Latest News

Livros (total em labels ou índice): A-F

G-N

O-Z

Vídeos

Recent Posts

sexta-feira, 16 de junho de 2017

"As Raparigas", de Emma Cline



Charles Manson inscreveu-se na realidade e no imaginário norte-americano com o sangue das suas vítimas. Os assassinatos de Sharon Tate, grávida de oito meses, e seus amigos foram os mais impactantes e brutais. Mas antes outras vítimas foram feitas. Sem facadas nem tiros. A primeira destruição foi a da personalidade das pessoas que o rodeavam. A individualidade de cada um dos elementos foi aniquilada pelo grupo, viciado em drogas, e pelas ideias do líder.
Os principais elementos da “Família Manson” eram Charles “Tex” Waxton, Bobby Beausoleil, Paul Watkins, Clem Grogan, Bruce Davis e as raparigas Susan Atkins, Linda Kasabian, Patricia Krenwinkel, Leslie Van Houten, Ruth Ann Moorehouse, Lynette “Squeaky” Fromme e Mary Brunner.
As características destes membros fundamentaram a criação das personagens de “As Raparigas” (Porto Editora). É um livro de ficção com fortes ligações a um acontecimento hediondo e real. No entanto, Emma Cline (Califórnia, 1989)  não procura ser fidedigna aos factos. As variações introduzidas mostram o objectivo da autora em compreender as fundações de um problema.
A necessidade de pertença expõe o indivíduo à manipulação e subversão pelo poder. Neste caso, pelo carisma dos personagens Russell (baseado em Charles Manson)  e Suzanne (possível projecção de Susan Atkins).
A narradora Evie Boyd, agora adulta, recorda esses acontecimentos devido ao inesperado encontro com Julian, filho de um amigo, e da sua namorada Sasha. A curiosidade de Julian e a identificação com Sasha motivam-na a recordar a convivência com o gangue de Russell.

Entrevista a Rachel Cusk





Rachel Cusk: “Muitas pessoas recusam-se a saber como é construída a ilusão da vida e da felicidade


Com um discurso lento, ponderado, por vezes contraditório, Rachel Cusk (n.1967) demonstrou muita cautela durante a conversa com a Comunidade Cultura e Arte [CCA], em Matosinhos, durante o “LeV- Literatura em Viagem”. O seu instinto de defesa está mais alerta depois de comentários muito agressivos da imprensa inglesa. Os seus dois principais trabalhos — ainda não traduzidos para português — valeram-lhe o epíteto de “The first literary bad mother”. “A Life´s work: On Becoming a Mother” e “Aftermath: On Marriage and Separation” são perturbantes abordagens ao divórcio e à maternidade. A utilização da vida privada como matéria literária é partilhada por autores como Ferrante, St Aubyn e, principalmente, Knausgaard, por quem a autora demonstrou admiração.
Mesmo com críticas mais direccionadas para si, Cusk viu o seu trabalho reconhecido pela crítica literária. A sua voz destacou-se e as nomeações para os prémios literários viriam a acontecer. Os seus livros estiveram na “shortlist” do “Man Booker Prize”, do “Folio Prize”, “Bailey´s Prize” entre outros.
Em Portugal, “Arlington Park” e “A Contraluz” foram traduzidos e publicados.
“A Contraluz” (Quetzal), sobre o qual a autora inglesa falou com a CCA, marca uma mudança de registo. Publicações como “The Guardian”, “The Telegraph” e “The New York Times” louvaram o primeiro livro de uma trilogia que acompanhará a vida de Faye, personagem principal. “Transit”, segundo volume, foi recentemente publicado em Inglaterra.
Faye é, tal qual Rachel Cusk, uma predadora de histórias. Durante a sua viagem para Atenas, sob um calor intenso, a narradora vai ouvindo e escrevendo as histórias contadas por quem com ela conversa.
As diversas vozes vão formando uma narrativa fragmentada sobre o amor, a solidão, a família, a perda. “A Contraluz” diverge de anteriores obras, pois o “eu narrativo” esconde-se no silêncio e pouco se dá a conhecer. Faye, uma escritora que vai dar aulas de escrita criativa na Grécia, está ali para ouvir…
Qual é a sua relação com a ficção? Existe uma linha entre ficção e “não ficção”?
Nos meus trabalhos iniciais, existia uma linha. Agora possivelmente não existe. São formas diferentes, mas com processos semelhantes. Por vezes, escrevia na forma de autobiografia porque estava a falar das minhas experiências. Essa forma ajustava-se ao que estava a escrever. Agora estou muito menos interessada nessa distinção entre formas.

domingo, 21 de maio de 2017

domingo, 7 de maio de 2017

‘Factotum’, de Bukowski






Henry Chinaski é um sacana com lábia. Os admiradores de Bukowski conhecem-no bem. Álcool, sexo, libertinagem e procrastinação são de feitio. A pobreza e a deterioração física são consequências dessa vida desregrada.  Ele é livre como todos gostaríamos de ser. Talvez por isso seja adorado por diferentes gerações de leitores. Só dispensaríamos a parte em que defeca sangue e em que confessa a depressão sempre latente. Não parece ser possível ignorar o magnetismo deste personagem. A personalidade de Henry Chinaski, um escritor à procura de aceitação, é delineada na maior parte dos romances de Bukowski, assim como em alguns poemas e narrativas breves. ”Factotum” (Alfaguara), primeira vez publicado em Portugal, é o segundo romance de Henry Charles Bukowski.

TEXTO COMPLETO EM: http://www.comunidadeculturaearte.com/factotum-de%E2%80%AFbukowski-em-carne-viva/



sábado, 29 de abril de 2017

"Yoro",de Marina Perezagua




Lloro por ella. Assim poderia começar “Yoro” (Elsinore), de Marina Perezagua (n.1978, Sevilha). A fonética do nome desta menina aproxima-se da primeira pessoa do verbo Llorar [Chorar].
O testemunho de H, personagem principal deste livro, é um lamento, um choro, por Yoro.
Em 1945, é lançada a bomba atómica sobre Hiroxima. A bomba que desumanizou tinha um nome carinhoso: “little boy”. H., com treze anos, estava na escola, a dezenas de quilómetros do local onde “Enola Gay”, bombardeiro comandado por William Sterling Parsons, gerou destruição. H. sentiu a violência do impacto principalmente no sexo.

“ (…) embora conservasse as formas em todas as minhas extremidades, havia uma massa disforme e irreconhecível que ia do meu baixo-ventre até às virilhas. O inchaço era tão grande que, apesar de, naquele momento, não poder ter a certeza, tudo parecia indicar que a sanha da bomba havia arremetido principalmente com o meu sexo”
Muitos anos passados, H. conhece Jim, um soldado americano que procura desde a guerra com o Japão uma menina que ele havia adoptado. Essa menina chamava-se Yoro.
Por ordens militares, as crianças adoptadas só poderiam ficar com uma família durante cinco anos. Jim desobedeceu enquanto teve possibilidades. A menina foi-lhe retirada e enviada para uma outra família, em local desconhecido. H. junta-se a Jim nessa procura durante décadas.

“ (…) fui-me apercebendo de que na procura, na apropriação daquela filha, também eu poderia encontrar a filha que não havia podido ter.”

TEXTO COMPLETO:  http://www.comunidadeculturaearte.com/yoro-viver-depois-de-hiroxima/



quarta-feira, 19 de abril de 2017

Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco: " A pós-verdade em tempo de idiotas."


A 5ª edição do Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco promoveu conversas sobre como a ficção e a realidade formam opiniões.  A pós-verdade foi a debate no dia das mentiras 



Há um acordo tácito entre o leitor e os jornais/jornalistas no primeiro dia de Abril: As mentiras são toleráveis. O consumidor de informação olha para a primeira página de um jornal com alegre desconfiança. Ali há uma mentira a querer passar por verdade. É um jogo praticado há vários anos. Por vezes, os mais incautos são levados a acreditar na história contada. No dia seguinte, a verdade é reposta. O incrédulo leitor percebe que caiu na armadilha.
No caminho para a Biblioteca de Castelo Branco, onde iriam ocorrer grande parte das conversas, várias papelarias expunham primeiras páginas. Depois de lidas, ficou a pergunta: Será que Centeno foi mesmo sondado para o lugar de Dijsselbloem? 
Rui Cardoso Martins, em conversa com o jornalista Hélder Gomes, acreditou na informação, num primeiro momento. Depois, percebeu que era dia das mentiras. Durante a conversa, percebeu-se que a dúvida ainda resistia.
O autor de "E se eu gostasse muito de morrer" afirmou que algumas das melhores expressões deste princípio de século foram inventadas por idiotas. Factos alternativos, por exemplo, foi uma frase utilizada pela primeira vez por Kellyanne Conways, Conselheira do Presidente, numa entrevista a "Meet the Press".
Neste dia das mentiras, ou "April Fools Day", Donald Trump foi considerado como o "Rei dos Idiotas", no rescaldo do tradicional desfile em Nova Iorque. Foi eleito de forma unânime.   
Ignorar a sua própria ignorância é um dos seus problemas, afirmou Rui Cardoso Martins. 
No desfile em Nova Iorque, Donald Trump foi representado por um boneco gigante sentado numa sanita com a frase "Make Russia Great Again".
Depois de a uma visita à Rússia, por causa de um romance que estava a escrever, Rui Cardoso Martins passou a compreender as diferenças entre os dois presidentes. Vladimir Putin não exibe a ignorância de Trump. A sua competência linguística é louvada pelos seus compatriotas, assim como a frequente citação de clássicos da literatura russa. 
O escritor pode criar factos alternativos. Essa função não pode ser ocupada pelo jornalista ou, nos casos mencionados, pelos políticos.
A "suspensão da descrença" foi referida por Jaime Rocha, recuperando a expressão  de Samuel Taylor Coleridge, num século em que as expressões não eram “inventadas por idiotas". A ficção pode utilizar essa suspensão no "jogo" com o leitor. Hoje, a informação difundida principalmente através das redes sociais rivalizam com a ficção. A "suspensão da descrença" está a ser aplicada à realidade. No entanto, essa suspensão não faz parte da relação entre jornal/jornalista e leitor. Ao jornalismo cabe informar sobre o que está realmente a acontecer. A ficção põe o leitor a questionar-se. A verdade não é essencial à ficção; só a verosimilhança. No entanto, é um facto que ficção e informação partilham cada vez mais o mesmo espaço. Vejamos um caso que faz agora 40 anos, a propósito do dia das mentiras: 
O jornal The Guardian, a um de Abril de 1977, publicou uma reportagem sobre um país chamado San Seriffe. Essa reportagem de sete páginas apresentava informações minuciosas, como um mapa, o nome do arquipélago e da capital do arquipélago, do governador que, em regime ditatorial, governava o país. As sete páginas tinham ainda artigos sobre a política monetária, as características da economia, o impacto do turismo e ainda comentário político ao regime ditatorial. Havia também publicidade, referente ao arquipélago, e um anúncio de emprego. "The Guardian" recebeu imensas cartas e telefonemas de leitores a interrogarem sobre como poderiam passar lá férias e ainda várias candidaturas a essa vaga em San Seriffe.
Era tudo falso. A credibilidade da reportagem estava na verosimilhança e não na verdade. A ficção tomou conta do espaço dedicado à informação. Foi há quarenta anos. Hoje, a desinformação é mais uma actividade profissional, com “sites” de "fake news", do que uma brincadeira do dia das mentiras. 
Fernando Pinto do Amaral, na conversa mantida com Jaime Rocha e João Céu e Silva (moderador), afirmou que nesta "floresta de enganos" já não há honra e vergonha. Todos estamos, até certo ponto, mal-informados em áreas que não dominamos. A guerra na Síria é um exemplo. A complexidade existente faz com que não compreendamos muito do que acontece. "Já não sei em que acredito. Tenho fome de verdade", afirmou o autor de "Manual de Cardiologia". 
A informação recebida pelo consumidor é vital. O direito à informação é valor essencial em democracia.
No berço da expressão "factos alternativos", a Sociedade Interamericana de Imprensa veio afirmar que "O quarto poder é uma das marcas da democracia norte-americana; uma imprensa livre funciona como controlo sobre o poder governamental. (…) Embora seja comum haver tensões entre a imprensa e a Casa Branca, a retórica da Administração de Trump não tem precedentes e ameaça minar a capacidade dos meios de comunicação" 
A relação da comunicação social com o estado democrático é da mesma ordem de importância dos três poderes fundamentais desse mesmo estado: O poder legislativo, o poder judiciário e o poder  executivo.
A miscigenação entre factualidade e ficção fez com que o ex-Ministro da Justiça Laborinho Lúcio só enveredasse pela escrita de romances após a sua reforma como magistrado. O autor de "O Chamador" preocupou-se com a imagem, pois procurando a verdade e os factos, não queria entregar-se à ficção. Poderia não ser bem-entendido.
Em entrevista com Ana Sousa Dias, Álvaro Laborinho Lúcio conseguiu, magistralmente, fazer a ligação entre a Justiça, um dos pilares da democracia, e a ficção:
"Se nós caminharmos ao longo da história do Direito e da Justiça e ao longo da história do Teatro,  vamos encontrar semelhanças que têm paralelismo quase constante. (…)  Eu próprio no Centro de Estudos Judiciários, trabalhava o efeito de distanciamento de Bertold Brecht e dizia que qualquer juiz tinha de conhecer isso como técnica de julgamento, ou seja a capacidade de se afastar ou recuar perante o que é evidente  para depois questionar o que é evidente e o que não é evidente. Tudo isto está tratado em Bertold Brecht."  
O dia em que se debateu a pós-verdade, em Castelo Branco, viria  a terminar com a entrevista de Hélder Gomes a Lídia Franco e Vítor de Sousa. Os dois actores sublinharam uma ideia que Rui Cardoso Martins havia mencionado na primeira mesa desse mesmo dia: a ideia de que os artistas têm capacidade de pegar nas cordas do tempo e prever o que vai acontecer. Os artistas preparam-nos para o futuro. Foi o que aconteceu com o "Tal Canal", que estava muito à frente do seu tempo. 
O Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco levou à capital de distrito cerca de 20 convidados que, entre os dias 29 de Março e 1 de Abril, visitaram escolas, participaram em mesas de debate e deram “workshops” com o objectivo de analisar conceitos como pós-verdade, possibilidade de expressão, direito de ser informado e liberdade para criar. 




Mário Rufino





quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Nem Todas as Baleias Voam", de Afonso Cruz






Nem Todas as Baleias Voam 
A musicalidade de um universo em expansão.

No decorrer da Guerra Fria, a CIA pensou num plano diferente para seduzir a juventude do leste da Europa. O Programa chamava-se Jazz Embassadors e consistia em concertos nos países do bloco soviético com grandes nomes do jazz. Seria a melhor forma de ganhar a guerra e cativar os inimigos. 
"Nem todas as baleias voam" (Companhia das Letras) tem espionagem, amor, mistério, raptos, blues e jazz. É um livro imediatamente reconhecido como de Afonso Cruz, seja pela "voz autoral", pelo gnosticismo ou pela respectiva qualidade.  

 
Erik Gould, pianista de blues, é um dos músicos que poderá actuar no Leste da Europa. Antes de partir, ele espera ansioso pelo regresso da sua mulher, enquanto Tristan, o filho, procura a mãe nas páginas de um Atlas. Saberá o leitor, mais tarde, que o desaparecimento de Natasha, mãe de Tristan, está ligado ao programa Jazz Embassadors e que o raptor tem também ligações a Dresner, melhor amigo de Gould. 
Afonso Cruz sugere que se observe a realidade como uma conjugação entre o racional e a fantasia. Em suma, é proposto que o leitor acredite que as baleias podem voar, mas que nem todas o fazem (ao contrário do senso comum que, como é óbvio, defende que as baleias não voam). É uma ideia estrutural nas obras  do autor nascido na Figueira da Foz, ou seja: vejam o que vos rodeia por um outro prisma. Gould e Tristan, que sofrem de sinestesia, são a metonímia desta proposta. 
Veja-se o caso de Gould. Ele vê sons. Num dos "Relatório Gould" é dito que o tangível pode ser descrito musicalmente: 
"- Uma pedra tem uma melodia. Podemos descrever uma pedra através da sua composição daquilo que vemos ao observá-la, mas podemos também, segundo Gould, descrevê-la musicalmente. 
- Uma pedra pode ser uma sonata? 
-Sim, ou bebop. Uma parede terá sua melodia, uma janela terá outra, imagino que consoante a paisagem do outro lado. Um pé cantará uma canção, uma flor exalará a sua própria melodia". 
O mundo de Gould é formado por acordes, desde o material ao imaterial. 
Tristan sofre de um outro tipo de sinestesia. Ele vê sentimentos. É desta forma que descodifica o mundo. Segundo Tristan, ver sentimentos é como ver pessoas ou coisas que saem da cabeça de outras pessoas.
O autor de "Para Onde Vão os Guarda-chuvas" consegue a simbiose entre ficção e realidade. Através do conjunto da sua obra, Afonso Cruz aumenta a capacidade de o leitor observar, liberta-o da ditadura do visível, faz com que utilize vários sentidos para apreender o real e o irreal. O polivalente autor dota o leitor de um mecanismo pluridimensional. "A realidade é uma invenção", assim escreveu em "Mil Anos de Esquecimento" (Alfaguara), o mais recente volume da "Enciclopédia da Estória Universal".
Essa dimensão poliédrica é transposta para a estrutura do romance. São "mosaicos" ou mesmo espelhos que vão reflectindo as personagens e ligando os acontecimentos nos diferentes capítulos.
Existem delirantes episódios como o das prostitutas transformadas em “apóstolas”. Elas são as autoras do "Evangelho das Putas Gnósticas" e últimas leitoras do evangelho gnóstico escrito nas paredes da "Pensão Tertuliano". A transmissão oral dessas histórias é fundamental, recordando assim que o ser humano é, como o autor escreveu em livro anterior, composto por histórias.
O leitor não consegue aprofundar o conhecimento das principais personagens com base num só livro. É a obra completa que permite ligar os pontos uns aos outros de forma a delinear as características físicas e psicológicas dessas personagens. São as histórias e os contextos diferentes que vão revelando o plano de Afonso Cruz.  Tal como a vida se nos vai revelando. O Ser Humano não é definível num só episódio, mas antes no confronto entre idades e situações que, tantas vezes, nos mostram como falíveis e incoerentes.  
GouldDresner, Vogel, Natasha são criações já anunciadas em livros anteriores. 
Podemos conhecer melhor Dresner em "Mil Anos de Esquecimento". No mais recente volume da Enciclopédia, sabemos que Dresner é neto de Dovev Rosenkrantz, figura importante de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças". Sabemos também que tem a mania de criar museus e que anda sempre à procura de novas formas de ficção. O seu papel é essencial em "A Boneca de Kokoschka", livro em que Vogel visita a livraria "Humilhados & Ofendidos". É neste livro que nos é contado o acontecimento que faz Dresner coxear. Em "Nem Todas as Baleias Voam", Afonso Cruz remete para "A Boneca de Kokoshka" ao afirmar que Vogel era um homem com reticências cranianas (expressão já usada no livro vencedor do Prémio União Europeia para a Literatura).
Gould, cuja importância é maior em  "Nem Todas as Baleias Voam", já é mencionado em " Mil Anos de Esquecimento" e num volume mais antigo das enciclopédias intitulado "As reencarnações de Pitágoras."
São exemplos da presença de alguns personagens em diferentes obras. Mais cedo ou mais tarde, será necessário um “Dicionário de Personagens" para conhecermos muito melhor 
BadiniFazal ElahiMalgorzata Zajac, Morel entre muitos outros nestas combinações intratextual.  O “problema” deste hipotético dicionário é que rapidamente ficará desactualizado, pois estamos perante um universo ainda em expansão.
O conhecimento de vários modos de expressão artística é aproveitado neste romance. "Nem Todas as Baleias Voam" não tem as ilustrações de "O Pintor Debaixo do Lava-Loiças" ou de "A Boneca de Kokoschka", mas a música, uma outra vertente artística do autor, tem um papel essencial. Afonso Cruz, músico na banda "The Soaked Lamb", utiliza o seu conhecimento sobre estilos musicais e respectivos intérpretes na construção de "Nem todas as Baleias Voam". E a paixão pela música é essencial para a compreensão da sua prosa.  

Poucos escritores conseguem criar personagens, ambientes e histórias como Afonso Cruz. “Nem Todas as Baleias Voam” é mais um exemplo dessa capacidade. 
. 
 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

"Zero K", de Don DeLillo







O grau zero da existência

Existe um laboratório algures na antiga União Soviética em que as pessoas escolhem ser mantidas em criogenia. Chama-se "Convergência".
Ross, o ideólogo da "Convergência", convida o seu filho Jeffrey Lockhart a visitar as instalações. Será Jeffrey a narrar as características das instalações e a realidade das pessoas que esperam pela interrupção voluntária das suas vidas. O objectivo dos hóspedes é vencer a doença, a mortalidade. Perante o avassalador desenvolvimento da tecnologia, Jeffrey resiste. A manutenção de um smartphone obsoleto é um sintoma de renitência perante tal fulgor tecnológico.
Don DeLillo, um dos mais importantes escritores norte-americanos da actualidade, subordina a história às ideias que quer desenvolver. "Zero K" (Sextante) aprofunda o sempiterno dilema do homem perante o seu fim. Há ideias a explorar e uma mensagem a transmitir. Demasiado enredo e descrições minuciosas iriam obscurecer essas intenções:
"Eu podia ter feito uma ou duas perguntas. Que cadeira, que quarto, que cidade, que país? Mas dei-me conta de que isto teria sido uma afronta ao método narrativo do homem".
DeLillo interroga-se sobre o fim da vida como parte integrante da própria vida. A impossibilidade de morrer é uma descaracterização do ciclo de existência do ser humano.  As palavras citadas de Santo Agostinho são o mote para o desdobramento das suas interrogações:
" Nunca, na verdade, haverá para o homem pior desgraça na morte de que chegar onde a própria morte não será morte"
A Moral que conhecemos é fragmentada e tudo é posto em causa. A existência do Ser Humano fragmenta-se, reconfigura-se. A Fé em Deus desloca-se para a tecnologia. O primado da lógica e da razão é levado ao limite.
"Tecnologia assente na fé. Eis do que se trata. Outro deus. Não muito diferente, no fim de contas, de alguns deuses anteriores"
O adiamento (ou fim) da morte vem no seguimento da ideia de fenomenologia de Husserl, em que se perspectiva a relação do homem com a sua experiência e com tudo o que é novidade, e com a ideia de desconstrução derridiana do ser e das estruturas sociais que o apoiam. Mas apesar da desconstrução, o Homem caminha para um novo logocentrismo.
As ideias de Derrida, que apareceram primeiro com Husserl, em "Origem da Geometria", estendem-se à Linguagem.
Debaixo de uma calma superfície, existem diversas camadas de sentido, cuja descodificação depende da competência de cada leitor. A simplicidade é enganadora. DeLillo vincula a existência do homem à linguagem e suas diversas declinações.
Noam Chomsky afirma, em "Linguagem e Pensamento", que "Ao estudarmos a linguagem humana aproximamo-nos do que se poderia chamar a "essência humana", as qualidades distintivas da mente que são, tanto quanto sabemos, exclusivas do homem".
Chomsky, que partilha com Derrida o desacordo com o estruturalismo de Saussure, vincula a linguagem à consciência.
Em "Zero K", a nova relação com a morte obriga a uma redefinição da consciência do Ser Humano. A memória das experiências é suspensa para mais tarde ser reactivada. Os órgãos do corpo são retirados e abrigados em cápsulas. O indivíduo entra num estado de suspensão. O tempo e o espaço são redefinidos. As coordenadas são suspensas. É-se algo que a linguagem é incapaz de resolver, um tempo na primeira e na terceira pessoa. A identidade é reformulada devido à nova relação com o espaço e o tempo. E com a Linguagem:
"Será que sou alguém ou serão somente as palavras em si que me levam a pensar que sou alguém", interroga-se Artis Martineau, no único capítulo em que a voz não pertence a Jeffrey.
Para Fromkin e Rodman, nos seus estudos sobre a Linguagem, algumas tribos africanas consideram a criança uma coisa (kuntu); só após o aprender da linguagem esse kuntu se transforma numa pessoa (muntu).
No espaço impessoal da "Convergência", inventa-se "uma língua isolada, a salvo de qualquer filiação com outras línguas" aprendidas por uns, implantada nos que já estão em criopreservação.
"Um sistema que irá proporcionar novos significados, novos níveis de percepção em toda a sua plenitude"
 A realidade e a linguagem formam-se em interdependência. A identidade é construída de acordo com esses alicerces. Freud e depois Lacan fundamentaram as suas teorias de psicanálise nos hábitos de discurso dos pacientes. Seria interessante saber a opinião de Freud ao facto de Jeffrey ter dificuldades em chamar pai a Ross Lockhart, a de ele ter mais admiração pela madrasta do que pelo pai, a do pai recusar dizer o nome da mãe de Jeffrey, ou ainda de o pai não querer olhar para o passado quando, à força da ciência, tenta manter-se existente num futuro mais ou menos longínquo. E de ainda tanto pai como filho não se identificarem com os seus próprios nomes.
Lacan foi mais longe do que Freud. Aos hábitos de discurso analisados por Freud, Lacan acrescentou as formas simbólicas e codificadas.
Nas suas deambulações pelos corredores da "Convergência", Jeffrey tenta descodificar o significado de artesanato, instalações, imagens ou vídeos presentes. As peças de arte vão demonstrando a intersecção entre épocas clássicas e contemporâneas, entre ideias religiosas ocidentais e  orientais. Desde a estrutura das instalações até ao corpo de Artis, tudo é Arte, ou seja, tudo é metáfora de linguagem verbal.
Uma das possíveis interpretações do nome da madrasta, única pessoa a narrar além de Ross, é a de remeter exactamente para Arte.
Artis, de seu nome, é uma obra arte da tecnologia. Artis, genitivo de “Ars,  Artis” pode significar "Arte, Técnica, Saber". Tudo o que a "Convergência" almeja significar.
Será com espanto que Jeffrey perceberá que a essência da comunicação se encontra "nos gritos de pasmo de um rapazito" perante um acontecimento quotidiano.

A nomeação de autores e teorias de diversas áreas tem como objectivo sugerir ao leitor que não interprete "Zero K" como um texto simples. É muito mais do que isso. O usufruto estará dependente da vontade de o leitor aprofundar a leitura, “mergulhar” no texto. Há muito mais do que a falsa calma na superfície. A acrescentar às teorias que serviram de chave de leitura de “Zero K” há ainda esta: a de Recepção. A experiência de Jeffrey foi moldada por todos os acontecimentos que ficaram na sua memória. O passado formou a interpretação de toda a simbologia existente. Cabe ao leitor levar a sua experiência para o livro com o intuito de iluminar os sentidos obscuros de um livro demonstrativo da qualidade do seu autor.
A literatura de DeLillo continua a ser persuasiva, perturbadora e actual.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=855738

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“Tinto no Branco-Festival Literário de Viseu”: Embriagai-vos com literatura.











“Tinto no Branco-Festival Literário de Viseu”: Embriagai-vos com literatura.

A literatura e do vinho têm uma alegre e antiga ligação, agora aproveitada pela Câmara Municipal de Viseu e a Booktailors  (produção executiva) na criação do "Tinto no Branco- Festival Literário de Viseu", que ocorreu entre 2 e 4 de Dezembro. É a segunda edição de um festival em crescendo. De 2015 para 2016, manteve-se a literatura e o vinho. A afluência de público aumentou. 

Entrava-se no Solar do Vinho do Dão e dificilmente se resistia à tentação: indo para a esquerda, encontrava-se a doçaria regional; virando à direita, entrava-se no salão principal onde decorria a prova de vinhos de inverno. 
Satisfeita a gula, ou pelo menos acalmada, o público poderia dedicar-se às letras. Contígua ao salão principal, a capela do Solar recebeu os participantes nas mesas de debate e os muitos espectadores que, de copo na mão, ouviram os intervenientes. 
Em redor da palavra literária, o público ouviu conversas sobre Deus, sobre as civilizações fundamentadas nas religiões do Livro, sobre o futebol, adorado numa catedral com uma Luz diferente, e os seus fanáticos; sobre a cidade e sobre a casa na poesia. Sobre as pessoas. Principalmente sobre as pessoas e as palavras que as unem.
O tema desta edição – “Amor” - teve em "Amor de Perdição", de Camilo Castelo Branco, o seu eixo mais importante.
Amor como o de Simão e Teresa, versão camiliana de Romeu e Julieta, foi debatido por o escritor João Tordo e o poeta Renato Filipe Cardoso, em "O nosso Romeu e Julieta". São histórias de amores em cidades que tornam esses lugares mais ricos, mais humanos. Têm capacidade, como afirmou Renato Filipe Cardoso, para nos fazer sonhar com um amor de morrer por ele.


Mas afinal para que serve um festival literário? 

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, Almeida Henriques, Presidente da Câmara Municipal de Viseu e o editor Francisco José Viegas (moderador)  abriram o festival com "Os amores às cidades".  
As cidades são mais do que monumentos. As cidades de Júlio Dinis, de Camilo Castelo Branco ou de Agustina ajudam a imaginar e a pensar o lado humano.
Os escritores escrevem o que observaram, seja através da janela de sua casa ou vagueando pelas ruas. Como o malogrado Manuel António Pina, lembrado por Rui Moreira e, num outro momento do festival, pela poetisa Inês Fonseca Santos em conversa com Miguel-Manso.
 "As cidades são peças de relojoaria", afirmou Rui Moreira. Segundo o Presidente da Câmara Municipal do Porto, a cultura é um factor de união entre as pessoas. O conhecimento delas próprias e dos locais a que pertencem dependem da facilidade de acesso à cultura.  
Os festivais literários são um instrumento económico e um factor de união. A democratização do acesso à cultura é um investimento, segundo os dois autarcas, para a qualificação humana e satisfação da necessidade de pertença. 
Para Rui Moreira, "A cultura bem desenvolvida tem enorme impacto na coesão social, se souber não ser de classes"
A aproximação dos escritores ao público, em eventos como "Tinto no Branco", democratiza a troca de opiniões, facilita o acesso ao conhecimento. Essas pessoas, tantas vezes transformadas em personagens, podem contactar os autores.

A vontade de matar o pai... 

As personagens das histórias parecem ser do bairro do leitor, talvez um vizinho ou uma vizinha, como as personagens criadas por Bruno Vieira Amaral. São próximas nos hábitos e passeiam pelos locais que compõem o quotidiano dos habitantes. Seja na mesma época ou em época já mais distante do ano que o texto foi escrito. 

Bruno Vieira Amaral é um dos casos mais relevantes a perceber que há muita matéria literária nas pessoas comuns. O autor de "As Primeiras Coisas", livro passado no Bairro Amélia, conversou com Fernando Pinto Amaral e Maria João Costa (moderadora) sobre os escritores que deixam seguidores, talvez discípulos, entre quem os lê. 
Na mesa "A morte sem mestre", com evidentes ligações a Herberto Hélder, Bruno Vieira Amaral referiu a vontade de, hoje, ninguém querer o rótulo de mestre ou de discípulo. A relação com as influências é de desafio. Não há negação, mas antes uma assimilação dessas influências, sem as fazer notar. 
"Não se consegue ser um bom escritor sem consciência do que está para trás.", afirmou. Essa consciência pode ter demasiado peso e ser bloqueadora. Há uma vantagem para os autores mais novos: estão vivos. E isso implica terem a possibilidade de pensar os problemas actuais com as suas próprias "armas" e com as "armas" fornecidas pelos autores canónicos. 
Fernando Pinto Amaral partilha da mesma opinião e acrescentou haver a necessidade de "matar o pai". 
"Não há geração espontânea", afirmou. O modo de relacionamento com esses autores é que mudou a partir do Romantismo, segundo o autor do livro de poemas "Manual de Cardiologia". Até então, o conceito de autor era diferente. A notoriedade do autor é hoje maior do que antigamente.
Em vez de próxima do realismo, abordado na primeira mesa, a literatura é agora mais pessoal. A atmosfera é menos abrangente e mais individual. A concentração no indivíduo fecha a perspectiva.
A narrativa assente em como o individuo experiencia determinado acontecimento implica uma nova linguagem. É a actualização das armas, referida por Bruno Vieira Amaral. Há também a experiência do leitor, construída ao longo da vida, que é levada para a leitura. E a própria leitura faz parte dessa experiência.
O poeta Miguel-Manso, na mesa "Descontrai, Simão", viria a afirmar que "a palavra transforma e molda a realidade".  

"A Literatura escorrega melhor..." 

Um grande exemplo da relação próxima entre leitura e vida é Álvaro Laborinho Lúcio. O juiz, agora aposentado, assimilou novos códigos de linguagem na escola para meninos pescadores. Passado algum tempo da matrícula, já ele tinha assimilado novo léxico. Talvez tenha sido nessa escola que começou o seu interesse pelo cidadão mais anónimo, mais esquecido. 
Para falar de literatura, um copo de vinho do Dão. "A literatura escorrega melhor", afirmou Laborinho Lúcio. Ou Álvaro, como prefere ser chamado.
Em "Entrevista de Vida", conduzida por Tito Couto, o antigo ministro revelou ter levado para os seus livros todas as suas leituras e todas as pessoas extraordinárias que foi conhecendo ao longo da vida.
Pretende lembrar quem sempre é esquecido. E levou-as para "O Chamador". 
Álvaro Laborinho Lúcio vê literatura nas pessoas "comuns". O cidadão anónimo retratado por Aquilino, Camilo, Agustina ou Manuel António Pina, como foi dito por Rui Moreira e Almeida Henriques, tem na literatura de Bruno Vieira Amaral e Laborinho Lúcio espaço privilegiado.
A realidade é a base da ficção. A única verdade que existe está no texto. Não há, para o autor de "O Chamador", a transposição da verdade do real para o romance. Ele, como escritor, é o encenador dessas personagens. 
A ligação entre o Teatro e a Justiça foi elaborada de forma brilhante e pedagógica. O autor relacionou a construção do palco e dos diferentes papéis das personagens com a organização de um tribunal. 
A experiência forma a leitura; a leitura forma a experiência. São interdependentes. Álvaro Laborinho demonstrou a dedicação dada à palavra, seja mais denotativa (nos tribunais) ou conotativa (na ficção).
Às voltas com a denotação ou conotação da Palavra anda o Ser Humano há milhares de anos. Por isso, o trabalho de Frederico Lourenço, ao traduzir a Bíblia, é pouco menos que hercúleo. Foram as suas leituras dos clássicos e o conhecimento da língua grega que o capacitaram a executar tal tarefa. Frederico Lourenço fez de toda a sua experiência de leitor ferramenta para clarificar o sentido do Livro fundador de civilizações. Mais do que um livro, a Bíblia é "uma indispensável biblioteca", como escreveu Tolentino de Mendonça num artigo do “Observador”.
O poeta Daniel Jonas, o jornalista António Marujo, distinguido em 1995 e 2006 com o Prémio Europeu de Jornalismo na Imprensa Não-Confessional (instituído pela Conferência das Igrejas Europeias e pela Fundação Templeton), Jorge Sobrado (moderador) e Frederico Lourenço conversaram sob o mote "Tomai todos e bebei". 
A palavra traduzida, a palavra poética e a jornalística na mesma discussão. Os acessos ao sentido, divino, metafórico ou denotativo, estiveram na mente do muito público ali presente. São diversos os véus que mistificam o sentido. Feitos pelos homens para os homens. 
A seriedade do tema contrastou com as palavras de António Botto, Bocage, Alexandre O´Neil na voz de Renato Filipe Cardoso, em "Missa Mal Dita". Na capela do Solar do Dão houve espaço para muita gente, mas não para a heresia. 

 “Uma curva belíssima, uma equipa fantástica, és a nossa fé… “

Uma das melhores mesas estava guardada para o último dia. Envolvia religião, cânticos e muita fé: o futebol. Olhando-se para as garrafas de vinho do Dão sobre a mesa, podia-se imaginar quantos copos já teria bebido Fernando Correia devido aos muitos anos de jejum do seu Sporting; ou quantos litros foram necessários a Leonor Pinhão para esquecer o golo do Kelvin; e ainda quantos copos terão sido tomados por Pedro Marques Lopes para perceber os desenhos do treinador do seu Futebol Clube do Porto. Na capela, bem mais pequena que a catedral da Luz, Leonor Pinhão disse que raramente bebia, mas que realmente os penaltis lhe causavam muita angústia. Na mesa "A angústia do enólogo no momento do penalty", três entendedores de futebol demonstraram que o "Fair Play" não é uma treta. Numa mesa que mereceria prolongamento, falou-se sobre a necessidade de pertença a uma "tribo", a de cantar os hinos aos clubes e aos jogadores, sobre manter rotinas de superstição e a de gritar golo como se se estivesse a chamar por Deus. Falou-se em arrancar relva e benzer-se, em santinhos beijados e postos nos bolsos, em roupa que se usa todos os jogos.
Uma questão de fé, numa religião politeísta, em que os deuses pontapeiam, correm, sujam-se e magoam-se para levar alegria às suas pessoas, aos seus adeptos. 
Pedro Marques Lopes e Leonor Pinhão, sob a batuta de uma voz de sempre, driblaram agruras e conseguiram transmitir o amor por este fenómeno mundial chamado futebol. A ira dos fanáticos ficaria para a conversa entre o jornalista Paulo Moura e Francisco Mendes da Silva, advogado e membro do CDS-PP. Pedro Vieira moderou a conversa sobre "As Vinhas da Ira". 

Mais do que um clube, uma religião... 

Segundo Paulo Moura, há tendência em compararmos o que se passa hoje com épocas anteriores, seja antes do ano 1000, apontado como o fim do mundo, ou com as duas guerras mundiais. A experiência como repórter em ambientes de guerra avaliza as opiniões do autor de "Depois do Fim" (Elsinore). Segundo Paulo Moura,  é perceptível que o confronto entre a civilização do Livro (Cristianismo ou Islão) e o comunismo é algo anacrónico. Estamos perante uma nova realidade. O confronto entre o islamismo radical e o ocidente veio colocar problemas à Europa. Aliás, somos eurocêntricos. Na perspectiva da China, que tem índices altos de produtividade e nenhum problema com terrorismo, não há crise.
Existe sempre tendência para pensar que "Winter is coming", conforme é afirmado na "Guerra de Tronos". No entanto, existem soluções para os problemas contemporâneos, segundo Francisco Mendes da Silva. A sorumbática Europa terá o problema resolvido quando o Islão moderado descredibilizar as interpretações radicais do Corão.
Paulo Moura discorda. Segundo o autor de "Depois do Fim", será muito difícil que sejam os moderados a resolver o problema, pois, algumas vezes, nem conseguem disfarçar uma certa simpatia por alguns movimentos radicais. 
Os monumentos, as cidades, as casas e os indivíduos são destruídos pela radical interpretação de um texto pretensamente divino, por palavras que afastam as pessoas umas das outras. Aleppo está muito longe de Viseu. Uma, destruída pela interpretação; outra ainda mais coesa, tolerante e acolhedora nos dias em que recebeu opiniões tão diferentes sobre assuntos relacionados com a ficção ou a não-ficção. 
A organização do "Tinto no Branco- Festival Literário de Viseu" mostrou-se agradada com o balanço do festival. Cerca de 6000 pessoas passaram pelo Solar do Vinho do Dão, provando os vinhos de inverno e participando nas mesas, “workshops”, apresentações de livros, sessões de magia, provas de vinhos entre muitas outras actividades. A 3ª edição de "Vinhos de Inverno", que contempla a 2ª do festival literário, tem vindo a crescer na programação e no público presente. A aposta, segundo a organização, será para manter, pois é um programa diferenciador tanto no enoturismo como no panorama literário nacional. 



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=853846#

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

"O Luto É a Coisa com Penas", de Max Porter







Dor nas garras do corvo.

Em que género literário colocamos "O Luto É A Coisa Com Penas" (Elsinore)?
Max Porter rompe com os limites dos géneros literários. O livro vencedor do  "Dylan Thomas Prize Award" não obedece a ideias canónicas. "O Luto É A Coisa com Penas" causa estranheza desde a estrutura até à forte influência do simbolismo.
Construção meta-literária, com presença fundamental de Ted Hughes  (tema de estudo do pai), o primeiro romance do editor da “Granta Books” inquieta e transtorna.
A mãe morre num acidente doméstico. O processo de luto desta família, composta por marido e dois filhos, é duro.  O leitor sente isso porque Porter consegue, sem histrionismo, afectá-lo.
Ao longo do luto, a que o pai chama de "projecto a longo prazo", continuar a viver sem a mãe tem na culpa o maior impedimento. Há uma constante negociação entre a dor e a esperança. As rotinas diárias tentam perpetuar a presença da pessoa falecida.
A unidade do texto não se baseia na evolução da história. A narração do luto aproxima-se da poesia quando se afasta da lógica e se desenvolve em verso livre. A juntar a esta estrutura irregular, mas com óbvias afinidades com a prosa, existem diversos elementos simbólicos, em que o corvo é componente fulcral. O encadeamento da voz do pai com as dos filhos e ainda com as do corvo acontece em capítulos curtos, onde a família expõe a dor da perda. A polifonia permite capturar as várias tonalidades da angústia.
O corvo ajuda esta família a conviver com perda e a elaborar uma nova narrativa, uma nova vida. Ele chega com um objectivo estabelecido: ficar até que a família não precise mais dele.
Esta psicoterapêutica tão singular permite a estas personagens “mastigadas pela tristeza” aceitar a realidade da perda, elaborar a dor dessa mesma perda e a ajustarem-se e reposicionarem-se, emocionalmente, para continuar a viver:
"Eu podia tê-lo dobrado para trás sobre uma cadeira e ter-lhe
administrado a conta-gotas comunicados desagradáveis
em torno da hora exata da morte da mulher. OUTROS
PÁSSAROS TÊ-LO-IAM FEITO, não há bons nem maus
neste reino. O melhor é pôr mãos à obra."
Max Porter, em entrevista [Foyles.co.uk], afirmou que o corvo não é o de Ted Hughes; é o corvo do pai, dos filhos, o seu próprio, o dos leitores, e ainda se representa a si próprio, com toda a "bagagem" mitológica e literária inerente.
O corvo é um totem espiritual. Pode significar a magia da vida, a transformação pessoal. É audaz e manhoso. Simboliza a morte e o destino. A "coisa" a que se refere o título é aberta a várias ligações ou interpretações. Tanto pode ser positiva como negativa; tanto pode ser a negrura como a luz. Não é inocente que o título tenha sido adaptado de um verso de Emily Dickinson: "A esperança é a coisa com penas".
Este livro de Max Porter é uma metáfora da própria vida; desta continuar, inevitavelmente, ultrapassando a dor em busca da esperança, da paz. No caso do pai das duas crianças, essa busca acontece através da arte. É a poesia que o ajuda a enfrentar a mudança e chegar à conclusão de que a fronteira entre a desgraça e a felicidade é muito ténue.  A linguagem é fundamental no ultrapassar do luto e na manutenção da própria “existência” da mãe na memória dos filhos. A palavra, sem alçapões ou subterfúgios, é a melhor morada para as recordações:
"AMO-TE AMO-TE AMO-TE
e a voz deles era a vida e a canção da sua mãe"
Há muita qualidade em pouco mais de cem páginas. "O Luto É A Coisa Com Penas" deixa marcas no leitor.



Videos

Recent

Random