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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado", de Gonçalo M. Tavares





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

‘O Meu Nome Era Eileen’, de Ottessa Moshfegh


‘O meu nome era Eileen’, de Ottessa Moshfegh: um romance intrigante com suspense até ao fim

Nas velhas e sujas ruas de X-Ville (nome fictício), em Nova Inglaterra, Eileen Dunlop transitava ao volante de um velho “Dodge” entre casa, trabalho e as lojas onde comprava bebida.
Recebia 57 dólares por semana a prestar serviços de secretariado num centro particular de correcção de jovens. Depois do trabalho, voltava para a decrépita casa onde vivia mais o seu pai alcoólico. Os serões eram passados numa cama de campanha, situada no sótão, ou na cozinha, onde o pai afastava o frio invernoso com muito “gin”, “whisky” e os bicos do fogão sempre acesos. Aos domingos, passava o seu tempo dentro do “Dodge” estacionado junto à casa de Randy, um colega de trabalho por quem se sentia atraída. A dura realidade era ludibriada com constantes divagações sobre os colegas, especialmente sobre o desejado Randy, e com ideias de homicídio e suicídio. Quando Rebecca começa a trabalhar no centro de correcção, tudo se altera.
Eileen tinha 24 anos e, como a própria conta muitos anos depois, esta é a história do seu desaparecimento.

TEXTO COMPLETO: http://www.comunidadeculturaearte.com/o-meu-nome-era-eileen-de-ottessa-moshfegh-um-romance-intrigante-com-suspense-ate-ao-fim/


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

‘Canção Doce’, de Leila Slimani



‘Canção Doce’, de Leila Slimani: uma história de um infanticídio


Há pior inferno do que o aberto pela primeira frase de “Canção Doce” (Alfaguara)?

Leila Slimani (Rabat; 1981) enfrenta o pior pesadelo de um pai ou de uma mãe: a morte dos filhos.
Depois de narrar as desventuras de Adèle, uma mulher sexualmente compulsiva, em “Dans le Jardin de l’Ogre”,  Leila Slimani- vencedora do Prémio Goncourt com “Canção Doce”- enfrenta os seus próprios medos (a escritora foi mãe recentemente).

O horror na primeira frase apresenta de imediato ao leitor uma contradição entre o título e a história: “O bebé morreu”.

TEXTO COMPLETO: http://www.comunidadeculturaearte.com/cancao-doce-de-leila-slimani-uma-historia-de-um-infanticidio/



"Hoje Estarás Comigo no Paraíso", de Bruno Vieira Amaral



No Jornal da Madeira


segunda-feira, 26 de junho de 2017

"Trás-os-Montes, o Nordeste". Reportagem com J. Rentes de Carvalho





foto de David Rodrigues


José Rentes de Carvalho apresentou «Trás-os-Montes, o Nordeste» (Fundação Francisco Manuel dos Santos), na 30.ª Feira do Livro de Mogadouro. A Biblioteca Municipal Trindade Coelho teve muitos leitores para ouvirem falar de si e da sua terra, no penúltimo dia de Maio.
O dia seguinte foi passado em Estevais, aldeia tão presente na vida e na produção literária do autor.
A Comunidade Cultura e Arte viajou a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ouvir J. Rentes de Carvalho e conhecer a aldeia e a sua gente.

«Red Burros dá-te asas»

texto completo em :http://www.comunidadeculturaearte.com/rentes-de-carvalho-e-o-nordeste-transmontano-miseria-desgraca-e-abandono/

sexta-feira, 16 de junho de 2017

"As Raparigas", de Emma Cline



Charles Manson inscreveu-se na realidade e no imaginário norte-americano com o sangue das suas vítimas. Os assassinatos de Sharon Tate, grávida de oito meses, e seus amigos foram os mais impactantes e brutais. Mas antes outras vítimas foram feitas. Sem facadas nem tiros. A primeira destruição foi a da personalidade das pessoas que o rodeavam. A individualidade de cada um dos elementos foi aniquilada pelo grupo, viciado em drogas, e pelas ideias do líder.
Os principais elementos da “Família Manson” eram Charles “Tex” Waxton, Bobby Beausoleil, Paul Watkins, Clem Grogan, Bruce Davis e as raparigas Susan Atkins, Linda Kasabian, Patricia Krenwinkel, Leslie Van Houten, Ruth Ann Moorehouse, Lynette “Squeaky” Fromme e Mary Brunner.
As características destes membros fundamentaram a criação das personagens de “As Raparigas” (Porto Editora). É um livro de ficção com fortes ligações a um acontecimento hediondo e real. No entanto, Emma Cline (Califórnia, 1989)  não procura ser fidedigna aos factos. As variações introduzidas mostram o objectivo da autora em compreender as fundações de um problema.
A necessidade de pertença expõe o indivíduo à manipulação e subversão pelo poder. Neste caso, pelo carisma dos personagens Russell (baseado em Charles Manson)  e Suzanne (possível projecção de Susan Atkins).
A narradora Evie Boyd, agora adulta, recorda esses acontecimentos devido ao inesperado encontro com Julian, filho de um amigo, e da sua namorada Sasha. A curiosidade de Julian e a identificação com Sasha motivam-na a recordar a convivência com o gangue de Russell.

Entrevista a Rachel Cusk





Rachel Cusk: “Muitas pessoas recusam-se a saber como é construída a ilusão da vida e da felicidade


Com um discurso lento, ponderado, por vezes contraditório, Rachel Cusk (n.1967) demonstrou muita cautela durante a conversa com a Comunidade Cultura e Arte [CCA], em Matosinhos, durante o “LeV- Literatura em Viagem”. O seu instinto de defesa está mais alerta depois de comentários muito agressivos da imprensa inglesa. Os seus dois principais trabalhos — ainda não traduzidos para português — valeram-lhe o epíteto de “The first literary bad mother”. “A Life´s work: On Becoming a Mother” e “Aftermath: On Marriage and Separation” são perturbantes abordagens ao divórcio e à maternidade. A utilização da vida privada como matéria literária é partilhada por autores como Ferrante, St Aubyn e, principalmente, Knausgaard, por quem a autora demonstrou admiração.
Mesmo com críticas mais direccionadas para si, Cusk viu o seu trabalho reconhecido pela crítica literária. A sua voz destacou-se e as nomeações para os prémios literários viriam a acontecer. Os seus livros estiveram na “shortlist” do “Man Booker Prize”, do “Folio Prize”, “Bailey´s Prize” entre outros.
Em Portugal, “Arlington Park” e “A Contraluz” foram traduzidos e publicados.
“A Contraluz” (Quetzal), sobre o qual a autora inglesa falou com a CCA, marca uma mudança de registo. Publicações como “The Guardian”, “The Telegraph” e “The New York Times” louvaram o primeiro livro de uma trilogia que acompanhará a vida de Faye, personagem principal. “Transit”, segundo volume, foi recentemente publicado em Inglaterra.
Faye é, tal qual Rachel Cusk, uma predadora de histórias. Durante a sua viagem para Atenas, sob um calor intenso, a narradora vai ouvindo e escrevendo as histórias contadas por quem com ela conversa.
As diversas vozes vão formando uma narrativa fragmentada sobre o amor, a solidão, a família, a perda. “A Contraluz” diverge de anteriores obras, pois o “eu narrativo” esconde-se no silêncio e pouco se dá a conhecer. Faye, uma escritora que vai dar aulas de escrita criativa na Grécia, está ali para ouvir…
Qual é a sua relação com a ficção? Existe uma linha entre ficção e “não ficção”?
Nos meus trabalhos iniciais, existia uma linha. Agora possivelmente não existe. São formas diferentes, mas com processos semelhantes. Por vezes, escrevia na forma de autobiografia porque estava a falar das minhas experiências. Essa forma ajustava-se ao que estava a escrever. Agora estou muito menos interessada nessa distinção entre formas.

domingo, 21 de maio de 2017

domingo, 7 de maio de 2017

‘Factotum’, de Bukowski






Henry Chinaski é um sacana com lábia. Os admiradores de Bukowski conhecem-no bem. Álcool, sexo, libertinagem e procrastinação são de feitio. A pobreza e a deterioração física são consequências dessa vida desregrada.  Ele é livre como todos gostaríamos de ser. Talvez por isso seja adorado por diferentes gerações de leitores. Só dispensaríamos a parte em que defeca sangue e em que confessa a depressão sempre latente. Não parece ser possível ignorar o magnetismo deste personagem. A personalidade de Henry Chinaski, um escritor à procura de aceitação, é delineada na maior parte dos romances de Bukowski, assim como em alguns poemas e narrativas breves. ”Factotum” (Alfaguara), primeira vez publicado em Portugal, é o segundo romance de Henry Charles Bukowski.

TEXTO COMPLETO EM: http://www.comunidadeculturaearte.com/factotum-de%E2%80%AFbukowski-em-carne-viva/



sábado, 29 de abril de 2017

"Yoro",de Marina Perezagua




Lloro por ella. Assim poderia começar “Yoro” (Elsinore), de Marina Perezagua (n.1978, Sevilha). A fonética do nome desta menina aproxima-se da primeira pessoa do verbo Llorar [Chorar].
O testemunho de H, personagem principal deste livro, é um lamento, um choro, por Yoro.
Em 1945, é lançada a bomba atómica sobre Hiroxima. A bomba que desumanizou tinha um nome carinhoso: “little boy”. H., com treze anos, estava na escola, a dezenas de quilómetros do local onde “Enola Gay”, bombardeiro comandado por William Sterling Parsons, gerou destruição. H. sentiu a violência do impacto principalmente no sexo.

“ (…) embora conservasse as formas em todas as minhas extremidades, havia uma massa disforme e irreconhecível que ia do meu baixo-ventre até às virilhas. O inchaço era tão grande que, apesar de, naquele momento, não poder ter a certeza, tudo parecia indicar que a sanha da bomba havia arremetido principalmente com o meu sexo”
Muitos anos passados, H. conhece Jim, um soldado americano que procura desde a guerra com o Japão uma menina que ele havia adoptado. Essa menina chamava-se Yoro.
Por ordens militares, as crianças adoptadas só poderiam ficar com uma família durante cinco anos. Jim desobedeceu enquanto teve possibilidades. A menina foi-lhe retirada e enviada para uma outra família, em local desconhecido. H. junta-se a Jim nessa procura durante décadas.

“ (…) fui-me apercebendo de que na procura, na apropriação daquela filha, também eu poderia encontrar a filha que não havia podido ter.”

TEXTO COMPLETO:  http://www.comunidadeculturaearte.com/yoro-viver-depois-de-hiroxima/



quarta-feira, 19 de abril de 2017

Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco: " A pós-verdade em tempo de idiotas."


A 5ª edição do Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco promoveu conversas sobre como a ficção e a realidade formam opiniões.  A pós-verdade foi a debate no dia das mentiras 



Há um acordo tácito entre o leitor e os jornais/jornalistas no primeiro dia de Abril: As mentiras são toleráveis. O consumidor de informação olha para a primeira página de um jornal com alegre desconfiança. Ali há uma mentira a querer passar por verdade. É um jogo praticado há vários anos. Por vezes, os mais incautos são levados a acreditar na história contada. No dia seguinte, a verdade é reposta. O incrédulo leitor percebe que caiu na armadilha.
No caminho para a Biblioteca de Castelo Branco, onde iriam ocorrer grande parte das conversas, várias papelarias expunham primeiras páginas. Depois de lidas, ficou a pergunta: Será que Centeno foi mesmo sondado para o lugar de Dijsselbloem? 
Rui Cardoso Martins, em conversa com o jornalista Hélder Gomes, acreditou na informação, num primeiro momento. Depois, percebeu que era dia das mentiras. Durante a conversa, percebeu-se que a dúvida ainda resistia.
O autor de "E se eu gostasse muito de morrer" afirmou que algumas das melhores expressões deste princípio de século foram inventadas por idiotas. Factos alternativos, por exemplo, foi uma frase utilizada pela primeira vez por Kellyanne Conways, Conselheira do Presidente, numa entrevista a "Meet the Press".
Neste dia das mentiras, ou "April Fools Day", Donald Trump foi considerado como o "Rei dos Idiotas", no rescaldo do tradicional desfile em Nova Iorque. Foi eleito de forma unânime.   
Ignorar a sua própria ignorância é um dos seus problemas, afirmou Rui Cardoso Martins. 
No desfile em Nova Iorque, Donald Trump foi representado por um boneco gigante sentado numa sanita com a frase "Make Russia Great Again".
Depois de a uma visita à Rússia, por causa de um romance que estava a escrever, Rui Cardoso Martins passou a compreender as diferenças entre os dois presidentes. Vladimir Putin não exibe a ignorância de Trump. A sua competência linguística é louvada pelos seus compatriotas, assim como a frequente citação de clássicos da literatura russa. 
O escritor pode criar factos alternativos. Essa função não pode ser ocupada pelo jornalista ou, nos casos mencionados, pelos políticos.
A "suspensão da descrença" foi referida por Jaime Rocha, recuperando a expressão  de Samuel Taylor Coleridge, num século em que as expressões não eram “inventadas por idiotas". A ficção pode utilizar essa suspensão no "jogo" com o leitor. Hoje, a informação difundida principalmente através das redes sociais rivalizam com a ficção. A "suspensão da descrença" está a ser aplicada à realidade. No entanto, essa suspensão não faz parte da relação entre jornal/jornalista e leitor. Ao jornalismo cabe informar sobre o que está realmente a acontecer. A ficção põe o leitor a questionar-se. A verdade não é essencial à ficção; só a verosimilhança. No entanto, é um facto que ficção e informação partilham cada vez mais o mesmo espaço. Vejamos um caso que faz agora 40 anos, a propósito do dia das mentiras: 
O jornal The Guardian, a um de Abril de 1977, publicou uma reportagem sobre um país chamado San Seriffe. Essa reportagem de sete páginas apresentava informações minuciosas, como um mapa, o nome do arquipélago e da capital do arquipélago, do governador que, em regime ditatorial, governava o país. As sete páginas tinham ainda artigos sobre a política monetária, as características da economia, o impacto do turismo e ainda comentário político ao regime ditatorial. Havia também publicidade, referente ao arquipélago, e um anúncio de emprego. "The Guardian" recebeu imensas cartas e telefonemas de leitores a interrogarem sobre como poderiam passar lá férias e ainda várias candidaturas a essa vaga em San Seriffe.
Era tudo falso. A credibilidade da reportagem estava na verosimilhança e não na verdade. A ficção tomou conta do espaço dedicado à informação. Foi há quarenta anos. Hoje, a desinformação é mais uma actividade profissional, com “sites” de "fake news", do que uma brincadeira do dia das mentiras. 
Fernando Pinto do Amaral, na conversa mantida com Jaime Rocha e João Céu e Silva (moderador), afirmou que nesta "floresta de enganos" já não há honra e vergonha. Todos estamos, até certo ponto, mal-informados em áreas que não dominamos. A guerra na Síria é um exemplo. A complexidade existente faz com que não compreendamos muito do que acontece. "Já não sei em que acredito. Tenho fome de verdade", afirmou o autor de "Manual de Cardiologia". 
A informação recebida pelo consumidor é vital. O direito à informação é valor essencial em democracia.
No berço da expressão "factos alternativos", a Sociedade Interamericana de Imprensa veio afirmar que "O quarto poder é uma das marcas da democracia norte-americana; uma imprensa livre funciona como controlo sobre o poder governamental. (…) Embora seja comum haver tensões entre a imprensa e a Casa Branca, a retórica da Administração de Trump não tem precedentes e ameaça minar a capacidade dos meios de comunicação" 
A relação da comunicação social com o estado democrático é da mesma ordem de importância dos três poderes fundamentais desse mesmo estado: O poder legislativo, o poder judiciário e o poder  executivo.
A miscigenação entre factualidade e ficção fez com que o ex-Ministro da Justiça Laborinho Lúcio só enveredasse pela escrita de romances após a sua reforma como magistrado. O autor de "O Chamador" preocupou-se com a imagem, pois procurando a verdade e os factos, não queria entregar-se à ficção. Poderia não ser bem-entendido.
Em entrevista com Ana Sousa Dias, Álvaro Laborinho Lúcio conseguiu, magistralmente, fazer a ligação entre a Justiça, um dos pilares da democracia, e a ficção:
"Se nós caminharmos ao longo da história do Direito e da Justiça e ao longo da história do Teatro,  vamos encontrar semelhanças que têm paralelismo quase constante. (…)  Eu próprio no Centro de Estudos Judiciários, trabalhava o efeito de distanciamento de Bertold Brecht e dizia que qualquer juiz tinha de conhecer isso como técnica de julgamento, ou seja a capacidade de se afastar ou recuar perante o que é evidente  para depois questionar o que é evidente e o que não é evidente. Tudo isto está tratado em Bertold Brecht."  
O dia em que se debateu a pós-verdade, em Castelo Branco, viria  a terminar com a entrevista de Hélder Gomes a Lídia Franco e Vítor de Sousa. Os dois actores sublinharam uma ideia que Rui Cardoso Martins havia mencionado na primeira mesa desse mesmo dia: a ideia de que os artistas têm capacidade de pegar nas cordas do tempo e prever o que vai acontecer. Os artistas preparam-nos para o futuro. Foi o que aconteceu com o "Tal Canal", que estava muito à frente do seu tempo. 
O Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco levou à capital de distrito cerca de 20 convidados que, entre os dias 29 de Março e 1 de Abril, visitaram escolas, participaram em mesas de debate e deram “workshops” com o objectivo de analisar conceitos como pós-verdade, possibilidade de expressão, direito de ser informado e liberdade para criar. 




Mário Rufino





quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Nem Todas as Baleias Voam", de Afonso Cruz






Nem Todas as Baleias Voam 
A musicalidade de um universo em expansão.

No decorrer da Guerra Fria, a CIA pensou num plano diferente para seduzir a juventude do leste da Europa. O Programa chamava-se Jazz Embassadors e consistia em concertos nos países do bloco soviético com grandes nomes do jazz. Seria a melhor forma de ganhar a guerra e cativar os inimigos. 
"Nem todas as baleias voam" (Companhia das Letras) tem espionagem, amor, mistério, raptos, blues e jazz. É um livro imediatamente reconhecido como de Afonso Cruz, seja pela "voz autoral", pelo gnosticismo ou pela respectiva qualidade.  

 
Erik Gould, pianista de blues, é um dos músicos que poderá actuar no Leste da Europa. Antes de partir, ele espera ansioso pelo regresso da sua mulher, enquanto Tristan, o filho, procura a mãe nas páginas de um Atlas. Saberá o leitor, mais tarde, que o desaparecimento de Natasha, mãe de Tristan, está ligado ao programa Jazz Embassadors e que o raptor tem também ligações a Dresner, melhor amigo de Gould. 
Afonso Cruz sugere que se observe a realidade como uma conjugação entre o racional e a fantasia. Em suma, é proposto que o leitor acredite que as baleias podem voar, mas que nem todas o fazem (ao contrário do senso comum que, como é óbvio, defende que as baleias não voam). É uma ideia estrutural nas obras  do autor nascido na Figueira da Foz, ou seja: vejam o que vos rodeia por um outro prisma. Gould e Tristan, que sofrem de sinestesia, são a metonímia desta proposta. 
Veja-se o caso de Gould. Ele vê sons. Num dos "Relatório Gould" é dito que o tangível pode ser descrito musicalmente: 
"- Uma pedra tem uma melodia. Podemos descrever uma pedra através da sua composição daquilo que vemos ao observá-la, mas podemos também, segundo Gould, descrevê-la musicalmente. 
- Uma pedra pode ser uma sonata? 
-Sim, ou bebop. Uma parede terá sua melodia, uma janela terá outra, imagino que consoante a paisagem do outro lado. Um pé cantará uma canção, uma flor exalará a sua própria melodia". 
O mundo de Gould é formado por acordes, desde o material ao imaterial. 
Tristan sofre de um outro tipo de sinestesia. Ele vê sentimentos. É desta forma que descodifica o mundo. Segundo Tristan, ver sentimentos é como ver pessoas ou coisas que saem da cabeça de outras pessoas.
O autor de "Para Onde Vão os Guarda-chuvas" consegue a simbiose entre ficção e realidade. Através do conjunto da sua obra, Afonso Cruz aumenta a capacidade de o leitor observar, liberta-o da ditadura do visível, faz com que utilize vários sentidos para apreender o real e o irreal. O polivalente autor dota o leitor de um mecanismo pluridimensional. "A realidade é uma invenção", assim escreveu em "Mil Anos de Esquecimento" (Alfaguara), o mais recente volume da "Enciclopédia da Estória Universal".
Essa dimensão poliédrica é transposta para a estrutura do romance. São "mosaicos" ou mesmo espelhos que vão reflectindo as personagens e ligando os acontecimentos nos diferentes capítulos.
Existem delirantes episódios como o das prostitutas transformadas em “apóstolas”. Elas são as autoras do "Evangelho das Putas Gnósticas" e últimas leitoras do evangelho gnóstico escrito nas paredes da "Pensão Tertuliano". A transmissão oral dessas histórias é fundamental, recordando assim que o ser humano é, como o autor escreveu em livro anterior, composto por histórias.
O leitor não consegue aprofundar o conhecimento das principais personagens com base num só livro. É a obra completa que permite ligar os pontos uns aos outros de forma a delinear as características físicas e psicológicas dessas personagens. São as histórias e os contextos diferentes que vão revelando o plano de Afonso Cruz.  Tal como a vida se nos vai revelando. O Ser Humano não é definível num só episódio, mas antes no confronto entre idades e situações que, tantas vezes, nos mostram como falíveis e incoerentes.  
GouldDresner, Vogel, Natasha são criações já anunciadas em livros anteriores. 
Podemos conhecer melhor Dresner em "Mil Anos de Esquecimento". No mais recente volume da Enciclopédia, sabemos que Dresner é neto de Dovev Rosenkrantz, figura importante de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças". Sabemos também que tem a mania de criar museus e que anda sempre à procura de novas formas de ficção. O seu papel é essencial em "A Boneca de Kokoschka", livro em que Vogel visita a livraria "Humilhados & Ofendidos". É neste livro que nos é contado o acontecimento que faz Dresner coxear. Em "Nem Todas as Baleias Voam", Afonso Cruz remete para "A Boneca de Kokoshka" ao afirmar que Vogel era um homem com reticências cranianas (expressão já usada no livro vencedor do Prémio União Europeia para a Literatura).
Gould, cuja importância é maior em  "Nem Todas as Baleias Voam", já é mencionado em " Mil Anos de Esquecimento" e num volume mais antigo das enciclopédias intitulado "As reencarnações de Pitágoras."
São exemplos da presença de alguns personagens em diferentes obras. Mais cedo ou mais tarde, será necessário um “Dicionário de Personagens" para conhecermos muito melhor 
BadiniFazal ElahiMalgorzata Zajac, Morel entre muitos outros nestas combinações intratextual.  O “problema” deste hipotético dicionário é que rapidamente ficará desactualizado, pois estamos perante um universo ainda em expansão.
O conhecimento de vários modos de expressão artística é aproveitado neste romance. "Nem Todas as Baleias Voam" não tem as ilustrações de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças" ou de "A Boneca de Kokoschka", mas a música, uma outra vertente artística do autor, tem um papel essencial. Afonso Cruz, músico na banda "The Soaked Lamb", utiliza o seu conhecimento sobre estilos musicais e respectivos intérpretes na construção de "Nem todas as Baleias Voam". E a paixão pela música é essencial para a compreensão da sua prosa.  

Poucos escritores conseguem criar personagens, ambientes e histórias como Afonso Cruz. “Nem Todas as Baleias Voam” é mais um exemplo dessa capacidade. 
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