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quinta-feira, 17 de maio de 2018

"Jalan, Jalan - uma leitura do mundo", de Afonso Cruz




terça-feira, 15 de maio de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Entrevista com Sandro William Junqueira



Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/sandro-william-junqueira-quero-fazer-uma-literatura-por-dentro-da-vida/


Um novo livro, um novo mundo no universo de Sandro William Junqueira.
Em "Quando as girafas baixam o pescoço" (Caminho), várias personagens habitam uma urbanização que pode ser a de um qualquer subúrbio de uma cidade dominada pela crise, seja económica ou humanista.
Uma mulher gorda gosta de comprar flores, um desempregado faminto sonha com goulash, duas irmãs são como Esaú e Jacó. Um homem deita sementes para um buraco. Um macaco provoca uma reunião, uma mulher espreme sumo de limão para os seios.
As imagens são fortes e apresentam-se como "blocos" de uma organização que, numa primeira análise, está próxima da realidade. A escassez de ligações propõe que o leitor contribua para a construção do sentido de um livro que, tal como outros de Sandro William Junqueira, oferece coordenadas mínimas.
As incoerências do ser humano são expostas pela escrita despojada do autor de "No céu não há limões", "Um piano para cavalos altos" e "O caderno do Algoz". É uma realidade que expõe o isolamento e a solidão de indivíduos que vivem muito próximos uns dos outros.
A presença de outros escritores não é ostensiva e só nas "palavras apetrechadas de asas" ou nos nomes de personagens é que se pode reconhecê-las. No entanto, estão lá, e ler Sandro William Junqueira é ler, indirectamente, escritores inscritos na literatura universal.
A Comunidade Cultura e Arte conversou com o autor nas Correntes d`Escritas, na Póvoa de Varzim.
Na mesa em que participaste nas Correntes d`Escritas, falaste em Paul Thomas Anderson. Este livro fez-me recordar o filme Magnólia. Porquê esta fragmentação estrutural, estas várias linhas narrativas?  
Em termos formais, gosto muito do fragmento.
Na parte estética da escrita, tento sempre que os meus livros e os meus textos não tenham gorduras. E como eu não sei muito bem o que vou escrever, surge uma ideia ou uma imagem e fica logo naquele bloco. Depois vão aparecendo esses blocos e vão ficando assim. É claro que alguns textos ficaram maiores e depois eu estive a parti-los. Aparentemente, o livro parece meio caótico, mas a estrutura foi muito pensada. Perdi muito tempo com o alinhamento e a montagem dessas histórias, desses blocos. Há um momento em que essas linhas se começam a aproximar. Gosto muito disso.
Tudo faz sentido, no fim do livro?  
Sim, mas não deixa de haver algumas pontas soltas, alguns buracos por preencher. Não gosto de livros muito bem acabados. Aquela ideia de uma história muito bem contada. Desconfio sempre.
Parte muito da forma como eu olho para as coisas. No primeiro momento, quando estou a criar um bloco, eu sigo o instinto. Nunca deito nada fora, mesmo que a ideia pareça absurda e que não haja ligação nenhuma entre o que já está escrito e o que estou a escrever no caderno. Quando percebo que tenho pedra suficiente para esculpir, começo a escavacar, a escavacar... Por vezes só compreendo o livro muito depois. A escrita é muito instintiva. Não conhecer faz-me escrever.
Podemos pensar em "Quando as girafas baixam o pescoço" como um romance de personagens? Como é que estas figuras te surgem?  
Sim, neste caso a primeira coisa que me apareceu foi mesmo a primeira página com a imagem de um velho com um pacote de sementes; há um buraco ao lado, e ele atira as sementes. Depois comecei a escrever mais sobre o velho. É como nas estafetas. Um começa a correr e depois passa o testemunho a outro, que agarra o testemunho e o passa a outro...
Se não me engano, a primeira imagem que tiveste, em "No céu não há limões", foi a de um padre...  
Foi a do padre e da velha a sair de casa em direcção ao limoeiro. Foram as duas. Só muito mais tarde, a cerca de quatro meses de acabar, é que percebi que essa imagem do padre era o final do livro.
Estás longe de ter um guião?  
Muito longe, muito longe. Nunca faço isso. Apesar de sofrer mais, o prazer que tenho quando sou surpreendido é muito maior.


Esse olhar sobre o movimento das personagens tem algo a ver com a tua própria interpretação como encenador?  
Sim, mas é engraçado porque entra em contradição com aquilo que disse. As pessoas vêem sempre o escritor como o grande manipulador, o grande condutor de títeres. No meu caso não é bem assim.
Isso é já numa fase final. Na segunda parte, quando eu começo mesmo a partir o livro e a cortar, aí tenho uma intervenção. Até esse momento, a minha escrita aparece-me instintivamente. Há a instalação de um ambiente, de uma atmosfera, com os seus adereços. Isso talvez tenha a ver com o facto de ter feito teatro e de ter sido designer gráfico. Isso tudo ficou em mim e passa para a escrita.
Mencionas um cavalo que quer aprender a tocar piano, os limões são também mencionados. São piscares de olho a livros anteriores?
Há sempre frases ou algumas personagens que passam de livro para livro. Há aí uma frase que entrará no próximo livro. Já comecei a escrever e essa frase estará lá.
Em "Um piano para cavalos altos" e em "O caderno do Algoz" há sempre um homem pequeno. Num livro é nomeado como anão, no outro é nomeado como raquítico. No entanto, é sempre a mesma personagem.
Uma personagem de "O caderno do Algoz" apareceu em "No céu não há limões". Há transferências de personagens e por vezes de elementos.
É como estar a encenar uma peça com um cenário e figurinos; depois, numa outra peça, eu pego nalguns desses endereços e continuo a utilizá-los. Tem algo de continuidade.   
Tentaste mostrar o todo pela parte? É a Humanidade que está neste livro?  
Em todos os meus livros, de alguma forma, quero fazer uma literatura por dentro da vida. Este livro, que está mais longe dos outros mais distópicos, está mais próximo de uma realidade com que qualquer pessoa se identifica. É menos distópico. Os temas são os mesmos. É mais fácil de entrar neste porque é algo que conheces mais de perto.
Como escritor, tenho a obrigação ética de olhar para o mundo e a responsabilidade de apontar e de denunciar o que me incomoda. Ao mesmo tempo, também me fascina a nossa ambiguidade, os nossos pluralismos e as nossas lutas. Mesmo a questão entre a racionalidade e o mundo animal. O livro tem um animal no título propositadamente. Nós, como espécie, afastamo-nos da natureza. Primeiro, por procurarmos o bem-estar; depois, por nos julgarmos superiores; também para fugirmos à imprevisibilidade, de que não gostamos nada. Mas a verdade é que a natureza não saiu de nós. Estas personagens são vítimas de impulsos que as levam para muito próximo do mundo animal. O Homem Desempregado [personagem] quase que se transforma num animal. Ele deixa de ter dinheiro para pagar as contas da luz e da água. Quando nós não temos dinheiro aproximamo-nos mais da animalidade. Há essa relação e essa luta entre a civilização com o mundo animal. É algo que está em todos os meus livros.
Sobre esse Homem Desempregado, escreveste o seguinte:
"Está desempregado. Cospe nos livros de filosofia. Já não coloca questões como: será a vida apenas um constante fazer de cemitérios? coloca outras: gás ou luz?"
Há literatura sem pão?  
Não há. Não é possível. É curioso perceber que os gregos tinham tempo para pensar porque tinham escravos. Esse homem é o exemplo de alguém que estudou muita filosofia e que, por circunstâncias da vida, se interroga: " de que me serve a filosofia se não tenho dinheiro para comprar o pão?"
Mais uma vez o confronto entre a parte mais animal, os nossos instintos primários, e o grande pensamento.
Os livros separam o homem da mulher, neste livro...  
Não sei por que fiz com que ficassem separados....
Criei essa personagem por que queria fazer uma homenagem aos livros e à leitura. Não cheguei aqui sozinho. Os livros nascem sempre de outros livros e os escritores da leitura. Por exemplo, as irmãs Cátia com K e a Cátia com C é claramente uma resposta à leitura da Bíblia, de Esaú e Jacó, irmãos que lutaram dentro do ventre. A Cátia com K é quase uma Penélope que não sabe do marido que foi para a guerra. O médico que cuida da mãe da Cátia com K é um dos médicos que entra numa das peças do Tchékhov.
O personagem diz versos de Herberto Hélder, frases de Clarice Lispector. São autores de que gosto muito. Há uma série de referências. Neste livro procurei responder aos livros e às leituras que fiz.
O primeiro texto que escrevi foi aquele em que ela gosta dele e lhe oferece livros. Só que há um momento em que ele fica mais interessado pelos livros do que por ela, e ela fica ressentida.
Explorei isso até ao limite. Ela acende uma fogueira com os livros e depois acaba com ele porque não aguenta mais. Ela quer afectos; não quer palavras.



Falámos do teatro e dos livros que entram na escrita. Disseste uma vez que eras um músico frustrado.   
Sim, é verdade.
Em "Quando as girafas baixam o pescoço" tens várias menções à música e a músicas em concreto. Qual é a tua ligação com a música?
William Faulkner disse que os escritores queriam era ser compositores, mas como não tinham talento...
A música é a maior de todas as artes e aquela que nos aproxima mais da eternidade. Todos os meus livros têm uma música no fim.
Tenho paixão pelo piano e pelos pianistas. Sempre que vejo um pianista a tocar emociono-me. Eu gostava muito de ser pianista, mas não tenho talento. Tento fazer com as palavras o que os músicos fazem com as notas. Tento atingir a universalidade e emocionar as pessoas. Muito facilmente a música consegue pôr-te a chorar, a rir, a mexer o corpo, a viajar no tempo. É mais difícil que um livro consiga fazer chorar um leitor.
A música "too many birds" (Bill Callahan), que está nas últimas páginas do teu livro, é de grande melancolia. Porquê esta música?  
É um dos discos mais bonitos que alguma vez ouvi. O disco todo [Sometimes I wish we were an eagle]. Essa música é maravilhosa. Quando terminei o livro, andava à procura de uma música. No livro há aquele negócio da gaiola, em que ele põe as pessoas na gaiola e o pássaro está fora da gaiola. Pensei que era perfeito. Essa melancolia apanha muito bem o tom do livro.
Nas dedicatórias mencionas que João Ricardo Pedro [Prémio Leya 2011] sugeriu mais 100 páginas. "Quando as girafas baixam o pescoço" era para ser diferente do que é?  
Este livro nasce de um texto que escrevi há uns quatro ou cinco anos. Na altura, quando o escrevi, surgiram algumas personagens. Enviei o texto para o João Ricardo, ele gostou muito e disse-me para escrever mais cem páginas, pois dava um romance. Nunca mais me esqueci disso. Entretanto, tinha acabado "No céu não há limões" e já estava a escrever um novo, quando abro um documento que tinha esse texto. Olhei para aquilo e lembrei-me da frase do João Ricardo. Comecei a escrever e a ficar muito entusiasmado.
Em vez de nomes próprios, muitas personagens são caracterizadas pelas funções que executam ou por adjectivos. Qual a razão?  
No meu primeiro livro, tinha a noção que estava a querer criar um território ficcional que fosse só meu e que fosse o mais universal possível, ou seja, um território que qualquer pessoa pudesse imaginar e intervir.
Os meus livros são um pouco contra o cânone, pois não dou tempo nem espaço. Dou poucas referências.
Tinha dificuldades em baptizar as personagens. Experimentava um nome e depois punha, por exemplo, "ruiva". Se eu desse um nome, estava a dar uma bandeira. Nos primeiros livros, não senti essa necessidade. Neste livro, comecei com o Desempregado, mas depois surgiram as cátias. Num outro momento, há o Cantor de Rua e aparece o Oleg. Pensei que a junção dos dois ficava bem. Se calhar é uma passagem de testemunho para o que vai acontecer no próximo ano. A personagem principal poderá ter nome.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Nova edição de 'Odisseia', revista e anotada por Frederico Lourenço


Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:

https://www.comunidadeculturaearte.com/chega-hoje-as-livrarias-a-nova-edicao-de-odisseia-revista-e-anotada-por-frederico-lourenco/





A nova edição é publicada pela Quetzal. Nas "férias" da Bíblia, o tradutor revisitou Ulisses. São mais 300 páginas do que a edição anterior, devido a anotações

No seguimento da publicação da "Bíblia", Frederico Lourenço continua a publicar na Quetzal as traduções de obras canónicas da literatura universal. E não foi coincidência o facto de a nova tradução da "Odisseia" ter sido anunciada na Cinemateca Portuguesa, local escolhido para a apresentação da tradução da Bíblia.
A intenção subjacente a esta nova edição, segundo o tradutor, é diferente da de 2003, então publicada pela Cotovia. Houve especial atenção com a beleza da linguagem e com a limpidez e a simplicidade que remetem para a língua original, sem abdicar do rigor.
Esta edição da Odisseia foi feita em moldes muito diferentes das edições anteriores, em que existiam gralhas que foram passando. Os apelos de leitores e a consciência de que as anotações iluminariam o texto serviram também de motivação extra para uma nova tradução.


"A Odisseia sempre foi a minha grande paixão". É um texto que nunca o cansa e cuja tradução precisa de ser aperfeiçoada verso a verso, palavra a palavra. "É um texto inesgotável", afirmou, sem deixar de sublinhar que não é perfeito. Existem incoerências próprias de um texto preparado para ser comunicado oralmente.
"Quanto mais eu estudo a Ilíada e a Odisseia, quanto mais eu aprofundo estes textos, mais me convenço de que estes textos foram compostos com a ajuda da escrita, mesmo que fosse de um poeta que vinha da tradição oral e que compunha de acordo com todas as regras e a linguagem da tradição oral."
Depois de se ver o poema debaixo do microscópio, verso a verso, começa-se a perceber que a perfeição absoluta não está lá; não existe um hipotético planeamento, sem incoerências, até ao último pormenor.
De forma diferente às anotações presentes na Bíblia, que estão na própria página do texto sagrado, as anotações de a Odisseia encontram-se no fim de cada Canto, "para salvaguardar a ideia de que a Odisseia pode ser lida como um poema absolutamente deslumbrante e também pode ser lida como um poema crítico". Esta nova edição dá essa dupla oportunidade. O leitor pode optar por esclarecer dúvidas e aprofundar o conhecimento, ou ficar-se pelo deslumbramento do poema.
Nas notas, o tradutor não tomou nenhum partido relativamente às muitas controvérsias existentes sobre a Odisseia. Tentou ser o mais isento possível em relação às diferentes teorias existentes e procurou reunir, nessas notas, diferentes pontos de vista com o objectivo de dar ao leitor a possibilidade de ele próprio formar a sua opinião.
Em consequência, esta edição da Quetzal tem mais cerca de 300 páginas (700 no total) do que a edição de 2003, publicada pela Cotovia.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Ciência vs. Religião, por Frei Bento Domingues e Carlos Fiolhais



Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/ciencia-vs-religiao-por-frei-bento-domingues-e-carlos-fiolhais/




A religião e a ciência estiveram lado a lado no “Tinto no Branco”, com Frei Bento Domingues e Carlos Fiolhais na conversa mais interessante do Festival Literário de Viseu.
De 01 a 03 de Dezembro, o “Tinto no Branco” teve no seu programa sete mesas de conversa, sessões infanto-juvenis, teatro de marionetas, uma entrevista de vida com Pedro Mexia, espectáculo de poesia, exposições, visita literária a “Viseu Misteriosa” e ao Museu Grão Vasco, e apresentação de Um olhar sobre a cidade (Edições Esgotadas).
Michael Palin e Ricardo Araújo Pereira foram os “ases de trunfo” numa edição, a terceira, que teve nas “Conversas” a participação de Afonso Cruz, Daniel Oliveira, Manuel Alberto Valente, Hélder Gomes (moderador), Carlos Fiolhais, Frei Bento Domingues, Jorge Sobrado (moderador), Fernando Dacosta, Raquel VarelaRodrigo Moita de Deus, Nuno Júdice, Filipa Melo, Francisco José Viegas, Tiago Salazar e Tito Couto (moderador). Devido ao elevado número de espectadores, as mesas previstas para a “Sala das Conversas” viriam a ser quase todas transferidas para a “Tenda Jardins de Inverno”.
O diálogo entre Carlos Fiolhais e Frei Bento Domingues, com moderação de Jorge Sobrado, viria a ser um dos momentos com mais conteúdo do Festival Literário de Viseu. Com o tema Ciência Vs. Religião, afinal quem tem (a) Razão?, os dois campos hipoteticamente opostos demonstraram, através dos dois intervenientes, serem perspectivas diferentes sobre o mistério da existência. E tal é perceptível logo na génese. Marcará o pecado original a divisão entre a ciência e a fé?
Em “Génesis”, Eva é tentada a comer o fruto proibido:
“Mas, quanto [a comer] do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: «Não deveis comer dele, não, nem deveis tocar nele, para que não morrais». A isso a serpente disse à mulher: «Positivamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no mesmo dia em que comerdes dele, forçosamente se abrirão os vossos olhos e forçosamente sereis como Deus, sabendo o que é bom e o que é mau»” (Génesis 3:3 a 3:5)
A queda do homem aparece como associada à ânsia de conhecimento. Para Frei Bento Domingues, essa narrativa bíblica significa que não vale tudo. “Há, em tudo o que se produz, um problema ético.”, afirmou.
A Bíblia é, para Frei Bento Domingues, um “livro extremamente violento porque põe na boca de Deus os interesses de um povo contra [outros] povos. No dia dezoito do mês passado, o Papa Francisco, ao receber o grupo que agora se ocupa de todas as questões da Antropologia, uma das coisas que pôs foi logo o problema ético em tudo isto. [Disse] Não a um progresso científico e tecnológico em benefício de poucos e em desgraça de muitos”
Abordando a questão da religião, o autor de A Insurreição de Jesus (Temas e Debates) afirmou que
“chegamos ao Novo Testamento e o cristianismo quis também fazer uma religião no meio das religiões. Asneira grossa. Porquê? Porque Jesus não apresentou religião nenhuma. Jesus passou o tempo a fazer a crítica da religião. Ele tinha um critério: tudo o que há no mundo é para a alegria humana.”
O Sabat é para o ser humano e não o contrário, viria Jesus Cristo a defender. “O Sabat tinha-se transformado na cadeia, na prisão das pessoas”.
Carlos Fiolhais, doutorado em Física Teórica na Universidade Goethe, afirmou que Frei Bento Domingues era da ordem dos pregadores, enquanto ele era da ordem dos pecadores, que estava em maioria. Aliando o seu conhecimento ao bom humor, Carlos Fiolhais sublinhou que ciência e religião são actividades diferentes, mas com aspectos em comum.
O primeiro apresenta-se como óbvio, segundo o físico português: São ambas actividades do ser humano. Não há religião nem ciência fora do homem. O mesmo ser é capaz destas duas dimensões.
O segundo aspecto prende-se com serem tentativas de acesso ao que se pode chamar de mistérios. Não há um só mistério. A religião ordena o mundo de uma forma, enquanto a ciência ordena-o de outra.
Segundo Carlos Fiolhais, em Galileu há o pecado original da separação entre ciência e religião, que agora está mais mitigada. Hoje, há sacerdotes católicos que são cientistas. As duas áreas estão mais próximas, apesar de algumas facções radicais.
“Galileu escreveu uma carta muito bela a uma senhora da nobreza florentina em que explicava que na cabeça dele estava tudo bem arrumado. Ele não deixava de ser crente, de ter a fé, mas apesar disso achava que o espírito humano devia interrogar-se sobre a terra e sobre o céu. E disse que se o Espírito Santo nos ensina a ir para o céu, não nos ensina como é o céu. É possível estudar o céu e é possível acreditar no céu. Ele conseguia as duas coisas”
João Paulo II viria a classificar a relação da Igreja com Galileu como uma “incompreensão trágica”, reabilitando, desta forma, o astrónomo italiano. “Eu creio que o lugar do ser humano é a interrogação. O ser humano vive a interrogar-se e a buscar hipóteses de ver se verifica as suas coisas”, afirmou Frei Bento Domingues. Segundo a sua perspectiva, todos se devem questionar uns aos outros e a Religião nasceu com esse desígnio. O religioso era aquele que considerava e examinava.
“Uma coisa que me agradou muito no livro do [António] Damásio é quando diz que não há um princípio [ou teoria] de tudo. Eu não acredito no princípio de tudo. Não há ninguém que tenha o exclusivo. É gente à busca. (…) Acho que é o melhor clima. Por isso devo-lhe [a Carlos Fiolhais] dizer que lhe agradeço imenso esse trabalho enorme de divulgação científica.”
Carlos Fiolhais agradeceu a generosidade e afirmou que, quando estivesse diante de São Pedro, iria contar-lhe estas palavras para as portas serem abertas. “Sendo essencial, a ciência não é uma visão única no mundo”
Fazendo relembrar a conferência sobre Einstein, no "LeV – literatura em viagem", Carlos Fiolhais afirmou que Einstein via o mundo como uma maravilha e defendia a existência de uma harmonia cósmica.
“Ele dizia que Deus é subtil, mas não malicioso (…) Harmonia é subtil, mas não é maliciosa no sentido de ser possível lá chegar e compreender. É possível usar a razão, o logos. A palavra razão, em grego, é logos. E logos é o verbo. Está no Evangelho de São João: «No princípio era o verbo». (seria “No princípio era a razão, e a razão estava com Deus, e Deus era a razão”) Há quem diga que era a “palavra”, mas a «palavra» em grego é muito mais do que «palavra»; é razão, entendimento, norma, essência.”
Mão esquerda e mão direita numa só acção. Fé e Ciência, lado a lado, num extraordinário momento de “Tinto no Branco – Festival Literário de Viseu”

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Michael Palin: ‘Gostaria de escrever sobre o politicamente correcto, que está a ameaçar o desenvolvimento da comédia’



Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/michael-palin-gostaria-de-escrever-sobre-o-politicamente-correcto-que-esta-a-ameacar-o-desenvolvimento-da-comedia/




A 3ª edição do “Tinto no Branco - Festival Literário de Viseu” foi iniciada com a participação de Ricardo Araújo Pereira e Michael Palin. Cerca de 800 pessoas assistiram a "E agora para algo completamente diferente”, no início de noite gélida do primeiro dia de Dezembro.
O programa de “Tinto no Branco”, cujas actividades decorreram no Solar do Vinho do Dão, indicava a “Tenda Jardins de Inverno” como o local da primeira conversa deste festival literário. Mas tal não viria a acontecer.
A organização teve de a reprogramar  para um local diferente do previsto. Os muitos e-mails recebidos e as chamadas telefónicas atendidas indicavam uma enchente inesperada até para os mais optimistas. A tenda com 200 lugares era insuficiente. Em consequência,  o palco foi montado na zona envolvente e 600/650 cadeiras foram distribuídas pelo espaço. Uma hora antes do início (18:00), a fila para entrar indicava grande afluência. Quando começou, a temperatura tinha descido para os 5 ou 6 graus centígrados, não havia cadeiras desocupadas e as laterais estavam preenchidas por pessoas que assistiam em pé. As mantas e os aquecedores tentaram contrariar o frio, mas foram os dois convidados que o conseguiram com mais eficácia. O público só se levantou para ovacionar no fim da conversa.
Na manhã desse dia, Michael Palin disse que ainda não conhecia o seu interlocutor, mas que tinha lido um texto dele numa revista, ainda no aeroporto. O “Monty Python" viria a perceber que o “Gato Fedorento” era a escolha perfeita para estar com ele em palco. A empatia foi imediata.
Numa conversa em inglês, os dois humoristas recordaram alguns dos momentos dos Monty Python e o percurso do autor inglês após o fim do grupo.
Michael Palin considera-se um sortudo [“a lucky bastard”], que nunca levou nem a fama nem a si próprio demasiado a sério. A criatividade do actor inglês não se esgotou com o grupo humorístico. Palin escreveu ficção, literatura de viagens e diários.
Escrever é o que mais gosto, pois é o acto criativo primordial, começou por dizer. Os sketches são mais fáceis de escrever do que livros com 250 páginas.
As viagens são histórias que precisam de ser contadas. Livros como “À Aventura com Hemingway”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias” ou “De Pólo a Pólo” registam essas experiências. É vital que sejam partilhadas com os leitores.
Quando Ricardo Araújo Pereira perguntou se ele não teria que estar casado com uma mulher muito tolerante, devido às ausências em viagem, Palin disse  que ela é mais do que paciente. Ela encoraja-me a partir. Quando volto, ela continua bem. Não perdeu peso, nem está a arranhar as portas com as unhas. Houve uma vez, voltava eu de uma viagem de 10 meses pelo Pacífico, em que encontrei um bilhete a dizer «hoje é noite de jogar “badminton”. O jantar está no forno»”.
Foi em ambiente familiar que encontrou a motivação para começar e manter um diário que hoje dá ao leitor uma ideia mais clara da relação entre os elementos dos Monty Python.
Eu e a minha mulher tínhamos tido o primeiro filho. Eu fumava muito, nessa altura. Quando Tom [filho] queria ir para o meu colo, eu tinha de tirar o cigarro. Ele depois tentava comer o cigarro pousado no cinzeiro. Pensei que fumar e ter crianças não iria e resultar. Parei de fumar
Essa demonstração de força de vontade, que até ali era desconhecida para o próprio, levou-o a concretizar uma ideia antiga. Depois de várias tentativas, Michael Palin decidiu começar um diário. Decorria o dia 16 de Abril de 1969, 3º aniversário de casamento. Está casado há 51 anos e continua a escrever.
É muito diário. É uma grande narrativa
É através desse registo que se pode conhecer melhor a forma de trabalhar dos Monty Python e da relação entre Palin e os seus colegas, especialmente John Cleese.
Segundo Palin, escrever os sketches nas duas primeiras épocas era incrível. Toda a gente contribuía com alguma coisa. Na 3ª época, perceberam que estavam a ficar sem energia. John Cleese queria sair para fazer outros trabalhos.
Em alguns dias era frustrante. Por exemplo, quando John dizia que não queria fazer mais shows, enquanto viajávamos pelo Canadá em tour”.
A animosidade com John Cleese foi sugerida por diversas vezes no desenvolvimento da conversa. Ricardo Araújo Pereira disse que tinha escrito o prefácio para a autobiografia de John Cleese ["Ora, como eu dizia..."] e foi logo interpelado por Michael Palin: Por que fizeste isso? Precisavas de dinheiro?
E enquanto o humorista português fazia uma analogia entre o trabalho dos Monty Python, Chaplin e Seinfeld, Palin apontou para uma enorme traça que esvoaçava sobre Ricardo Araújo Pereira e disse que estavam sob ataque. John Cleese tinha enviado um drone.
Essa animosidade era parte da própria dinâmica do grupo. Palin, sublinhando que gosta de todos os seus colegas, afirmou que os Python eram uma série de felizes acidentes e que Cleese e Graham precisavam muito desse “confronto”. Para ele e para Terry Jones, tinha de haver humor e prazer em fazer o que estavam a fazer. Não tinham a necessidade de Cleese e de Graham em estarem zangados e em serem competitivos.
É por essa razão que Palin é considerado “The nice Python”, sugeriu Ricardo Araújo Pereira.
Eu penso que o enganei, respondeu Palin. Só sou simpático quando comparado com os outros Pythons
Dessa dinâmica criativa surgiram “Papagaio Morto”, “A Canção do Lenhador”, “A Loja dos Queijos” e “Sr. Hitler”, entre outros  sketches, filmes e peças de teatro.
Apesar de nunca terem chegado ao “Top 20” do Reino Unido, o grupo tornou-se um fenómeno mundial que abrange várias gerações. Quando escreviam comédia, tudo era um alvo. Estranhamente ou não, podiam falar de quase tudo através da comédia porque isso não havia sido feito até àquela data. O critério de escolha dependia somente de eles próprios se divertirem com o que produziam.
Como é que hoje “A Vida de Brian” ou “A Canção do Lenhador” seriam recebidos, perguntou Ricardo Araújo Pereira.
É difícil dizer, porque ainda são populares. Ainda são vistos e debatidos. Se alguém poderia escrever algo de novo sobre travestis, transgénero ou religião, eu não tenho a certeza. É um debate interessante. Eu gosto de dizer que o humor ilumina tudo e não há nada demasiado sério que não se possa defender do humor.
No entanto, hoje vê em si mais limitações do que as que viu quando escreveu “A Vida de Brian”:
Quando me perguntam se eu escreveria sobre o Islão da mesma forma, eu digo: De maneira nenhuma! De maneira nenhuma! Existem pessoas perigosas por perto.
No entanto, gostaria de escrever sobre o politicamente correcto, que está a ameaçar o desenvolvimento da comédia

Sobre os grandes assuntos hipoteticamente apontados nos filmes dos Monty Python - Religião, Mitos e História do Reino Unido, Vida- Michael Palin aplicou o humor auto-depreciativo e desvalorizou a importância desses temas. É, sobretudo, sobre o comportamento humano.
Durante uma hora, Ricardo Araújo Pereira dirigiu a conversa com a inteligência que lhe é reconhecida. Um Gato Fedorento entrevistou um Monty Python. Foi muito mais do que um feliz acidente entre dois homens invulgares.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

"As Últimas Testemunhas", de Svetlana Alexievich







Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/as-ultimas-testemunhas-infancias-destruidas-pela-guerra/




Svetlana Alexievich (n. 1948), Prémio Nobel de Literatura 2015, continua a registar a história da União Soviética utilizando as vozes das vítimas. Mais do que uma análise da macroestrutura das condições políticas, ou da exegese biográfica dos protagonistas, a escritora nascida em Minsk dá espaço para as vozes das pessoas se fazerem ouvir. Enquanto o historiador olha para o global, para esses grandes acontecimentos e grandes personagens, Svetlana olha para o pormenor, para o aldeão, para a criança, olha para quem a tragédia foi muito mais do que algo abstracto.
“As Últimas Testemunhas - cem histórias sem infância” (Elsinore; trad. Galina Mitrakhovich) mantém a estrutura de livros como “Vozes de Chernobyl”, “Rapazes de Zinco”, ou “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”.
O combate do exército soviético no Afeganistão, entre 1979 e 1989, foi o “leitmotiv” de “Rapazes de Zinco”.
A Segunda Guerra Mundial é analisada em dois livros complementares. Depois da publicação da perspectiva feminina sobre a Segunda Guerra Mundial, surgem os testemunhos de quem era criança quando a Alemanha invadiu a União Soviética, em 1941.
A “Operação Barbarossa” consistiu na invasão do território da URSS pela Alemanha. Hitler procurou destruir o exército soviético, eliminar a ameaça comunista, aniquilar os judeus, e conquistar território importante para cumprir o seu objectivo expansionista. Ao aplicar a Directiva 21 (ou “Operação Barbarossa”) Hitler quebrou o pacto Molotov-Ribbentrop, que assegurava a não-agressão entre tropas soviéticas e alemãs. Foi uma das maiores operações militares organizadas e executadas por Adolf Hitler.
O contexto vai sendo conhecido de forma imprecisa e sentimental. A polifonia dá um mosaico narrativo. É mais sobre como as crianças interpretaram os acontecimentos do que uma investigação factual e diacrónica. “As Últimas Testemunhas” é um livro sobre pessoas e de como estas viveram e interpretaram aqueles momentos horrendos. Esses testemunhos são registados com muitas das inerentes marcas da oralidade, ou seja, pausas acentuadas, pensamentos interrompidos e até intercalados, narração fragmentada. A dor - e o humor como mecanismo de defesa - está sempre presente. Nesses 101 testemunhos, há morte.  Crianças ficam sem pais, sem irmãos, sem casa, sem vizinhos. Ficam sem inocência.
As casas são destruídas, os orfanatos recebem milhares de crianças desamparadas. Mas até no horror há o belo. As palavras destas pessoas, actualmente pertencentes a tão diferentes extractos sociais, alcançam a beleza da mais excelsa literatura.
Um dos elementos mais intrigantes de qualquer texto literário é a identificação do autor.
A mediação que Svetlana Alexievich faz entre os testemunhos e o leitor é suficiente para podermos caracterizar os seus livros como Literatura e a escritora como autora?
A pergunta é polémica e até radical, mas não é nova.
Ao longo da evolução da Teoria da Literatura, o papel do autor foi sendo modulado.  Wayne Booth (“The rhetoric of fiction”) fala em autor implícito (um segundo “eu”) e autor real (o autor como sujeito empírico e histórico). Vítor Aguiar e Silva identifica outras designações, como autor abstracto (em vez de autor implícito) e autor concreto (em vez de autor real).
Em “Teoria da Literatura”, Aguiar e Silva explica os conceitos bipartidos e tripartidos nas teorias sobre o papel do autor, defendidos por Mukarovsky, Bonati, Culler, Vand Dijk e Dolezel, para depois acrescentar a sua preferência. A divisão proposta por Aguiar e Silva ajuda-nos a entender a importância de Svetlana Alexievich na construção do texto literário.
Segundo o ensaísta português, a divisão mais correcta é a de “autor empírico”, que possui existência como ser biológico e jurídico-social, e “autor textual”, que existe no âmbito de determinado texto literário.  O autor textual é o emissor que assume a enunciação do texto literário, estando oculto ou explicitamente presente nesse texto.
“Com efeito, se existem textos em que o eu do autor textual está explicitamente representado e afirmado - assim acontece em numerosos textos líricos, em muitos textos narrativos e em raros textos dramáticos -, noutros textos - em quase todos os textos dramáticos, em numerosos textos narrativos e também em muitos textos líricos -, o autor textual está como que ausente ou oculto, como se fosse um eu de “grau zero”.
Barthes afirma que o autor literário (écrivain) trabalha a palavra  sob dois tipos de normas: técnicas (de composição, de género, de escrita) e artesanais (trabalho, paciência, correcção). Em muito se difere do escrevente, para quem a palavra suporta o meio, mas não o constitui. O escrevente é transitivo e postula um fim, como o testemunho.
A voz da autora oculta-se do texto em benefício das vozes das personagens reais.
A escolha das partes mais importantes das muitas horas de conversa, a escolha dos entrevistados a constar no livro, a ordem  dos seus testemunhos são da responsabilidade da escritora.
“As Últimas Testemunhas - cem histórias sem infância “ traz-nos o horror contado pelas crianças que têm a responsabilidade de, agora, serem as últimas testemunhas dessa invasão concretizada pelas tropas alemãs.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Octaedro, de Julio Cortazar




Orientar o leitor até ao sentido, dispensando o esforço de quem recebe o texto, é algo rejeitado por escritores como Jorge Luis Borges, ou Edgar Allan Poe. Julio Cortázar (1914-1984), influenciado por estes dois escritores, construiu narrativas que exigem do leitor redobrada atenção. O escritor argentino dá liberdade e pede responsabilidade, num jogo literário que depende da participação de quem decide caminhar por esta teia construída de forma exemplar. A Cavalo de Ferro continua a publicar a obra do autor de O jogo do mundo – Rayuela. Surge agora um dos últimos livros do escritor, Octaedro, publicado em 1974, mas inédito em Portugal até agora.

Octaedro é composto por oito narrativas breves em pouco mais de cem páginas, e são mais do que suficientes para o autor demonstrar a mestria ao alcance de muito poucos. A utilização de diferentes recursos estilísticos revela a capacidade do escritor argentino para contar uma história de várias formas.

A construção temporal de Liliana a Chamar é arrojada e bem-sucedida. Nesta narrativa, um homem está na antecâmara do grande sono. Nos instantes finais da sua vida, ele conta o que virá a acontecer depois da sua morte. A sua imaginação permite-lhe criar a história – com a utilização de tempos verbais como o futuro imperfeito, o condicional e o infinitivo – ainda antes de ela acontecer. O leitor não tem algo contado em media res, mas antes numa possibilidade por concretizar.



Cada conto cria um espaço próprio (o conto Aí mas onde, como é dos mais dúbios e radicais). O corte com o expectável abre uma porta para uma nova realidade, e é aí que as personagens se aproximam ou se afastam. Em boa verdade, existem várias realidades em cada conto. A tensão existente provém da clivagem entre interpretações das diferentes personagens do que vai acontecendo. Em Lugar chamado Kindberg essa clivagem provoca muita tensão não só entre os pontos de vista das personagens, mas também com o leitor. A interpretação nunca é unívoca.

Cortázar não se limita a replicar na literatura o tempo, falsamente linear. Ele introduz elementos inesperados, fantásticos, que impelem as personagens a reagir de forma diferente. Em Verão, por exemplo, uma menina provoca alterações na rotina de um casal. Mariano, o marido de Zulma, vê os rituais como uma “resposta à morte e ao vazio, fixar as coisas e os tempos, estabelecer ritos e passagens contra a desordem cheia de buracos e manchas”.

Um jogo de reflexos instalou a dúvida e o medo, rompendo com a previsibilidade diária. Um cavalo lá fora? O interior reflectido no vidro? O que representa este cavalo? A cena que sugere uma violação significa que algo os invadiu. Ela, dominada pelo medo; ele, a representação da ameaça. Tudo termina com a chegada da manhã.



Jean Chevalier, em “Diccionario de los simbolos”, afirma que o “cavalo”, como arquétipo presente na memória dos povos, “es portador a la vez de muerte y de vida, ligado al fuego, destructor y triunfador, y al agua, alimentadora y asfixiante.”
Entre as muitas possibilidades de significação, Chevalier afirma também que, ao amanhecer, “el caballo, siguiendo este  proceso, abandona sus oscuridades originales para elevarse hasta los cielos, en plena luz.” O desejo impetuoso desaparece com a chegada da luz.

Cortázar procura a colaboração do leitor. A dubiedade das palavras dos personagens, das suas posturas e da própria história introduzem variáveis que levam a múltiplas interpretações. Em As fases de Severo, talvez mais do que nos outros contos, o escritor argentino elimina as respostas a “como?”, “o quê?” e “porquê?”, mantendo o leitor em suspense e as possibilidades em aberto. O não entendimento daquele ritual e toda a simbologia cria uma ruptura com o expectável. O que estão a fazer?; porquê? Os contos de Cortázar são poliédricos, têm várias faces, tantas ou mais que as de um octaedro. E são, por vezes, analíticos do próprio jogo literário.

Os passos nas pegadas tem essa componente, ao constituir-se como uma história sobre um crítico ultrapassado pelo repórter de moda, crítico de coluna e escribas do momento. A erudição académica de Jorge Fraga foi relegada pela imediatez do consumo de textos com asserções parcamente fundamentadas. O seu conhecimento é de tal profundidade que acontece o fenómeno de interinfluência com Claudio Romero, sobre quem estuda a vida e a obra. Ele vive a vida do poeta tal qual ela não foi vivida, ou seja, os espaços em falta são preenchidos com os seus desejos, projecções e imaginação formando, desta forma, uma “vida paralela” fora do factual. A conjugação de várias interpretações constrói uma visão mais alargada e completa do indivíduo em estudo. Claudio Romero é muito mais do que dados recolhidos nos poucos estudos conhecidos. Ele é composto pelas diferentes vidas vistas por diversas pessoas com quem ele confraternizou. Tudo muda quando Fraga, já depois de ter contribuído para formalizar uma imagem icónica através da publicação de um livro com muito sucesso sobre Romero, percebe que a versão consagrada é enferma de parcialidade e erros grosseiros.

“Atingia agora o estado mais profundo da sua identificação com Claudio Romero, que nada tinha a ver com o sobrenatural. Irmãos na farsa, na mentira esperançosa por uma ascensão fulgurante, irmãos na queda brutal que os fulminava e destruía.”

A escrita sobre a captura do efémero através do jogo literário chega à excelência em Manuscrito encontrado no bolso. Este conto, um dos melhores do livro, tem uma realidade e um tempo próprio. “O jogo”, como lhe chama o narrador, tem regras “belas, estúpidas e tirânicas”. Na carruagem do metro, ele explica:

“ (…) se gostava de uma mulher sentada à minha frente junto à janela, se o seu reflexo na janela cruzava olhares com o meu reflexo na janela, se o meu sorriso no reflexo da janela perturbava ou agradava ou repelia o reflexo da mulher na janela, se Margrit me via sorrir e então Ana baixava a cabeça e começava a examinar detalhadamente o fecho da sua mala vermelha, então havia jogo (…)”

Cada estação de metro multiplica as possibilidades. O espaço e tempo subterrâneos, em que todos coincidem, exponenciam-se pelo número de saídas, ruas e pessoas. (Este espaço viria a ser importante, também, em Pescoço de gatinho preto, conto que encerra o livro.)

O autor de livros como Todos os fogos o fogo ou Gostamos tanto da Glenda não ilumina o “punto ciego”. Ele cria-o.
Octaedro não se deixa compreender numa só leitura. Cortázar é absolutamente brilhante.

José Pacheco Pereira: “Se alguém quiser ser racista, fascista ou qualquer outra variante com certeza de que tem direito a falar”


José Pacheco Pereira esteve no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos a falar sobre “Liberdade de Expressão e o politicamente correcto”, na passada sexta-feira.

Em “Direito a Ofender”, Mick Hume defende incondicionalmente a liberdade de expressão. O livro publicado pela Tinta-da-China contribui para um debate cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O medo de ofender tem imposto um policiamento da palavra. Entrar no politicamente incorrecto pode hipotecar a carreira de um escritor, político, ou jornalista.
No Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos, a Tinta-da- China, parceira nesta edição, programou várias actividades em que o politicamente correcto foi assunto desenvolvido.

Pacheco Pereira tem sido um dos mais severos críticos das redes sociais, além de ter vindo a alertar para o condicionamento do debate público. No jardim da “Casa Tinta-da-China”, o responsável pela “Ephemera” falou sobre a questão política da Catalunha, sobre Trump e principalmente sobre o discurso politicamente correcto. Numa conversa em que Abel Barros Baptista e Bárbara Bulhosa (editora da Tinta-da-China) também participaram, Pacheco Pereira afirmou que “ nos Estados Unidos um princípio básico de liberdade é o de que a opinião pode ser muito ofensiva mas [a pessoa] tem direito. [A Constituição] defende a possibilidade de ela existir“

Foi por causa de obras de arte blasfemas e de panfletos que se criou um direito para a liberdade de expressão. A possibilidade de se defender ideias racistas ou de supremacias brancas faz parte do tecido social norte-americano e da própria tradição. É uma possibilidade que nos defende mesmo que detestemos o que se escreve, de acordo com Pacheco Pereira
A intolerância levou a que hoje já não existam anedotas, segundo Abel Barros Baptista. A ditadura do correcto tem limitado ou eliminado a liberdade de uma pessoa se exprimir de uma forma que até pode ser de mau gosto.
O limite da liberdade de expressão existe, para Pacheco Pereira, quando alguém calunia . Se alguém afirma que determinada pessoa roubou algo, isso pode ser uma calúnia, ou seja, um crime.

“Bem sei que há casos em que a fronteira é difícil de definir, mas a calúnia e o insulto estão tipificados e não têm a ver com a substância da liberdade de expressão nem em bom rigor têm a ver com o politicamente correcto. A tentativa de criminalizar o politicamente incorrecto é absolutamente inaceitável. Aliás, eu acho que na Constituição Portuguesa, a proibição do discurso fascista, do meu ponto de vista, também é inaceitável.”

O acto é diferente e não tem a ver com liberdade de expressão.

“Se alguém quiser ser racista, fascista ou qualquer outra variante com certeza de que tem direito a falar. Tem direito a ser homofóbico, tem direito a ser misógino. O crime é quando se ultrapassou a fronteira da liberdade de expressão para cometer um acto que a lei certifica como crime. Esses actos são punidos na legislação.”

O constante policiamento está pressionar a possibilidade de opiniões minoritárias ocuparem espaço no debate público. A sociedade actual limita cada vez mais a pluralidade de opiniões sobre temas considerados “sensíveis”.
A ascensão de uma censura pelo politicamente correcto no debate público é absolutamente inaceitável para Pacheco Pereira.

“O burburinho que se dá nas redes sociais é uma manifestação da pobreza do nosso debate público. As redes sociais são hoje o sítio onde o pior do debate público estacionou. São contra a sabedoria, são a favor da ignorância. (…) Não é o novo espaço público. É a cedência às pessoas que vivem no facebook ou que vivem o dia todo nas redes sociais. É um recuo civilizacional em muitos aspectos.”

Bárbara Bulhosa perguntou se a rede social, como o facebook, é ou não democrática.

“Não é democrática. É demagógica”, respondeu Pacheco Pereira. “A demagogia e a democracia são muito parecidas. Ambas têm a ver com a opinião comum. Só que há uma pequena diferença: são as mediações. A democracia tem mediações, seja o tempo de mediação, o saber, uma hierarquia, o conhecimento constitucional. O que nós assistimos é uma falência das pessoas que tinham obrigação de não ceder e que cedem, a começar pelos jornalistas.”

Fotografia de: Rui Oliveira / Global Imagens

Texto publicado na Comunidade Cultura e Arte: https://www.comunidadeculturaearte.com/jose-pacheco-pereira-se-alguem-quiser-ser-racista-fascista-ou-qualquer-outra-variante-com-certeza-de-que-tem-direito-a-falar/

Entrevista a Hugo Maia, tradutor de ‘As Mil e Uma Noites’




Entrevista a Hugo Maia, tradutor de ‘As Mil e Uma Noites’

A Livraria de Santiago, outrora uma igreja, recebeu o tradutor de uma das mais importantes obras em árabe.  Hugo Maia esteve no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos para dar uma conferência sobre “as mil e uma noites – o conto oral como forma de resistência popular”.
A Comunidade Cultura e Arte conversou com o tradutor sobre as dificuldades na tradução de “As Mil e Uma Noites” (E-Primatur).

Qual o motivo para uma nova tradução de “ As Mil e Uma Noites”?

Em Portugal, não é só uma nova tradução. No caso especificamente português, é a primeira tradução directamente do árabe. Todas as traduções têm sido feitas do francês, baseadas na versão do Antoine Galland [1646-1715] e da do Mardrus [1868 –1949]. Há edições que foram feitas cá há várias décadas que combinam as duas, resultando numa outra versão. É preciso ter em conta que a versão do Antoine Galland tem certas particularidades. Por um lado, ele traduziu o mesmo manuscrito que eu traduzi, que é o mais antigo que se conhece das “Mil e Uma Noites”, só que traduziu de uma forma completamente diferente do que está lá no manuscrito. Por exemplo, todas as partes eróticas foram alteradas. No conto das três moças de Bagdade e do carregador, há uma orgia com vinho e comida. Para Galland, é uma espécie de jantar romântico à luz das velas. Antoine Galland inventou uma série de coisas que não enriquecem nada a história e alterou significativamente outras partes.
A versão do Mardrus é muito engraçada porque apareceu, salvo erro, no início do século XX e supostamente é a tradução de um manuscrito da Tunísia, que foi anunciado na altura como o verdadeiro manuscrito de “As Mil e Uma Noites”; verdadeiro e completo, pois tinha de facto mil e uma noites. Mais tarde provou-se ser um manuscrito forjado em Paris por um intelectual sírio e um orientalista e que muitos dos contos que lá figuram, nomeadamente as tais histórias órfãs, são traduções do francês para árabe.

Como é que fixou o texto definitivo nesta edição da E-Primatur, uma vez que há esses contos órfãos?

A ideia sobre esta edição foi pegar no manuscrito mais antigo porque este continua a ser muito ignorado. O do Mardrus baseia-se neste manuscrito, mas já com muitas alterações, partes que foram resumidas, noites exageradamente longas. As histórias com aquele comprimento seriam pouco práticas. No manuscrito mais antigo os contos são mais curtos curtos, correspondem a uma tradição oral de contar histórias em cafés, mercados e outros espaços públicos. A língua não é a língua das “belles-lettres”. Tem muito mais a ver com o espírito com o que “As Mil e Uma Noites” terão aparecido. Não sabemos exactamente quando apareceram, mas talvez tenha sido no século XII, XIII ou XIV.
No século XV é certo que havia um conjunto de histórias contadas pelos contadores de histórias numa língua que os intelectuais da altura desprezavam, pois eram contadas num árabe coloquial.



Nesse episódio do carregador,os vernáculos são constantes. Nos vários textos, há diferentes níveis de língua?

Há, porque os textos mais tardios começam a ter um árabe mais apurado. A primeira edição impressa em árabe, em 1835, já inclui contos que sabemos terem sido traduzidos do francês para árabe. Já não está feito na língua coloquial, está feito na língua das “Belles-Lettre”, que pretende imitar as expressões coloquiais mas que está longe da coloquialidade. Por todas estas razões, decidiu-se que esta era a edição mais curiosa por causa da riqueza da língua. Nós pensamos em “As Mil e Uma Noites” como um livro, mas não era um livro; era uma sebenta usada pelos contadores de histórias. Eles alugavam estas sebentas para se contar histórias. Por sua vez, muitas destas sebentas eram redigidas por outros contadores, ou por alguém ao invés deles quando eram analfabetos.

É um autor colectivo?

Sim, nós podemos ver que há histórias que são muito árabes e outras que têm indícios de terem vindo de outros países, como Índia ou China. Todas as pessoas que estudam a literatura oral sabem que as histórias passam muito facilmente de um lado para o outro.

Afinal, quantos contos e quantas noites é que são?

É uma questão muito interessante. Nós não sabemos quantas noites seriam, realmente. Há estudiosos e especialistas que defendem que o número é meramente simbólico, mas também há quem diga que teriam mil e uma noites.
Os manuscritos mais antigos não tinham mil e uma noites. No entanto, sabemos que estavam incompletos.
A última história aparece cortada a meio. Nesta edição da E-Primatur, para completar a segunda história fui buscar um outro manuscrito posterior da tradição egípcia, só para satisfazer o leitor e ter a conclusão da história.

Isso é mencionado na tradução?

Sim, é mencionado e a escolha é justificada. Só começa a haver versões com mil e uma noites a partir do século XIX. Todas estas versões já têm muito de influência orientalista e europeia. “As Mil e Uma Noites” terão passado de moda talvez no século XVI/XVII. Antoine Galland e todo o fascínio dos orientalistas ressuscitaram o interesse nestas histórias. Houve a necessidade de encontrar a versão original e integral. Não passou pela cabeça de ninguém que, provavelmente, aquilo seria um número meramente simbólico. Por outro lado é preciso ver que quando aparecem as primeiras versões mais longas com quinhentas, seiscentas e mesmo com mil e uma noites- incluindo a primeira edição impressão do mundo árabe em 1835- há nessas versões histórias muito antigas que talvez tenham feito parte de “As Mil e Uma Noites” e se tenham mantido nalgumas tradições orais como histórias de “As Mil e Uma Noites”. Talvez não fosse um conjunto de histórias tão bem estabelecido quanto isso e cada um dos contadores acrescentasse as suas próprias histórias.



Quanto tempo é que demorou a traduzir?

O primeiro volume demorou cerca de dois anos. Não foi tempo só investido na tradução. Foi também um trabalho que obrigou a uma investigação muito profunda. Houve uma série de circunstâncias históricas para apurar como é que o texto evoluiu historicamente, exigiu-me a leitura paralela de muitos livros e obrigou-me também a encontrar um registo da língua portuguesa que, de certa forma, simulasse o registo que aparece no texto em árabe.

Perdeu-se muito na tradução do árabe para o português?

Há sempre coisas que se perdem, infelizmente. Posso dar alguns exemplos: nessa história das três moças, aparece a palavra “grelo”. Em primeiro lugar, a palavra “grelo” é calão para clítoris. Muitas vezes, as pessoas não têm essa noção. Se formos aos dicionários, como o do Houaiss e o do Academia das Ciências, a palavra “grelo” aparece como vernáculo para clítoris. Hoje em dia, as pessoas dão outro sentido. Algumas pensam que são os pêlos púbicos, outras julgam que é a vagina.  Qual é a palavra em árabe, afinal? É uma palavra que significa abelha. Se traduzisse por “abelha”, o sentido perdia-se. Eu só tinha duas grandes opções: a palavra “grelo”, com o risco de pessoas mais novas darem outro significado à palavra, ou “berbigão”, que é mais usada no sul como vernáculo para clítoris.

Quantos volumes terá esta edição?

Vão ser dois volumes.

O segundo terá um posfácio?

Só um pequeno posfácio sobre algumas coisas que não ficaram evidentes no preâmbulo.

Sai este ano?

Sai no próximo ano.

Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/entrevista-a-hugo-maia-tradutor-de-as-mil-e-uma-noites/

   

Fólio 2017: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”



O diálogo entre Laurent Binet e Anabela Mota Ribeiro aconteceu, realmente, na noite de 4ª feira, no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. A 16ª mesa programada para o festival foi moderada pela jornalista Isabel Lucas, no Auditório Praça da Criatividade
Não raras vezes, excelentes escritores não são bons intervenientes em mesas de debate. Anabela Mota Ribeiro e Isabel Lucas permitiam ao público alguma segurança sobre a riqueza de conteúdo e a competência em comunicá-lo. E Laurent Binet? O Prémio Goncourt surpreendeu com um discurso desenvolto, ideias claras e interessantes sobre o tema da mesa: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar
Uma mesa de debate serve também para criar ou aumentar a vontade de o leitor se aproximar da obra de um autor. A capacidade de comunicação deLaurent Binet e o seu conhecimento sobre literatura fizeram com que “HHhH” (Sextante) e “A Sétima função da linguagem” (Quetzal) se tornassem mais próximos das escolhas dos leitores.
Depois de uma breve introdução da jornalista Isabel LucasAnabela Mota Ribeiro chamou à conversa um outro “convidado”. Machado de Assis, por quem nutre um entusiasmo e conhecimento invulgares, serviu de exemplo para demonstrar o contínuo e profícuo jogo entre realidade e ficção.
A flor amarela” (Quetzal), ensaio escrito pela jornalista sobre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, serviu de ponto de partida para a conversa.
Anabela Mota Ribeiro contou como vários pontos se ligam entre realidade e a ficção. Brás Cubas nasceu no mesmo dia que a jornalista. A esposa do protagonista morreu no mesmo dia em que ambos nasceram. Sendo Brás Cubas um personagem fictício, não deixa de ser interessante constatar que existiu de facto um Brás Cubas. No Porto existe uma rua, que a jornalista visitou no dia de um seu aniversário, nomeada de Brás Cubas, indivíduo que fundou uma cidade brasileira no século XIX.
Ele ajuda-me a pensar sobre mim”, afirmou Anabela Mota Ribeiro. E deixou ainda algumas perguntas: Qual é o papel da escrita na relação que temos como o impossível? Qual é o poder da escrita?
O autor francês contou ao público que não gosta da palavra “Verdade”. No entanto, não se pode deixar de identificar a diferença entre realidade e ficção.
A noção de realidade passa pelo prisma pessoal da sensibilidade individual, mas isto não significa que não exista um núcleo real.
A ficção pode ser utilizada abusivamente. Não se pode partir do princípio de que tudo é ficção por haver uma interpretação individual. O caso de Auschwitz é um exemplo. Para os judeus, foi horrível e real.
O autor de “HHhH” gosta que a ficção brinque com a realidade sem a tentar substituir. É uma hipótese que é colocada, sem vínculos com a mentira ou a verdade.
A ideia de que a ficção pretende substituir a realidade trouxe vários problemas ao autor quando publicou “A sétima função da linguagem”, livro que põe a hipótese ficcional de o atropelamento mortal de Roland Barthes ter sido intencional e, como tal, um assassínio.
Laurent BinetAnabela Mota Ribeiro e Isabel Lucas, que ainda falou um pouco do seu livro “Viagem ao Sonho Americano” (Companhia das Letras), protagonizaram um excelente momento na 3ª edição do Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A Escritaria de Miguel Sousa Tavares




Penafiel e Miguel Sousa Tavares, um amor correspondido


Penafiel festejou entre 16 e 22 de Outubro o 10º aniversário da Escritaria e a vida e obra de Miguel Sousa Tavares.
Música, Arte de Rua, Teatro, Sessões de Autógrafos, Feira do Livro, Arruada, Entrevista e Conferência juntaram muitos admiradores do autor de “Rio das Flores” e “Equador”
Em Coimbra, bem mais de uma hora depois de o Alfa Pendular sair de Lisboa, a chuva deslizou pela janela. Lá fora, a destruição dos últimos dias. Árvores e vegetação carbonizadas, terra negra com pequenas colunas fumegantes, um cheiro intenso a queimado, e aquela chuva, sarcástica e atrasada, a molhar as cinzas.
Até Aveiro, o cenário foi similar ao de “A Estrada”, de Cormac McCarthy. O fim do mundo para quem vive ali, um horror higienizado pela distância para quem assistiu pela televisão. O país ardeu, animais e pessoas morreram queimadas. De Aveiro ao Porto, a terra foi recuperando a sua vitalidade.
Falar de literatura, ou de qualquer arte, parece irrelevante. Mas debaixo daquelas cinzas, como do silêncio, já algo brota. E se a chuva não apagou, agora está para fazer nascer. A terra regenera-se. Infelizmente, a dor também. Não há água que retire essa sujidade. Mas o homem arranca sempre algo novo do vazio. A literatura tem excepcionais exemplos. Um deles é a Escritaria, em Penafiel. Começou com a homenagem a Urbano Tavares Rodrigues. Seguiram-se José Saramago, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Mia Couto, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira. Miguel Sousa Tavares é o mais recente homenageado pela cidade literária de Penafiel.

Texto Completo: http://www.comunidadeculturaearte.com/penafiel-e-miguel-sousa-tavares-um-amor-correspondido/





terça-feira, 14 de novembro de 2017

Folio: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”. A mentira como acto criativo



“Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”. A mentira como acto criativo



O diálogo entre Laurent Binet e Anabela Mota Ribeiro aconteceu, realmente, na noite de 4ª feira, no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. A 16ª mesa programada para o festival foi moderada pela jornalista Isabel Lucas, no Auditório Praça da Criatividade.
Não raras vezes, excelentes escritores não são bons intervenientes em mesas de debate. Anabela Mota Ribeiro e Isabel Lucas permitiam ao público alguma segurança sobre a riqueza de conteúdo e a competência em comunicá-lo. E Laurent Binet? O Prémio Goncourt surpreendeu com um discurso desenvolto, ideias claras e interessantes sobre o tema da mesa: “Realidade ou Ficção. As histórias em que queremos acreditar”
Uma mesa de debate serve também para criar ou aumentar a vontade de o leitor se aproximar da obra de um autor. A capacidade de comunicação de Laurent Binet e o seu conhecimento sobre literatura fizeram com que “HHhH” (Sextante) e “A Sétima função da linguagem” (Quetzal) se tornassem mais próximos das escolhas dos leitores.






quarta-feira, 8 de novembro de 2017

‘O Diário de Anne Frank’ em banda desenhada





Uma menina de estrutura frágil, aconselhada a não fazer exercício físico na escola por os ombros e as ancas se deslocarem facilmente, foi obrigada a fugir da Alemanha para Amesterdão. Pouco tempo depois, a Alemanha invadiu a Holanda e e ela foi forçada a esconder-se num anexo durante quase dois anos. A perseguição dos nazis aos judeus, obrigou-a a conviver no mesmo exíguo espaço com Margot Frank (irmã), Otto Frank (pai), Edith Frank (mãe), A família Van Pels- composta por Herman Van Pels (marido), Augusta van Pels (esposa), Peter van Pels (filho)- e Fritz Pfeffer, o dentista. Ela viria a ser capturada e enviada para o campo de concentração em Bergen-Belsen. Resistiu cerca de sete meses, entre Agosto de 1944 e Março de 1945, até o tifo provocar a sua morte. O seu nome era Annelies Marie Frank; o seu diário é conhecido por milhões de leitores.

Texto Completo em: http://www.comunidadeculturaearte.com/o-diario-de-anne-frank-em-banda-desenhada-uma-nova-forma-de-conhecer-anne-frank/




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde, em entrevista




Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde, em entrevista

Morabeza. Assim se chama a Festa do Livro que acontecerá em Cabo Verde, entre 30 de Outubro e 5 de Novembro. O Palácio da Cultura da cidade da Praia será o principal local onde decorrerá, segundo a organização, o "maior evento literário dos PALOP". Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde, esteve em Lisboa e conversou com a Comunidade Cultura e Arte sobre a 1ª edição da Morabeza - Festa do Livro.

Por quê criar um evento literário em Cabo Verde?

Estamos a tentar reavivar o papel da Biblioteca Nacional. Ao entrar como titular da pasta da Cultura, observei que já não havia edições da parte do Estado.
Num país como Cabo Verde, com um mercado muito exíguo, o Estado deve continuar a estar presente e a incentivar o sector das edições, assim como as outras secções da cultura. Queremos que o Morabeza seja o “clique” para reactivar toda a dinâmica da cultura em Cabo Verde, não só para a reedição dos clássicos cabo-verdianos mas também para encontrar novos valores. O meio literário cristaliza-se facilmente. Quando se tem quatro ou cinco nomes consagrados, eles é que fazem a festa toda. Eles é que vão às conferências internacionais, aos festivais…

Há mais de vinte anos que não desponta no panorama cabo-verdiano um novo nome. Os novos estão consolidados: Germano de Almeida, Vera Duarte, Filinto Elísio, José Luiz Tavares. Mesmo o Joaquim Arena, que tem dois romances fantásticos, acaba por não despontar. O Morabeza pretende mostrar que é preciso uma política pública de incentivo à cultura. Acredito que o Estado tem de estar por dentro do sector da cultura. É claro que os privados têm as suas iniciativas, mas essas iniciativas visam o lucro  -  e isto aqui não é uma oposição entre capitalismo e socialismo ou “esquerda” e “direita”. Nós, como Estado, temos a obrigação de criar linhas de políticas públicas que incentivem eventos com qualidade. Essa é a ideia do Morabeza.




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