, nos deixa. Não há transformação, não há estranhamento. Há consumo.
O trabalho de percepção artística, que é complexo e difícil, não atrai toda a gente.
A actividade mental da percepção artística é substituída pela passividade do processo de percepção atalhado e reduzido. O receptor rejeita a novidade e quer o reconhecimento de algo em que possa sentir a projecção das suas atitudes e valores.
A cultura de massas, industrial, baseia-se neste princípio de “plug-and-play”. Acontece a tendência para sublinhar os aspectos recreativos da arte transformando-a em objecto com valor elevado de mercado, excluindo toda a espécie de esforço mental.
A educação adaptou-se; se ela visasse o desenvolvimento pessoal tornava-se antagónica a esta cultura comercial."

Mário Rufino







Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

Homer & Langley, de E. L. Doctorow (Diário Digital)



A Maldição de Diógenes.


Homer e Langley, personagens do romance de E. L. Doctorow (n.1931, Bronx), são motivo de interesse desde há décadas devido às peculiaridades das suas existências (e desistências).
O autor norte-americano, vencedor do National Book Award com “World’s Fair”, do PEN/Faulkner prize e do National Book Critics Circle Award com “Billy Bathgate” e “The March”, ficcionou a extraordinária existência dos irmãos Collyer.
A vida de Homer Lusk Collyer (n.1881)  e a de Langley Wakeman Collyer (n.1885), irmãos criados numa família abastada, acompanharam importantes alterações sociais, económicas e políticas nos Estados Unidos da América na passagem do século XIX para o século XX.
As suas vidas viriam a terminar de forma tão bizarra quanto foram vividas.
Tudo leva a crer que Langley, irmão mais novo, desenvolveu a síndrome de Diógenes, que “caracteriza-se por descuido extremo com a higiene pessoal, negligência com o asseio da própria moradia, isolamento social, suspeição e comportamento paranoico, sendo frequente a ocorrência de colecionismo. (Jornal brasileiro de psiquiatria.vol.59 no.2 Rio de Janeiro 2010)
Segundo o “New York Daily News” de 19/10/2012, foram retiradas da mansão 140 toneladas de lixo tão variado como um esqueleto humano, instrumentos musicais (7 pianos, entre outros instrumentos), carrinhos de bebé, pilhas e pilhas de jornais, estátuas, relógios de mármore, chassi de um carro, pistolas...
Debaixo dos escombros, seria encontrado imediatamente o corpo de Langley Collyer, mas o irmão foi dado como desaparecido. Procuraram-no em várias cidades. Três semanas depois descobriram-no a poucos metros de distância de Langley. O lixo impossibilitou as autoridades de descobrir o corpo, mais cedo.
Doctorow apoia-se nestes factos para construir uma ficção com mais bases no psicologismo do que na acção. A narração,  entregue exclusivamente a Homer, compreende o período iniciado na 1ª Guerra Mundial, continua pela Grande Depressão, Lei Seca, Guerra Fria, Guerra da Coreia, Vietname, até ao desaparecimento dos irmãos Collyer, em 1947.
A evolução histórica é parte contextualizante do romance e é sujeita a uma conotativa análise sociológica.
A perspectiva narrativa sofre uma importante mutação ao longo do romance.
Homer, o nosso narrador, principia a contar a história partindo das imagens vistas por si e das recordações inerentes a essas imagens, que correspondem ao período da sua infância em que não estava cego.
Ao cegar, ele começa a contar a partir do seu universo (casa na 5ª Avenida) para o exterior.
Homer não conta o que vê, obviamente. Doctorow transforma uma limitação narrativa numa das características mais bem conseguidas e importantes do romance.
Homer comunica em função do efeito da representação mental dos objectos, das pessoas, das texturas, da temperatura...
“A ideia é eu escrever sobre o que não se pode ver. É difícil” Pág.154
Através do coleccionismo do seu irmão, ele vai sendo actualizado.
A mansão, outrora domicílio da família Collyer, cuja riqueza lhes permitia viver com luxo, vai sofrendo a erosão do tempo. A destruição do seu interior só é menos veloz do que o efeito provocado pela síndrome de que Langley padece.
Um dos aspectos mais interessantes do coleccionismo de Langley é a tentativa de “nivelar” o tempo. A sua quimera consiste em procurar uma estrutura, cujo nome seria “teoria das substituições”, que permita considerar os acontecimentos como repetíveis em qualquer espaço temporal. Tudo o que acontece já aconteceu e irá acontecer. De certa forma, a personagem é uma projecção (literária) do seu autor, quando, sentado defronte da máquina de escrever, tenta captar a essência dos acontecimentos.
Doctorow transporta o leitor para a Nova Iorque daquela época, mas não entra, no campo descritivo, em grandes pormenores. A dinâmica do romance é entregue ao desenvolvimento da relação social e interpessoal dos dois irmãos.
A complexidade relacional entre os dois intriga e perturba o leitor.
Entre a informação factual existem espaços por preencher. É aí que entra a ficção. Durante cerca de 200 páginas o leitor vive com os irmãos Collyer e testemunha os efeitos devastadores da maldição de Diógenes.


Homer & LangleyHomer & Langley by E.L. Doctorow

My rating: 4 of 5 stars


O meu texto sobre "Homer & Langley", de E. L. Doctorow, para o Diário Digital
Listem o livro para a Feira do Livro.
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...



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Terça-feira, 30 de Abril de 2013

"Last man standing"



"Last man standing"

Quando tudo se move, não há nada mais perigoso do que a imobilidade.



Todos os dias saio do metro e corro para o comboio, atravesso o túnel de acesso à estação, valido o bilhete e entro numa carruagem. Conheço algumas pessoas que comigo viajam à mesma hora. Ouço as suas histórias, sei onde trabalham, lembro-me do que dizem, mas só de uma ou duas é que consegui memorizar o nome.
Tenho inveja dos passageiros que adormecem no comboio. Não consigo cair naquela inconsciência. As bocas abertas, a cabeça encostada ao vidro, o livro no colo, aberto, mas inacessível…
Temos de correr atrás do tempo. Não podemos parar. A máxima aplica-se: “Tempo é dinheiro”
Aquele dia não era diferente. A porta do metro abriu, comecei a correr devagar, olhei para o relógio pendurado no tecto, eu estava atrasado, corri mais depressa, ultrapassei algumas pessoas, comecei a transpirar, e, de repente, uma anomalia. As pessoas desviavam-se, cambaleavam, houve uma ou duas que caíram, mas depressa o medo do ridículo as levantou
«Mexe-te idiota!!»
e elas continuaram a correr.
Um homem mantinha-se imóvel, de pé, a observar o fluxo de gente que vinha no seu sentido.
A inacção interrogava a velocidade das pessoas que passavam. Era uma questão mecânica. Aquela peça havia deixado de funcionar como previsto. As pessoas desviaram-se e rejeitaram a anomalia. Não podia ser de outra forma. Tudo nele era falibilidade. E eu, como todos, evitei-o e continuei no meu caminho. A máquina tem de funcionar. As peças que não funcionam como indicado são substituídas por outras.
Os seus dedos roçaram na minha roupa. Tive quase a certeza de que ele esticara o braço, pois tentei passar o mais distante dele.
Voltei para trás, olhei para ele e parei.
Uma rapariga chocou contra mim, interrompendo o seu trajecto predefinido. Surpreendida, olhou para os meus olhos e seguiu a linha que os unia àquele homem. Ele, ela e eu não nos movimentámos mais e, desta forma, contrariámos tudo o que de nós era esperado.
Uma peça avariava outra peça que avariava outra peça…
Os braços puxavam-no para baixo, de mãos abertas. A gravata amarrava-lhe o pescoço e o fato colava-se à pele que transpirava.
Eu não conseguia prever o comportamento, as reacções. Há padrões que são necessários para sabermos o que fazer. Fiquei parado, só isso, e percebi que mais e mais pessoas se juntavam a mim. Os acessos à estação ficaram bloqueados, ninguém passava e cada vez menos pessoas se moviam. O som foi diminuindo e diminuindo até quase desaparecer. O túnel ficou cheio de gente, cheio de silêncio somente rasgado pela chegada e partida do metro. Mas até isso deixou de acontecer. As buzinas dos carros calaram-se, os motores desligaram-se e o trânsito parou. Muitas pessoas ficaram nos passeios e na estrada a olhar umas para as outras. Pararam. Saíram dos cafés e espreitaram pelas janelas para ver. O trânsito foi acumulando e formaram-se enormes caudas metálicas. Os carros ficaram vazios e cada pessoa olhou para a pessoa mais próxima que olhou para outra e para outra até chegar a ele. O som foi caindo devagar até deixar de existir. Vilas e cidades e depois regiões e depois países e continentes suspenderam a acção.
O olhar convergia para aquele homem. Um pequeno perímetro de espaço vazio protegia-o do contacto físico. Somente ele se distinguia na multidão. Então reparei que os seus olhos mexiam-se. O seu olhar observava tudo o que estava à sua frente. Nós éramos observados por aquele indivíduo.
Todos nos olhávamos e sem saber como, a solidão encheu-nos as mãos e o peito. Deixámos de ter pressa e o tempo pareceu ausentar-se. Ficámos sem mais nada para fazer senão pensar… O pensamento libertou-se e começou a criar ligações entre informação e recordações que eu julgava não ter. Havia demasiada luz, queria levar as mãos aos olhos, parar aquela angústia, preencher aquele vazio que se instalou no meu peito. Mas não conseguia. Ouvia a minha respiração, ouvia a respiração da rapariga que estava ao meu lado e reparei na sua agonia, nos olhos cheios de lágrimas e nos lábios comprimidos. Tinha de me mexer. Não aguentava mais aquilo. Tornou-se insuportável, ninguém aguentou.
Um bebé chorou, uma mulher debruçou-se para o corpo do bebé, ouviu-se a voz maternal, outra pessoa olhou, e outra e outra e os corpos começaram a movimentar-se e todos ficaram aliviados quando a mancha humana começou a confluir para a estação. Uma buzina rasgou o ar, o trânsito lento e rezingão desaguou nos diversos destinos e todos voltaram a andar rapidamente. O som de cada voz foi enrolado naquele novelo de sons.
Comecei a correr, também. Fugi daquele espaço, daquele olhar que parecia saber mais de mim do que eu próprio. Não olhei mais para trás. «Se o corpo pára», pensei, «o pensamento emerge».
As autoridades explicaram que tinha sido uma quebra de energia. Algo em rede que tinha afectado todo o mundo. Talvez uma sabotagem que queria parar a movimentação social, os transportes, os serviços…. As imagens foram escassas. Ninguém protestou. Por um instante, cada pessoa viu-se por inteiro e jamais alguém quis falar sobre isso.
Só agora me atrevo a imaginar o que aconteceu.

O homem ficou entregue à sua alienação lúcida.

Mário Rufino