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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Pepetela na Escritaria: “a ideia de livro está em risco”



A 11.ª edição da Escritaria homenageou o escritor angolano Pepetela. A cidade de Penafiel reuniu-se no reconhecimento da vida e obra de um dos mais importantes escritores lusófonos.
Entre os muitos festivais literários portugueses, a Escritaria destaca-se pela sua singularidade. Em detrimento do tradicional tema, sobre o qual diversos autores convidados se detêm, um só autor concentra toda a atenção do público e da organização.
Todos os anos, a cidade de Penafiel marca no seu corpo a figura e as palavras de um homenageado. Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio, Alice Vieira e Miguel Sousa Tavares, foi a vez do autor de “A Geração da Utopia” ver como uma cidade se entrega em agradecimento às muitas horas dedicadas à escrita.
De 01 a 07 de Outubro, Penafiel consagrou a obra de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, mais conhecido como Pepetela.
Conferências, entrevistas, apresentação do seu novo livro, encontro com alunos do secundário, exposições, arte pública, decorações nas lojas, dramatizações de excertos de livros compuseram um pan-óptico sobre a obra do escritor angolano vencedor do Prémio Camões em 1997.
Depois do descerramento da silhueta e da frase, no dia 03, e do recital e de visita a uma escola, no dia 04 (os dois primeiros dias foram preenchidos por atividades paralelas), o jornalista Fernando Alves conversou com o escritor no Museu Municipal de Penafiel, já caía a tarde do antepenúltimo dia da Escritaria.


Não se viam desde que conversaram noutro festival, na Madeira, em 2017. Recomeçaram como se tivessem interrompido a conversa há cinco minutos, num café ali ao lado, tal a evidente empatia entre ambos.
“É esmagador”, começou por dizer Pepetela, sobre a receção da cidade.
Fotos nas montras, por vezes entre cuecas e sutiãs, placards, caixotes, grafites, azulejos com a imagem do autor, folhetos, instalações. Toda a cidade se envolve na celebração. “Parece que toda a gente me conhece”, afirmou.
A silhueta em ferro, da autoria da escultora Rita Melo, fica na praça da Escritaria, perto da silhueta de Mário Cláudio e da frase de Mário de Carvalho. Quem olha para a silhueta de Pepetela vê, como ponto de fuga, o Sameiro. A sua frase fica a dois passos:
“A transferência de conhecimentos, ideias e emoções através dos livros devia ser eterna, mas está em risco”
“Há pessimismo nessa frase”, perguntou Fernando Alves
“A ideia de livro está em risco. Há menos edição, as pessoas compram menos, leem menos. Há outras formas de entretenimento e de educação. É possível que o livro seja substituído por outra coisa qualquer. Admito que acabem as livrarias.”
Em consequência, tem-se visto a substituição do conhecimento pela acumulação de informação. “A informação é cada vez mais superficial”, afirmou Pepetela. O livro implica disponibilidade e tempo.
“Já não há tempo para os cágados, já não há tempo para a sabedoria”.
De Penafiel viajou-se para Benguela, cidade de origem de Pepetela e afetiva de Fernando Alves. Benguela é personagem e substrato na obra do escritor angolano. Cidade de personagens ímpares, como um poeta de fato e gravata andando de bicicleta que parava para recitar poemas. Fernando Alves e Pepetela caminharam em território conhecido, comum.
Penafiel e Benguela ficam agora ligadas na vida de um autor essencial na literatura lusófona. E foi sempre nesta viagem emocional, entre Angola e Portugal, ou mesmo entre África e Europa que a conversa se desenvolveu.



Segundo Pepetela, África está a encerrar um ciclo. Há menos guerras e começa a haver países que são exemplares na governação. Apesar da África do Sul, que tem um problema mal resolvido com a distribuição de terras. Com o aumento da população ainda ficou mais difícil redistribuir. Isso cria tensões. Parece que África e, particularmente, Angola estão em contraciclo com a Europa e com os Estados Unidos. A democracia consolida-se no continente africano enquanto parece desmembrar-se onde estava consolidada. Essa evolução de Angola está espelhada na extensa, diversificada e sempre em expansão obra do escritor angolano.
“Sua Excelência de corpo presente”, o seu mais recente livro, incide sobre o fim do ciclo antes da normalização política.
“Quando não sacudimos as figuras dos ditadores, eles estão constantemente a voltar”. Este novo livro está a suscitar discussões porque estão a colar as personagens a pessoas reais.
A primeira pessoa a ler algumas palavras do livro não foi um amigo, a editora ou um revisor. Foi uma menina de sete anos. A neta ficava a ver os livros no escritório do autor e observava-o a escrever. Admirava-se com tantos livros. Perguntou-lhe se tinha escrito aquilo tudo. Como fazes, perguntou. Anda cá ver, respondeu Pepetela. Sentou-se ao colo e leu. Foi a primeira leitora. Simbólico. Uma menina lê a história de um ditador falecido em tempos de mudança de regime no país.
“Os livros de Pepetela têm sempre uma arma apontada ao leitor, que é a do riso, é a do sarcasmo”, disse o jornalista da TSF.
Este livro foi o mais difícil de escrever por causa da idade, por causa da memória. Voltou a escrever de pé, por causa das dores nas costas.
Para o dia seguinte ficou programada a conferência sobre a obra do autor, em que participaram o jornalista José Carlos Vasconcelos, o escritor Ondjaki, a professora universitária Inocência Mata, o homenageado e o Presidente da Câmara de Penafiel Antonino de Sousa.
Num tom académico, Inocência Mata contextualizou a obra com a vida do autor.
Segundo a professora universitária, o autor convoca a experiência e a vivência para a sua escrita, indo além do individual. Pepetela traça as características de várias gerações. Quase obra a obra, foi feita a ligação entre o texto literário e a vida do autor, com inevitáveis ligações a questões sociopolíticas de Angola. Um discurso com um conteúdo coerente com o que foi conversado entre Fernando Alves e Pepetela, no dia anterior.
Para Ondjaki, Pepetela ultrapassou as fronteiras da sua cidade e do seu país.
Numa intervenção mais afetiva, Ondjaki afirmou que Pepetela e outros escritores são intervenientes importantes no caminho para este novo tempo em Angola. Eles são também os fazedores da paz. Mesmo quando andaram em guerra era para fazer a paz e não para refazer e manter a guerra. Semearam paz. Eles ainda eram crianças quando lhes caiu um país nas mãos. Eles prepararam o barro para que outras pessoas o moldassem.
A aceitação do futuro é a aceitação da passagem do testemunho. Dar o espaço, colaborando com os jovens, em simultâneo com a própria retirada. É um orgulho para Ondjaki ter estado perto dessa caminhada.

Cada vez é mais difícil para José Carlos Vasconcelos separar o escritor do cidadão, confessando já não ter paciência para quem não percebe o seu próprio dever cívico. Pepetela é um escritor com profunda consciência da sua responsabilidade cívica. Segundo o editor do Jornal de Letras, há muita artificialidade em muita produção literária recente, com vénias a modas. Não é o que passa com a literatura de Pepetela. A imaginação ajuda a fazer a realidade mais real. Os livros de Pepetela são exemplares nesse aspeto. Repare-se no último livro. Dentro desses parâmetros, ele é um historiador de Angola. Há poucos escritores que se sirvam do humor e do sarcasmo como Pepetela. E não só na escrita, como se viu durante os dias da Escritaria.
O aprofundamento do conhecimento do que é escrito, a receção dos textos pelo leitor comum e a divulgação popular em eventos como o da Escritaria inscrevem a produção literária de um autor – neste caso Pepetela - em vários estratos sociais e diferentes níveis de conhecimento. Esta construção de várias comunidades de leitura (ou de uma maior que congrega diferentes características) é essencial para que uma obra, seja individual ou como conjunto, sobreviva ao tempo e se inscreva no cânone. Pepetela escreve há décadas e continua a ser lido, debatido e, como no caso da Escritaria, louvado.
Pepetela faz agora parte do corpo e da memória de Penafiel.

Texto publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/pepetela-na-escritaria-a-ideia-de-livro-esta-em-risco/

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Shot #5: " Se Esta Rua Falasse", de James Baldwin





“Se Esta Rua Falasse” (Alfaguara) é um manifesto adaptado à ficção. Publicado pela primeira vez em 1974, este romance demonstra a vontade de um autor em não separar o activismo social e político da produção romanesca. Fonny e Tish, dois jovens negros de Harlem, conhecem-se desde pequenos, tornam-se namorados e decidem casar. Quando Fonny é preso por alegadamente ter violado uma rapariga porto-riquenha, Tish está grávida de algumas semanas. Ambos sentem, de forma muito distinta, o tempo passar. Enquanto o corpo de Fonny emagrece e é espancado na prisão, por resistir à violação, o físico de Tish altera-se devido à gravidez. Fonny luta para se manter vivo; Tish prepara-se para dar à luz o filho de ambos. Ela luta, juntamente com as respectivas famílias, para clarificar a inocência de Fonny. No entanto, a sociedade e a justiça são diferentes para quem é negro.
Para se passar incólume, é preciso ser preto de alguém. E Fonny não era preto de ninguém.
“Devemos ser o preto de alguém. E. se não formos o preto de alguém, somos um mau preto; e foi isso que os polícias decidiram que o Fonny era (…)”
(Esta afirmação de Tish, que narra a história de ambos, é o cerne de “I am not your negro”, documentário em que Baldwin participou como roteirista).
Os “underdogs” estarão sempre presos nessa condição. É a própria burocracia e a própria escassez de oportunidades que empurram o negro para uma situação irresolúvel. Onde para o branco há uma saída, para o negro há um muro.
“Se Esta Rua Falasse” é uma acutilante crítica social, tão própria de James Baldwin, dotada de personagens complexas, empáticas, com riqueza mais do que suficiente para transformar um manifesto numa belíssima história de amor e resiliência.
O quinto romance mostra o nova-iorquino James Baldwin (1924-1987) no seu melhor.


ISBN: 978989665646
1Edição ou reimpressão: 09-2018
Editor: Alfaguara Portugal
Idioma: Português
Dimensões: 150 x 233 x 14 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 208
Preço: 16,90













segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Shot #4: "Sessenta Contos", de Dino Buzzati






O tom encantatório de Dino Buzzati é irresistível.  “Sessenta Contos” (Cavalo de Ferro) compreende uma selecção representativa,  efectuada pelo autor, de um universo efabulado, onde o real é habitado por criaturas místicas, anacoretas, tiranos, devotos e cínicos. A singularidade da sua escrita, a simplicidade das histórias e a excelência na forma como as conta estão ao alcance de poucos escritores. Personagens como o cão Galleano, os dragões martirizados pelo homem ou o leproso inscrevem-se na realidade e na imaginação do leitor. Vivem além da última página. Mesmo nos textos seguintes, estes personagens fazem sombra nas novas criaturas inventadas pelo autor italiano. O leitor está sempre à espera de ser surpreendido com novas paisagens, acontecimentos irreais (mas verosímeis), personagens estranhas. E não sai desiludido. Por sua vez, o autor não esquece que há, do outro lado do texto, alguém que recepciona e intervém no sentido. Buzzati conta uma história sem incidir sobre um incipiente formalismo, ou uma nebulosa metaliteratura. Há uma história para ser contada, e há um leitor para ser encantado.  “Sessenta Contos” é para quem gosta e para quem não gosta de contos. É literatura apurada e do mais alto quilate. 




Sessenta Contos
ISBN: 9789896232559Ano de edição ou reimpressão: Editor: Cavalo de FerroIdioma: PortuguêsDimensões: 151 x 223 x 32 mmEncadernação: Capa duraPáginas: 456Tipo de Produto: Livro








PVP 23,99 € (IVA incluído)





segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Shot #3: "A Mente Aprisionada", de Czeslaw Milosz





"A Mente aprisionada" (Cavalo de Ferro), livro maior de Czeslaw Milosz (1911-2004), foi escrito entre 1951 e 1952. Situou-se contra a corrente intelectual francesa que não tinha uma perspectiva benéfica sobre o novo mundo de Leste, oponente dos EUA, governado por Estaline. O autor lituano propõe-se a debater a "vulnerabilidade da mente de século XX perante as doutrinas sociopolíticas e a sua predisposição para aceitar o terror do totalitarismo em nome de um futuro hipotético".   Apesar de ter sido escrito há cerca de 70 anos, "A Mente Aprisionada" mantém-se actual. As raízes do totalitarismo são denunciadas em pouco mais de 300 páginas.  A obra de Milosz é sempre de linguagem acessível, mas oscila em interesse. A clareza e acuidade da primeira parte é substituída por um capítulo (o terceiro, intitulado "O Ketman") em que o autor não consegue ser objectivo nos seus propósitos. Este capítulo menos conseguido (nunca desorganizado) não retira valor à obra. " A Mente Aprisionada" é exposto numa estrutura de pensamento que todos, alguma vez, já adoptámos em parte: “Não tendo mais a que se agarrar, os homens agarram-se a ilusões". Escrito por uma testemunha do nazismo, “A Mente Aprisionada” é um documento importante sobre os subterfúgios da mente quando em relação com o poder.  



AUTOR Czeslaw Milosz
COLEÇÃO Ensaio
ISBN 9789896232542
PVP 20,99 € (IVA incluído)
preço fixo até fim de setembro de 2019
1ª EDIÇÃO abril de 2018
EDIÇÃO ATUAL 1.ª
PÁGINAS 320
APRESENTAÇÃO capa mole
DIMENSÕES 150 x 225 x 22,5 mm



segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Shot #2: Tempo de Silêncio, de Patrick Leigh Fermor




O recolhimento de Patrick Leigh Fermor (1915-2011) nas abadias de França e nos mosteiros na Capadócia resultou num pequeno livro que tenta delinear o silêncio. “Tempo de Silêncio” (Tinta da China) é um corte acentuado no ruído. Karen Armstrong, autora do prefácio desta edição, afirma que “O nosso mundo é ainda mais ruidoso do que era nos anos 1950, quando Fermor escreveu este livro: a música enlatada e os telemóveis não param de tilintar, e foge-se do silêncio e da solidão como se fossem estranhos e contranatura.” A vida dos monges para alguém de fora dos mosteiros parece perversa, por ser tão antagónica com o mundo exterior. Dentro desse mundo silencioso contraria-se o abuso que o mundo exterior faz das palavras.
 A esgotante rotina diária, com as conversas de ocasião, os transportes para o trabalho e depois para casa, o trânsito e as mil trivialidades impedem o despertar espiritual frutifique na reclusão e no silêncio. 
Fe
rmor, no seu recolhimento, reduziu o mundo ao essencial. Subtraída de distracções, a sua voz interior surgiu límpida.
Mas nem todos conseguem contraditar o silêncio e a solidão. O sentimento de vazio dá espaço para o medo e a dúvida se instalarem. Tudo porque o ser humano se viciou em ruído e em velocidade. Um bom livro para se ler em silêncio.



Tempo de Silêncio
de Patrick Leigh Fermor 

ISBN: 9789896714338
Edição ou reimpressão: 04-2018
Editor: Tinta da China
Idioma: Português
Dimensões: 146 x 198 x 15 mm 
Encadernação: Capa dura Páginas: 136




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Shot #1: "A Língua Resgatada", de Elias Canetti





Feliz é o leitor quando tem nas mãos um livro com esta qualidade. Elias Canetti (1905-1194) fez da 
simplicidade a melhor forma para começar a contar a sua vida. "A Língua Resgatada – uma história da juventude" é o primeiro de três volumes, todos a serem editados pela Cavalo de Ferro. Em criança, Canetti vivia num prédio em que um inquilino tinha o estranho hábito de lhe pedir que mostrasse a língua para ele a poder cortar. "Eu deito a língua de fora, ele leva a mão ao bolso, tira um canivete, abre-o e quase encosta a lâmina à minha língua. No último momento afasta a faca, diz: "Hoje ainda não, amanhã" Surtiu efeito, pois "a criança manteve-se calada durante dez anos". Ao "resgatar a língua", o autor descreve os hábitos familiares da família. A tradição judia é descrita na perspectiva da criança paulatinamente mais crescida e mais consciente. A sua educação é da responsabilidade da mãe, uma vez que o pai morre muito cedo. Autores como Strindberg e Shakespeare compõem as leituras em conjunto. As viagens permitem que Canetti se forme um poliglota. Depois do Ladino (língua materna), ele vai assimilando o inglês, o alemão, o francês, o espanhol. A excelência do autor de "Massa e Poder" e "Auto-de-Fé" honra a literatura, como viria a dizer George Steiner. Canetti faz falta em qualquer biblioteca. 

AUTOR Elias Canetti
ILUSTRADOR
COLEÇÃO Biografia/Memórias
ISBN 9789896232474
PVP 21,98 € (IVA incluído)
preço fixo até fim de setembro de 2019
1ª EDIÇÃO abril de 2018
EDIÇÃO ATUAL 1.ª
PÁGINAS 352
APRESENTAÇÃO capa mole
DIMENSÕES 150 x 225 x 24,8 mm




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